Point of View — Gabriel Martinelli
Uma semana depois.
Tem semanas que passam devagar, arrastadas, como se o tempo estivesse zombando de você.E tem outras… que simplesmente desaparecem.
Essa foi assim.
Entre treinos, exames e a obsessão da Ana em me transformar numa máquina perfeita, eu mal percebi os dias passando. Ela me fez repetir testes, refazer avaliações, treinar até o corpo pedir arrego. Em alguns momentos, eu realmente considerei a possibilidade de estar doente e ninguém ter me contado.
Ou pior: que o clube estava escondendo alguma coisa.
Mas, no fundo, eu sabia.Ela só estava tentando me deixar pronto.
Para hoje.
Minha mãe tinha vindo para Londres. Disse que queria "me dar sorte", mas eu sabia que ela também estava nervosa. Talvez até mais do que eu.
Era sexta-feira.Dia da convocação.
E, mesmo tentando manter a calma, eu sentia meu corpo inteiro em alerta. As mãos suadas, o coração acelerado, a mente indo longe demais.
A esperança era pequena.Mas existia.
Isabella fez de tudo pra ficar comigo, mas tinha prova na faculdade. Eu entendi. Ou pelo menos tentei entender. Ainda assim… eu queria que ela estivesse ali.
Respirei fundo, encostado no sofá, e disquei.
— Vai, Ana… — resmunguei quando ela atendeu — vem ver a convocação comigo, por favor.
Minha mãe me olhou de lado.
— Gabriel… — o tom dela já veio carregado — eu conheço esse sorriso.
Revirei os olhos.
— Ih, mãe, para com isso. Nem durmo direito.
Ela soltou uma risada baixa, claramente sem acreditar.
Vinte minutos depois, a campainha tocou.
Ana entrou já em chamada de vídeo.
— Fala, vagabundo — Antony apareceu na tela, sorrindo — bença, tia.
— Deus te abençoe, meu filho — minha mãe respondeu, divertida.
— VAI COMEÇAR! — Antony gritou.
Na mesma hora, o silêncio tomou conta da sala.
Ana ajeitou o celular, se sentou ao meu lado… e foi ali que eu senti.
Minha perna não parava.Meu coração parecia querer sair do peito.
Eu estava prestes a descobrir.
— Relaxa… — ela sussurrou, segurando minha mão.
E aquilo… aquilo só piorou tudo.
— Os atacantes… — a voz do técnico ecoou.
Sem pensar, escondi o rosto no pescoço dela. Eu não conseguia olhar.
— Neymar… Richarlison… Vinícius Júnior… Raphinha… Antony…
Levantei a cabeça no mesmo segundo.
No celular, Antony estava em choque.Segundos depois, ele começou a gritar.
— PARABÉNS! — Ana comemorou.
Mas a lista ainda não tinha acabado.
— Pedro… Gabriel Jesus…
Meu coração travou.
— Gabriel Martinelli… Rodrygo Goes.
Silêncio.
Um silêncio absurdo, pesado, impossível de descrever.
Eu não conseguia respirar.
— Gabriel Martinelli… — repeti, quase sem voz — sou eu… né?
Minha mãe sorriu, com os olhos brilhando.
— É você, filho. Só existe um.
Eu pisquei.
Uma vez.Duas.
E então tudo veio de uma vez.
— Eu fui convocado… — olhei para Ana, que já sorria como se fosse uma vitória dela também — EU FUI CONVOCADO!
Arranquei o celular da mão dela.
— ANTONY! A GENTE FOI! A GENTE VAI PRA COPA!
Nós dois surtamos. Sem dignidade nenhuma. Pulando, gritando, rindo como duas crianças que tinham acabado de ganhar o mundo.
Porque, de certa forma… a gente tinha.
Desliguei a chamada e abracei minha mãe com força.
Depois, Ana.
Ela pulou em mim, e eu a segurei no ar, rindo.
— Eu vou pra Copa… — murmurei, ainda incrédulo — eu vou jogar uma Copa do Mundo.
— Você vai — ela respondeu, abraçada em mim — eu sabia.
Fechei os olhos por um segundo.
— Obrigado por estar aqui, minha pretinha… — sussurrei — te amo tanto.
E foi aí que a porta abriu.
Eu me afastei no mesmo instante.
Isabella estava parada ali.
— Já foi a convocação? — ela perguntou.
Engoli seco.
— Eu vou pra Copa.
Ela sorriu, correu até mim e me beijou.
— Parabéns, meu amor!
Por cima do ombro dela, vi Ana se afastar, abraçando minha mãe.
E, por algum motivo… aquilo pesou.
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@
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Meus meninos <3
|
@gabriel.martinelli
: te amo
@ana.cmacedo:
vocês merecem o mundo. Amo vocês.
|
@antony00
: obrigada minha gata, te amo
@
lucaspaqueta
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parabéns moleques, vejo vocês em Doha.
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Mais tarde, eu quis comemorar.
Chamei todo mundo pra jantar.Minha mãe, Isabella… e Ana.
Ela recusou.
Disse que era momento de família.
Eu quase fui atrás dela só pra obrigar a ir.
— A Ana não vem mesmo? — Isabella perguntou, já sentada no restaurante.
— Não — respondi seco — vamos pedir, tô com fome.
O jantar foi tranquilo. Leve, até. Eu estava feliz demais pra deixar qualquer coisa estragar aquilo.
Mas minha mãe…
Minha mãe me observava.
E aquilo me incomodava mais do que deveria.
Em casa, Isabella foi dormir quase imediatamente. Exausta.
Eu fui para a cozinha.
Abri o vinho.
Precisava de um tempo.
— Gabriel.
Quase derrubei a taça quando minha mãe apareceu.
— Eu já te vi bebendo — ela disse, rindo — deixa de teatro.
Suspirei, peguei outra taça e servi pra ela.
— Quer?
Ela aceitou.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Posso te perguntar uma coisa? — ela disse.
— Claro.
— Você gosta da Ana?
A pergunta me atingiu como um soco.
— Ficou maluca? — respondi rápido demais — ela é minha amiga. Quase uma irmã.
Minha mãe me olhou… daquele jeito que sempre me desmontava.
— Você sempre chamou de amizade — ela disse — porque era mais fácil.
Meu peito apertou.
— Vou dormir.
— Gabriel…
— Eu não gosto dela — cortei, irritado — e não sei por que todo mundo resolveu inventar isso agora. Vocês vão acabar estragando minha amizade com ela.
Ela não elevou a voz.
— Não é agora, filho.
Silêncio.
— Com dezoito anos, você conseguia disfarçar. Era fase, confusão… dava pra acreditar nisso.
Ela deu um gole no vinho.
— Mas agora você tem vinte e um.
Engoli seco.
— E você ainda olha pra ela do mesmo jeito.
Levantei o olhar, encarando minha mãe.
— Eu amo a Isabella.
E eu não estava mentindo.
— Então me deixa viver isso em paz.
Ela assentiu devagar.
— A Isa é uma boa menina.
Pausa.
— Mas ela é mulher.
Aquilo gelou meu corpo.
— Uma hora, ela vai perceber.
Silêncio.
— E vai doer.
Eu não respondi.
Não tinha resposta.
Me levantei, dei um beijo na bochecha dela e saí dali.
Porque, naquele momento…
Eu não sabia mais o que era verdade.