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《Ela Nasceu Duas Vezes》PARTE 5

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O aroma de chocolate ainda parecia pairar no ar do restaurante em Munique, mesmo horas depois de Isabela ter saído.

Não era apenas cheiro de doce — era algo mais profundo, quase como uma memória coletiva que ninguém ali conseguia nomear.

Rodrigo Hartmann permanecia sentado em silêncio, algo raro nele.

Não era perda de controle.

Era cálculo.

Ele observava os copos meio vazios, os restos de conversa, e principalmente o lugar onde a menina havia estado.

"Isso não foi sorte."

Ele disse baixo, para si mesmo.

Ao lado dele, um dos executivos tentou rir.

"É só uma criança talentosa com um bom discurso."

Rodrigo não respondeu imediatamente.

Depois falou, sem olhar:

"Nenhuma criança fala assim em três idiomas emocionais ao mesmo tempo sem algo por trás."

Naquela mesma noite, do outro lado da cidade, Augusto Von Berger estava em seu escritório particular.

O ambiente era escuro, iluminado apenas pela luz azul de um computador antigo.

Na tela: registros históricos da família Berger.

E um nome que não saía da cabeça dele.

Isabela Santos.

Ele voltou ao vídeo mental da noite anterior.

A voz.

A estrutura das frases.

O ritmo das pausas.

Não era ensino moderno.

Não era método escolar.

Era outra coisa.

Augusto abriu uma gaveta antiga e retirou um envelope envelhecido.

Dentro dele havia páginas escritas à mão.

"Receitas de infância da família Berger."

Ele passou os dedos lentamente sobre o papel.

E parou em uma linha específica:

"Chocolate amargo com canela e memória afetiva."

Ele fechou os olhos.

Flashback.

Uma cozinha antiga em um castelo europeu.

Uma menina jovem — Helena — mexendo uma panela de chocolate quente.

Uma voz masculina ao fundo:

"Não é apenas receita. É identidade. Você não esquece o que sente ao provar isso."

Helena sorria.

"Então isso não é comida… é lembrança."

O homem respondeu:

"É mais perigoso do que lembrança. É herança emocional."

Augusto abriu os olhos bruscamente.

E murmurou:

"Helena… você não parou de existir."

Na manhã seguinte, Isabela acordou no pequeno apartamento em Schwabing.

Conceição já estava de pé, preparando café simples.

O ambiente era humilde, mas quente.

Isabela sentou-se na mesa.

"Vovó… por que todo mundo ficou tão estranho ontem?"

Conceição hesitou.

Depois respondeu com cuidado:

"Porque você falou com algo que as pessoas esqueceram que ainda existe."

Isabela franziu a testa.

"O quê?"

Conceição sorriu levemente.

"Verdade com sabor."

Isabela riu baixo, sem entender completamente.

Mas algo nela lembrava da noite anterior.

O silêncio depois da primeira venda.

O olhar das pessoas mudando.

E aquele homem velho… Augusto.

Enquanto isso, em um prédio corporativo em Munique, Rodrigo Hartmann estava em reunião fechada.

Um relatório foi colocado à sua frente.

"Origem dos chocolates apresentados por Isabela Santos."

Rodrigo leu em silêncio.

E sua expressão mudou pela primeira vez.

"O quê isso significa?"

O analista respondeu:

"Os ingredientes não são comuns. Parte da fórmula está registrada em arquivos históricos de uma fundação desativada… ligada à família Berger."

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Rodrigo ergueu o olhar.

"Família Berger?"

O analista confirmou.

"Sim. Uma linhagem ligada a indústria alimentícia aristocrática alemã. Especializados em psicologia sensorial aplicada a alimentos."

Rodrigo encostou na cadeira.

Agora o jogo havia mudado.

"Então ela não está vendendo chocolate."

Ele disse lentamente.

"Ela está ativando memória."

Na casa de Augusto, o telefone tocou.

Ele atendeu imediatamente.

Uma voz do outro lado:

"Senhor Von Berger… encontramos algo nos registros de nascimento do hospital."

Augusto ficou imóvel.

"Fale."

Houve uma pausa.

"Não há apenas uma criança registrada sob Helena Santos."

Silêncio.

Augusto apertou o telefone com força.

"Explique."

A voz continuou:

"Houve uma duplicação de registro no mesmo dia. Dois documentos diferentes. Duas entradas. Mas apenas uma criança foi oficialmente liberada."

Augusto fechou os olhos.

E algo dentro dele começou a desmoronar.

De volta ao apartamento, Isabela estava agora desenhando na mesa.

Conceição observava em silêncio.

A menina desenhava uma casa grande.

E duas mulheres dentro dela.

Conceição perguntou suavemente:

"O que você está desenhando?"

Isabela respondeu sem olhar:

"Uma casa que eu nunca vi… mas lembro dela quando fecho os olhos."

Conceição congelou.

"Você lembra?"

Isabela assentiu.

"Às vezes, quando eu sinto cheiro de chocolate… eu vejo uma voz dizendo meu nome diferente."

Conceição deixou a xícara cair levemente sobre o pires.

"Que nome?"

Isabela respondeu:

"Isabella… com dois ‘l’."

O mundo pareceu parar para Conceição.

Naquela mesma hora, Augusto estava diante de um arquivo recém-desbloqueado.

Ele leu em voz baixa:

"Projeto Berger: Memória Sensorial Hereditária."

Suas mãos começaram a tremer.

"Isso não pode ser real…"

Mas continuou lendo.

"O objetivo do projeto era preservar identidade familiar através de estímulos alimentares em descendentes diretos."

Augusto recuou um passo.

E então viu uma linha final:

"Aplicação experimental realizada em descendente direta de Helena Santos."

Ele ficou completamente imóvel.

"Isabela…"

Ele sussurrou.

Rodrigo, no escritório, fechou o arquivo que estava lendo.

E pela primeira vez não estava sorrindo.

Ele pegou o telefone.

"Quero tudo sobre o fundo educacional que foi oferecido a essa menina."

A assistente respondeu:

"Senhor… o fundo não veio de uma instituição comum."

Rodrigo franziu a testa.

"De onde veio então?"

Pausa.

"De uma conta vinculada ao nome Berger."

Silêncio absoluto.

Rodrigo se levantou lentamente.

E disse:

"Então ela não é apenas uma criança talentosa."

Ele respirou fundo.

"E alguém está investindo nela como se fosse um ativo de herança."

Ele olhou pela janela.

E completou:

"Quero saber quem está tentando trazê-la de volta para a família Berger."

Na última cena daquela noite, Augusto abriu novamente o arquivo principal.

E encontrou algo que não deveria existir.

Uma fotografia antiga.

Helena.

Segurando um bebê.

E ao lado da imagem, uma anotação escrita à mão:

"Isabela – confirmação parcial de ligação genética ativa."

Augusto largou o papel.

E no silêncio do escritório, apenas uma frase escapou de sua voz quebrada:

"Então ela não é só filha de Helena…"

Ele parou.

E a tela do computador mudou sozinha para um novo documento:

RELATÓRIO DE FUNDOS TRANSFERIDOS PARA EDUCAÇÃO DE ISABELA SANTOS

E o nome do último investidor apareceu na tela:

Rodrigo Hartmann

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