《Amor de Infância, Destino de Adulto-Gabriel Martinelli》Capítulo 7

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Point of View — Gabriel Martinelli

Como eu e o Antony chegamos depois, nossos pratos demoraram mais do que os das meninas.

Enquanto esperávamos, acabei observando.

Ana e ele.

Próximos demais.

Riam de alguma coisa que eu não ouvi, trocavam olhares, dividiam o celular como se já se conhecessem há anos. Era uma cena comum — duas pessoas se conhecendo — mas, ainda assim, havia algo ali que me incomodava.

Talvez fosse porque eu conhecia o Antony bem demais.

Ou talvez fosse porque… eu tinha acabado de reencontrar a Ana.

E não queria perder isso.

Apertei os lábios, desviando o olhar. Não fazia sentido nenhum me sentir daquele jeito.

Então fiz o que parecia mais fácil.

Fugi.

— Vem comigo — sussurrei no ouvido da Isa.

Ela me olhou por um segundo, como se tentasse entender, mas acabou concordando.

A conduzi até um canto mais afastado, perto dos banheiros. Assim que paramos, puxei sua cintura e a beijei. Foi um beijo rápido no começo, mas intenso o suficiente pra tentar calar o barulho da minha própria cabeça.

Ela segurou meu pescoço, me puxando de volta quando me afastei por um segundo.

— Ei… — ela sorriu, com o olhar atento. — O que foi?

Passei a mão pelo rosto dela, tentando parecer normal.

— Nada… só quis te beijar. Não achei legal fazer isso na frente do Antony.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Certeza que é só isso?

Balancei a cabeça, puxando-a para um abraço. Enterrei o rosto no pescoço dela, respirando fundo.

Não era só isso.

Mas eu não sabia explicar.

Minha cabeça doía. Os últimos dias tinham sido uma confusão, e agora aquilo… só piorava.

— Vamos voltar — falei, baixo. — O Antony não sabe se comportar.

Ela riu de leve e concordou.

Voltamos para a mesa.

E lá estavam eles.

Ana e Antony, ainda rindo, ainda próximos. Ela virou o celular na minha direção.

— Olha o filtro!

Me aproximei, Isabella ao meu lado. Na tela, meu rosto apareceu com olhos enormes e distorcidos. Revirei os olhos.

— A maturidade de vocês me surpreende.

— Ih… — Antony passou o braço pelos ombros dela — só porque agora ela é minha amiga. E, diferente de você, eu gostei do Higor. Higor, né?

— Isso… — ela respondeu, um pouco sem jeito.

Algo estalou dentro de mim.

— Vai pra casa do caralho.

Assim que falei, senti o olhar da Isa em mim.

— Desculpa — resmunguei, sem encarar ninguém.

O clima morreu ali.

A comida chegou pouco depois, e o silêncio tomou conta da mesa. Eu nem tinha mais fome, mas comi assim mesmo.

No final, paguei a conta sem discutir.

— Todo mundo vai pra minha casa? — perguntei, já me levantando.

— Não — Ana respondeu na hora. — Vou pro hotel. Preciso começar a arrumar minha vida.

Soltei um suspiro irritado.

— Larga de show, Ana Gabriela. Vamos embora.

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Nem esperei resposta. Fui direto pro carro.

De alguma forma, consegui colocar todo mundo lá dentro.

E, durante o caminho inteiro, pelo retrovisor, eu via.

Ela e o Antony.

Rindo.

Próximos.

Como se fosse natural.

Respirei fundo, com força. Senti a mão da Isa pousar sobre minha perna.

— Ei… — ela murmurou.

Assenti, sem olhar.

Eu tava bem.

Eu tinha que estar.

---

Assim que chegamos, eles já entraram animados.

E, em poucos minutos, estavam fazendo uma live no meu Instagram.

No meu Instagram.

Me joguei no sofá, passando a mão no rosto. Minha cabeça latejava, como se fosse explodir a qualquer momento.

— Olha, o namorado da Ana entrou na live! — Antony falou alto demais. — Ele segue o Martinelli? Oi, namorado da Ana, quer entrar?

Eu quase levantei de um pulo.

— Você tá de sacanagem… — murmurei.

— Oi, amor — a voz dele veio pelo celular.

Fechei os olhos por um segundo.

Eles realmente tinham colocado o cara na live.

— E aí, Antony… — ele falou. — Oi… moça que eu esqueci o nome.

— Isabella — ela respondeu, rindo. — Vem cá, amor.

Antes que eu pudesse evitar, já estavam me puxando pra frente da câmera.

Olhei para o celular.

Ele estava lá.

O tal do Higor.

Nos encaramos por um segundo que pareceu longo demais.

Forcei um sorriso.

— Oi.

— Oi — ele respondeu, seco.

Claro que era seco.

— Ana, que isso? — ele continuou. — Dois dias em Londres e você já tá conhecendo todo mundo do futebol? Vou ter que ir aí pra você me apresentar os jogadores.

Ela riu, entrando na brincadeira.

— Vou pedir pro Antony te levar pro Manchester. Ou você prefere o Arsenal com o Gabi?

Soltei uma risada curta.

— Acho que, se você pelo menos começar a jogar na posição certa, talvez consiga segurar a barra da Europa.

Isabella virou o rosto na minha direção.

O silêncio do outro lado da tela durou um segundo.

— Eu jogo na posição certa — ele respondeu, direto.

Dei de ombros.

— Se o seu técnico concorda… quem sou eu.

Sorri de lado.

— Continuem sem mim. Boa sorte aí, Higor.

Saí dali antes que alguém falasse mais alguma coisa.

Voltei pro sofá e me joguei de novo, encarando o teto.

Aquilo não fazia sentido.

Nada fazia.

Depois de um tempo, a live acabou.

Ana decidiu ir embora.

Pensei em oferecer carona.

Mas não precisei.

— Eu levo ela — Antony disse, já pegando a chave do meu carro.

Assenti.

Fiquei quieto.

De novo.

A porta se fechou atrás deles.

Fechei os olhos.

A dor de cabeça voltou com força.

Um gemido baixo escapou.

— Ei… — senti a mão da Isa no meu rosto. — Tá tudo bem?

— Dor de cabeça — murmurei. — Só isso.

Ela não pareceu convencida.

Mas não insistiu.

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— O que você acha da Ana? — perguntei, de repente. — Eu meio que joguei ela na nossa vida… nem te perguntei nada.

Isa ficou em silêncio por um momento.

— Eu gostei dela — disse, por fim. — Ela é incrível.

Assenti.

— Só me preocupa o namorado — ela continuou. — Ela é sensível… essa distância vai machucar.

— Vai — concordei. — Mas foi escolha dela.

Abri os olhos.

Encarei Isa.

Ela suspirou, se inclinando pra me beijar.

Se ajeitou sobre mim, e eu a abracei automaticamente.

Ficamos ali.

Em silêncio.

Até o cansaço vencer.

• •

Memories of Gabriel Martinelli

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Mas não adiantava.

Aquela noite ainda estava viva na minha cabeça.

Eu tinha sido um idiota.

Trazer a Ana — com dezesseis anos — pra uma festa… já tinha sido uma péssima ideia.

Deixar ela beber… pior ainda.

Agora ela estava ali, rindo, dançando perto demais, completamente sem noção do próprio corpo.

Eu sabia o que podia acontecer.

E sabia que a culpa seria minha.

— Chega — segurei o braço dela. — Vamos embora.

— Por quê, Gabi? — ela riu, se aproximando demais. O cheiro de álcool era forte.

Apertei o maxilar.

— Porque eu tô mandando. Vamos.

Levei ela pra fora, ignorando as reclamações. Tirei duas balas do bolso e coloquei na boca dela.

— Fica quieta.

Ela obedeceu.

Por milagre.

Chamei um táxi, e ela ficou grudada em mim, o rosto escondido no meu pescoço.

— Acabaram as balas? — perguntei.

— Sim…

— Qual é o meu nome?

— Gabriel Teodoro Martinelli…

Soltei o ar.

— Tá melhor do que eu esperava.

Ela se aconchegou mais.

— Te amo…

Fechei os olhos por um segundo.

— Eu também te amo. Agora fica quieta.

— Você me acha bonita?

Aquilo me pegou desprevenido.

Olhei pra ela.

— Você é linda.

— Então por que eu não tenho namorado?

Desviei o olhar.

— Você tem tempo pra isso.

— A gente podia namorar… — ela murmurou.

Neguei com a cabeça, mesmo sabendo que ela nem ia lembrar depois.

— Você é nova demais, Ana.

O resto do caminho foi em silêncio.

Quando chegamos, levei ela direto pro meu quarto.

— Você não vai dormir fedendo álcool na minha cama — falei. — Vai tomar banho.

Ela riu.

E começou a tirar a roupa.

Virei de costas imediatamente.

— Eu vou lá fora.

Mal dei dois passos.

Um barulho alto.

— Merda! — ela reclamou.

Olhei por cima do ombro.

Erro.

Ela estava só de lingerie, no meio do chão bagunçado.

Respirei fundo.

— Banheiro. Agora.

Minha voz saiu mais dura do que eu queria.

Ela correu.

Fiquei ali por alguns segundos, tentando organizar a cabeça.

Aquilo estava errado.

Tudo aquilo.

Separei uma toalha e bati na porta. Sem resposta.

Abri devagar.

O banheiro estava cheio de vapor.

Deixei a toalha perto da pia e já ia sair quando ela saiu do box.

Congelei.

Por um segundo.

Desviei o olhar imediatamente.

— Desculpa — murmurei, virando de costas.

Saí do banheiro antes que minha mente começasse a ir pra lugares que não devia.

Minutos depois, entreguei uma camisa pra ela e esperei do lado de fora.

Tomei um banho rápido depois.

Precisava.

Quando voltei, ela estava sentada na cama.

Acordada.

— Eu nunca beijei — ela disse, do nada.

Franzi a testa.

— Nunca?

Ela negou.

— É bom?

Respirei fundo.

— É.

Ela me olhou.

— Me ensina.

Meu corpo travou.

— Não posso.

— Pode sim… eu nem vou lembrar.

Fechei os olhos por um segundo.

Aquilo estava errado.

Muito errado.

Mas ela se aproximou.

E, por um instante, eu cedi.

Foi rápido.

Um beijo curto.

Sem intensidade.

Sem intenção.

Só… um erro.

Me afastei na hora.

— Chega — falei. — Dorme.

Ela sorriu, como se nada tivesse acontecido, e se deitou.

Eu apaguei as luzes e me joguei no chão.

E ali, olhando pro teto, fiz uma promessa:

Aquilo nunca mais ia acontecer.

E aquela noite…

Nunca existiria.

Abri os olhos de repente.

A sala.

O sofá.

Isabella sobre mim.

Respirei fundo.

Droga.

Essas lembranças…

Nunca iam embora.

---

continua...

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