Point of View — Gabriel Martinelli
Eu queria gritar.
Queria surtar, quebrar alguma coisa, qualquer coisa que aliviasse aquela pressão crescendo dentro do peito.
Ana estava testando todos os meus limites — e o pior de tudo era saber que, de certa forma, eu tinha provocado aquilo.
Levar o namorado para dentro da minha casa… aquilo já parecia provocação.
— FALA, MARTINELLI!
A voz de Antony invadiu o ambiente sem aviso. Levantei o olhar, encontrando ele já entrando, à vontade como sempre.
— Quem te deixou entrar? — perguntei, seco.
— Tua patroa, meu consagrado — ele respondeu, jogando-se no sofá ao meu lado. — E já aviso: hoje à noite a gente vai sair. Não aceito negativa.
Soltei um riso sem humor.
— Você nunca aceita.
— E nem vou começar agora. Inclusive, foi ideia da Isabella.
Balancei a cabeça, sem discutir. Eu não tinha energia pra isso.
Antony ficou ali o dia inteiro, falando besteira, tentando aliviar o clima — e, de certa forma, conseguindo. Mas o problema continuava ali, parado na minha cabeça.
Ana.
À noite, nos arrumamos para sair. Um lugar brasileiro em Londres, daqueles cheios, barulhentos, com música alta e gente animada demais. O tipo de ambiente que eu normalmente evitava… mas que, naquele momento, parecia melhor do que ficar sozinho com meus pensamentos.
— Vamos precisar de dois carros — Antony disse, já perto da porta. — Falta a Ana e o Higor.
Revirei os olhos.
— Claro que falta.
— Pega a outra chave lá dentro — Isabella pediu.
Antony entrou para buscar, e eu fiquei ali, encostado no carro, encarando o nada.
— Essa noite promete — murmurei, mais para mim mesmo.
— Gabriel — Isabella chamou, calma — não faz sentido você tratar o Higor assim. Ele é tranquilo.
Não respondi.
Porque não era sobre ele ser tranquilo.
Era sobre outra coisa.
Algo que eu nem queria colocar em palavras.
Antony voltou, e seguimos até buscar os dois.
Quando chegamos, eu simplesmente congelei.
Ana estava… diferente.
Um vestido dourado, justo, elegante. O cabelo solto, cacheado, caindo pelos ombros. Maquiagem leve, mas suficiente pra destacar tudo nela.
Ela estava linda.
E isso só piorava tudo.
Ao lado dela, Higor parecia… comum. Nada demais.
Eles entraram no carro de Antony, e seguimos.
A música alta do lugar já dava pra sentir antes mesmo de entrar. Funk, gente dançando, gritos, risadas.
Assim que chegamos, Isabella puxou Ana para a pista sem pensar duas vezes.
Eu, Antony e Higor ficamos.
— Vai lá, arruma alguém — Higor cutucou Antony, rindo.
— Nem posso — Antony respondeu, divertido.
Ignorei os dois.
Meus olhos estavam presos na pista.
Ana dançava sem preocupação, rindo, leve. Como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse… certo.
E isso me incomodava mais do que deveria.
Levantei e fui até o bar.
— Uma caipirinha.
Mal terminei de falar e senti Isabella me puxando.
— Vem dançar.
Ela me arrastou de volta para a pista. Segurei sua cintura, entrando no ritmo, mas minha atenção não estava ali.
Nunca esteve.
Ana dançava ao nosso lado, descendo até o chão, provocando risadas do namorado.
— Vou beber — ela disse, saindo.
— Pega uma cerveja pra mim? — Isabella pediu.
Assenti.
Voltei para o bar.
E lá estava ela.
Encostada, pedindo uma bebida.
— Mais uma caipirinha e uma cerveja — falei.
— Corote de canela — ela pediu.
Fiz uma careta.
— Sério?
Ela nem respondeu.
Respirei fundo.
— Ana…
Ela me olhou.
— Eu não aguento mais esse clima — continuei. — A gente ficou tempo demais sem se ver pra acabar assim.
Ela cruzou os braços.
— Foi você que escolheu isso, Gabriel.
Assenti, devagar.
— Eu sei que falei merda.
O silêncio ficou pesado entre nós.
— Mas eu só… — hesitei — só quero o teu bem.
Ela riu, sem humor.
— Engraçado. Porque não parece.
Pensei em dizer tudo.
Sobre o passado.
Sobre o que eu sabia.
Sobre quem Higor já tinha sido.
Mas parei.
Não era o momento.
Talvez nunca fosse.
— Só… me perdoa — falei, por fim.
Ela me encarou por alguns segundos, como se avaliasse minhas palavras.
Mas então apenas pegou a bebida e saiu.
Sem resposta.
Soltei o ar devagar.
— Aqui — o barman me entregou os copos.
Voltei para a mesa, entregando a cerveja para Isabella.
— Tive uma ideia — Antony disse, animado. — Tem um karaokê aqui perto. Vamos?
Ana, que já estava sentada, se animou na hora.
— EU QUERO CANTAR.
Isabella deu de ombros. Higor concordou.
E eu… apenas segui.
Era perto, então fomos andando.
O karaokê era pequeno, mas cheio. Luzes baixas, gente cantando alto, sem vergonha.
— Vamos! — Antony puxou Ana.
Os dois subiram no palco.
— Eles vão cantar "Friends" — Higor comentou, sorrindo.
Conhecia a música.
E, por algum motivo, isso me incomodou.
A música começou.
Antony abriu, brincando como sempre.
Mas quando Ana começou a cantar…
Eu parei.
A voz dela era boa.
Melhor do que eu esperava.
E a letra…
"And what the hell were we? Tell me we weren't just friends…"
Aquilo ficou na minha cabeça.
Pesado.
Direto.
Antony sentou no chão do palco, olhando pra ela, teatral.
— Tenho fetiche em mulher gostosa que canta bem — ele falou em português, arrancando risadas.
Eu nem consegui rir direito.
Porque ainda estava preso na frase.
"What the hell were we?"
O que diabos nós éramos?
Quando acabou, ela voltou para a mesa, sentando ao lado de Higor.
Fiquei olhando por alguns segundos antes de falar.
— Não sabia que você cantava.
— Só de brincadeira — ela respondeu, simples. — E essa nem é minha música.
Assenti.
Mas minha cabeça estava em outro lugar.
— Três anos de amizade… e eu ainda não te conheço direito.
Ela não respondeu.
— Você não faz ideia — Higor disse, entrando na conversa.
Ignorei.
Depois disso, a noite seguiu leve.
Risadas, músicas, brincadeiras.
Mas, pra mim, tudo parecia distante.
Como se eu estivesse ali… mas não completamente.
Voltamos tarde.
Quando cheguei em casa, nem pensei.
Só me joguei na cama.
E apaguei.
Mas a pergunta continuava lá.
Rodando.
Sem resposta.