Point of View — Ana Gabriela
— Posso conversar com você?
A voz do Higor soou atrás de mim enquanto eu terminava de preparar o café. Me virei, tentando manter a leveza.
— Claro. Bom dia… gostou de ontem?
Ele assentiu, mas não sorriu. Já veio sério.
— Senta aqui, Ana.
Aquilo me deixou alerta.
Obedeci, me sentando no banco da bancada. Ele ficou à minha frente, os braços cruzados, me observando como se estivesse tentando organizar as palavras.
— O Martinelli gosta de você.
Soltei um riso fraco, automático.
— Claro que gosta, Higor. A gente é amigo há anos…
— Não desse jeito.
O tom dele mudou. Firme.
— Ele é apaixonado por você.
O silêncio que se seguiu pesou.
— O quê?
— Você não percebe? — ele insistiu. — O jeito que ele te olha… não é amizade. Não é só isso.
Balancei a cabeça, sentindo um desconforto crescer dentro de mim.
— Eu nunca vi isso.
— Então você não quis ver.
Aquilo doeu.
— Não fala assim — respondi, a voz já mais baixa. — Eu só tenho olhos pra você.
Me levantei, me aproximando.
— O que ele sente ou deixa de sentir não é problema meu. Eu não controlo isso.
— Eu sei — Higor suspirou, passando a mão no rosto. — Eu não tô te acusando.
Mas ele estava.
E nós dois sabíamos.
— Eu só não vou competir com outro cara, Ana — ele continuou, mais calmo. — Ainda mais um que tá aqui, do teu lado, todo dia.
Senti o peito apertar.
— Não fala assim… — minha voz falhou. — Não fala como se fosse embora.
— Eu não quero isso — ele disse, mais baixo. — Mas também não vou fingir que tá tudo normal.
As lágrimas começaram a descer antes que eu pudesse impedir.
— Eu amo você — falei, firme. — Só você.
Ele me olhou por alguns segundos, como se tentasse medir a verdade naquilo.
— Então, se um dia isso mudar… — ele continuou — você me fala. Não mente. Não me prende numa história que não é mais nossa.
Aquilo me atravessou.
— Não vai mudar — sussurrei, abraçando ele. — Nunca vai ter outra pessoa.
Ele me abraçou de volta, mas o aperto foi diferente.
Mais contido.
Mais distante.
— Ele parece um cara bom — Higor murmurou, ainda me segurando. — Talvez nem saiba o que sente.
Fechei os olhos.
— Para de falar dele.
E, pela primeira vez, aquilo não foi só irritação.
Foi medo.
• • •
O resto do dia passou devagar.
Eu e Higor ficamos em casa, sem vontade de sair, como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele equilíbrio frágil.
Quando chegou a hora de ir ao clube, eu inventei uma desculpa.
Disse que não estava bem.
O fisioterapeuta foi no meu lugar.
Eu sabia que estava evitando.
E isso só piorava tudo.
Antony me mandou mensagem dizendo que estava indo embora de Londres. Disse que tinha gostado de me conhecer.
Respondi com carinho.
Mas minha cabeça estava longe.
Muito longe.
• • •
Duas semanas depois.
O apartamento parecia grande demais.
Silencioso demais.
Higor tinha voltado para o Brasil.
E eu… fiquei.
Sozinha.
Sentada no sofá, olhando para o nada, eu percebi o quanto aquela cidade ainda não era minha.
Respirei fundo.
Hoje o Martinelli voltava a treinar.
E eu não fazia ideia de como encarar ele depois de tudo que o Higor tinha falado.
Ou pior…
Depois do que eu comecei a pensar.
Peguei um táxi e fui para o CT, anotando mentalmente que precisava de um carro o quanto antes.
Quando cheguei, cumprimentei o porteiro e segui direto para minha sala.
— O Martinelli volta hoje — Samuel, o fisioterapeuta, disse. — Quero que você acompanhe de perto.
— Pode deixar.
Respirei fundo antes de sair.
O campo já estava movimentado.
Vi alguns jogadores treinando, entre eles o Gabriel Jesus, que acenou na minha direção antes de voltar ao exercício.
— TÔ ATRASADO!
A voz de Martinelli ecoou.
Meu corpo travou antes mesmo de eu virar.
Ele entrou correndo, jogando a mochila no canto e já indo para o treino.
Evitei encarar.
Fiquei focada nas anotações.
Mas era impossível não perceber.
O jeito que ele ainda protegia o pé.
O cuidado nos movimentos.
— Arruma esse domínio, Martinelli! — o treinador chamou.
Anotei.
Observei.
Fingi normalidade.
Quando o treino terminou, eu já sabia que não ia conseguir fugir.
Ele veio até mim.
— Posso falar com você sem ser xingado?
Ignorei a provocação.
— Seu pé?
— Não aguento noventa minutos ainda — ele respondeu. — Mas quarenta e cinco eu consigo.
Assenti, profissional.
— Vamos reavaliar antes de qualquer jogo.
Ele me encarou.
— Eu tentei — disse, de repente. — Tentei ser educado com teu namorado.
Revirei os olhos.
— Quer um parabéns por isso?
Ele soltou um suspiro, irritado.
— Você é complicada.
— Não. Você que complica tudo.
O silêncio ficou pesado entre nós.
E então eu falei.
Sem pensar.
— O Higor acha que você é apaixonado por mim.
Ele travou.
— E agora eu tô com isso na cabeça — continuei, mais baixa. — Eu não quero perder ele por causa disso.
O olhar dele mudou.
— Não… — hesitei — não chega perto de mim desse jeito.
— Desse jeito como? — ele retrucou, a voz subindo. — Eu não sou apaixonado por você, Ana. Eu tenho uma namorada.
Aquilo me atingiu de um jeito estranho.
— Então para de agir como se fosse — rebati.
— E você para de agir como se fosse uma criança — ele respondeu, mais duro. — Seu namorado é inseguro, e você tá comprando isso.
Senti meus olhos arderem.
— Não fala assim.
— Eu não vou fingir que tá tudo certo — ele continuou. — Você tá com medo de perder ele, mas nem percebe o que tá acontecendo de verdade.
— Eu sei exatamente o que tá acontecendo — minha voz falhou. — E eu não posso estragar isso.
Ele me olhou, sério.
— Você não é mais adolescente, Ana.
Aquilo doeu mais do que qualquer coisa.
Respirei fundo, forçando o profissionalismo.
— Meia hora de treino, depois gelo por dez minutos — falei, me afastando. — Se for relacionado pra jogo, passa por nova avaliação.
— Ana — ele chamou.
Ignorei.
— Esse relacionamento não tá te fazendo bem.
Aquilo foi o limite.
— Cala a boca!
Minha voz ecoou pelo campo.
— Eu nunca julguei o teu relacionamento — continuei, sentindo as lágrimas caírem. — Muito pelo contrário, eu sempre tentei respeitar. Coisa que você nunca fez com o meu.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
E então falou, mais baixo:
— Não tem como respeitar alguém que já quis te machucar.
Aquilo me paralisou.
Eu não respondi.
Não consegui.
Só virei as costas e fui embora.
Porque, naquele momento…
Eu não sabia mais no que acreditar.