《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 12

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Memories of Gabriel Martinelli

Eu odiava escola.

Estava no terceiro ano do ensino médio e a única coisa que ainda tornava aquilo suportável era a Ana. Quando ela faltava… tudo parecia mais pesado.

Mas naquele dia, especificamente, não dava pra fugir.

Era dia de interclasse.

E, pra piorar, contra o nono ano.

E ela não estava lá pra assistir.

— Fala, Martinelli.

Eu parei ao ouvir a voz.

Higor.

Ele estava encostado perto do banheiro, com aquele sorriso que sempre me irritava.

— Cadê tua amiga hoje? — ele perguntou. — Aquela nerd… nem veio torcer por você?

Respirei fundo.

— Não fala dela.

Ele riu.

— Relaxa… — deu de ombros — antes ela era feia mesmo. Agora até que melhorou. Tá bonitinha… dá até pra pegar.

Meu maxilar travou.

— Mas continua estranha — ele completou. — Difícil de conversar. Muito certinha…

Eu não podia bater nele.

Não ali.

Não daquele jeito.

Eu já era maior de idade.

Ele não.

Aquilo podia acabar comigo.

Respirei fundo, sentindo o sangue ferver.

E então fiz a única coisa que eu sabia fazer naquele momento.

Chamei o Diego.

— Faz um favor pra mim?

— Fala.

Olhei diretamente pro Higor.

— Resolve isso pra mim.

Higor deu um passo à frente, rindo.

— Não se garante?

— Em campo eu resolvo — respondi, frio. — Aqui fora… você aprende do outro jeito.

Virei as costas.

Ouvi o início da confusão atrás de mim.

Não olhei.

Mas também não impedi.

Naquele dia, no interclasse, fiz dois gols.

E, por noventa minutos…

Descarreguei tudo.

• • •

Point of View — Gabriel Martinelli

— Me ajuda.

Eu andava de um lado pro outro na sala enquanto falava com Antony pelo telefone.

— Eu tô fazendo merda.

— Finalmente percebeu? — ele riu do outro lado. — Parabéns, evolução.

— Fala sério, Antony.

— Tá, vamos lá — ele suspirou. — Primeiro: ela gosta do namorado. E muito.

Aquilo já me irritou.

— Mas — ele continuou — ela vive em função dele. Se ele ligar agora e mandar ela voltar pro Brasil… ela volta. Então para de competir com o cara.

Fiquei em silêncio.

Porque, no fundo, eu sabia.

— Segundo — ele disse — a Ana ainda tá aprendendo a lidar com tudo isso. Ela sempre teve alguém ali. Agora tá sozinha, em outro país, outra rotina… você quer que ela aja como alguém totalmente resolvido?

Passei a mão no rosto.

— Nem você é assim — ele completou. — Então para de cobrar dela o que você não consegue fazer.

Aquilo me desmontou mais do que eu esperava.

— E terceiro — ele respirou fundo — resolve o que você sente.

— Eu não sinto nada.

— Você tem mais ciúme dela do que da sua própria namorada — ele respondeu na hora. — Quer mesmo mentir pra mim?

Fiquei em silêncio.

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— Se você gosta dela, assume. Pelo menos pra você.

— Eu só não quero ver ela se machucar.

— Tá — ele riu fraco. — Então começa não sendo você o cara que machuca.

Aquilo ficou na minha cabeça.

— E agora? — perguntei.

— Agora você vai lá — ele disse — pede desculpa, respeita o namoro dela e para de colocar ela contra a parede.

Respirei fundo.

— Me manda o endereço dela.

— Ih… tá feio mesmo — ele riu. — Tá bom, vou mandar. E, por favor, não faz nada que eu faria.

Sorri de lado.

— Pode deixar.

Desliguei.

Peguei a chave do carro — o "marca-texto ambulante", como ela gostava de chamar — e fui.

• • •

O porteiro não dificultou.

Um sorriso, uma foto, uma conversa rápida.

Resolvido.

Subi.

Bati na porta.

Nada.

Esperei.

Mais alguns minutos.

Nada.

Até sentir alguém puxar minha camisa.

— A moça saiu.

Olhei para baixo.

Um garoto pequeno me encarava, curioso.

— Obrigado… — respondi, meio sem jeito.

Logo a mãe apareceu, pedindo desculpas.

Eu ri.

Já tinha sido aquela criança.

Curioso demais pro próprio bem.

Sentei no chão do corredor.

E esperei.

Quando ela apareceu, quase não reconheci.

Carregava vários livros.

O rosto cansado.

Olhos vermelhos.

Ela não estava só cansada.

Ela tinha chorado.

E muito.

— Deixa eu te ajudar.

Peguei parte dos livros antes que ela recusasse.

Ela me olhou, surpresa.

Mas não disse nada.

Abriu a porta.

Entramos.

Coloquei os livros na mesa.

— O que você quer?

A voz dela saiu baixa.

Frágil.

Aquilo me desarmou.

— O que aconteceu?

— Ansiedade — respondeu, simples. — Fala logo.

Respirei fundo.

— Eu… vim pedir desculpa.

Ela não reagiu.

— Eu não quero me afastar de você — continuei. — Eu prometo tentar entender, respeitar… seu relacionamento também.

Ela desviou o olhar.

— Só… não se afasta de mim, Ana.

O silêncio ficou pesado.

— A gente esperou tanto pra estar no mesmo lugar — falei, mais baixo. — E agora que deu certo… não faz sentido perder isso.

Ela me olhou.

Pela primeira vez.

— Esse ano é importante pra mim — continuei. — Tem Copa… tem convocação… eu posso ser chamado.

Soltei um riso nervoso.

— Eu vou precisar de você.

Ela respirou fundo.

E, de repente…

Me abraçou.

Com força.

Como se estivesse segurando tudo.

— Eu amo ser seu amigo — murmurei, fechando os olhos. — Só isso. Eu só quero ser isso.

Ela não respondeu.

Mas começou a chorar.

Baixo.

Contido.

Doído.

Abracei ela mais forte.

— Fica tranquila — sussurrei. — Eu tô aqui.

Sentei no sofá, puxando ela comigo.

Ela se encaixou no meu ombro, como se já soubesse exatamente onde ficar.

E eu não perguntei.

Não quis saber o motivo.

Porque, naquele momento…

Só importava uma coisa.

Ela precisava de alguém.

E eu… estava ali.

— Te amo, pretinha — falei baixo, quase sem pensar.

Ela não respondeu.

Só apertou mais.

E chorou.

E, por um instante…

Eu senti tudo voltar.

Como se ainda tivesse dezoito anos.

Sem saber o que fazer com o que sentia.

Sem saber nomear aquilo.

Mas sabendo…

Que já não era só amizade.

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