O céu sobre o Rio de Janeiro estava pesado naquela manhã.
Não de chuva.
Mas de silêncio.
O tipo de silêncio que antecede decisões irreversíveis.
No Palácio Laranjeiras, nenhuma janela estava aberta.
Nenhum som externo entrava.
Era como se o mundo tivesse sido fechado em torno de Eveline Duarte Lima e Cassian Montenegro Vasconcelos.
Caio estava sozinho na sala de contenção.
Sem algemas agora.
Sem guardas visíveis.
Mas também sem liberdade.
Porque já não era mais um homem com poder.
Era um homem com fim definido… aguardando forma.
A porta se abriu.
Eveline entrou.
Sozinha.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
O passado inteiro parecia comprimido naquele espaço pequeno.
Estrada da neve.
Hospital.
Catedral.
Arquivo.
Sistema.
Tudo.
Caio foi o primeiro a quebrar o silêncio.
“Você veio me ver cair de vez.”
A voz dele estava baixa.
Não arrogante.
Cansada.
Eveline respondeu sem hesitar.
“Eu vim porque você ainda não entendeu o que aconteceu com você.”
Caio soltou uma risada curta.
“Eu perdi tudo. Acho que entendi bastante.”
Ela deu um passo à frente.
“Você não perdeu tudo.”
Silêncio.
“Você foi removido.”
A palavra atingiu mais forte do que qualquer acusação.
Caio desviou o olhar.
“Isso não muda o que eu fiz.”
Eveline ficou imóvel por um instante.
E então falou:
“Não muda.”
Ela respirou fundo.
“Mas também não explica tudo.”
Caio a encarou.
“Agora você está defendendo o homem que me destruiu?”
Eveline negou imediatamente.
“Não.”
Silêncio.
“Eu estou tentando entender o sistema que destruiu nós dois.”
Caio fechou os olhos por um segundo.
E quando abriu, havia algo quebrado ali.
“Não existe nós.”
Eveline respondeu:
“Existiu.”
Silêncio.
Ela caminhou lentamente pela sala.
“Você acha que isso sempre foi sobre você.”
Ela parou.
“Mas não foi.”
Caio franziu o cenho.
“Então sobre o quê?”
Eveline olhou diretamente para ele.
“Sobre controle.”
Silêncio.
“Você não foi o vilão principal.”
Ela continuou.
“Você foi o instrumento mais visível.”
Caio ficou imóvel.
“Isso não me absolve.”
“Eu sei.”
Silêncio.
Ela respirou fundo.
“Eu vi tudo.”
A voz dela ficou mais baixa.
“A estrada. O sangue. A decisão.”
Caio apertou os punhos.
“Então por que ainda está aqui?”
Eveline respondeu sem emoção:
“Porque ódio não me devolve o que perdi.”
Silêncio profundo.
Caio deu um passo à frente.
“E o seu filho?”
A pergunta ficou suspensa no ar.
Eveline não desviou o olhar.
“Ele não volta.”
Silêncio.
“E por isso mesmo…”
Ela pausou.
“Eu não vou deixar que ele seja usado para continuar destruindo vidas.”
Caio franziu o cenho.
“Você está falando como se ainda houvesse algo maior.”
Eveline respondeu imediatamente:
“Há.”
Silêncio.
Ela caminhou até a janela fechada.
“Você lembra do sistema?”
Caio assentiu lentamente.
“Ele não parou.”
Ela virou-se para ele.
“Ele apenas mudou de alvo.”
Silêncio.
Caio ficou rígido.
“Qual alvo?”
Eveline respondeu:
“Quem realmente nasceu naquela noite.”
O ar pareceu desaparecer da sala.
Caio ficou imóvel.
“Você está dizendo que existe outra pessoa.”
Eveline assentiu.
“Sim.”
Silêncio absoluto.
“E essa pessoa…”
Ela respirou fundo.
“…não foi apagada.”
Caio deu um passo para trás.
“Impossível.”
Eveline respondeu:
“Eu também achava isso.”
Silêncio.
Nesse momento, o sistema interno do palácio começou a emitir um som distante.
Um alerta.
Baixo.
Constante.
Caio olhou para o teto.
“Isso não deveria estar ativo.”
Eveline ficou imóvel.
“Eles ativaram de novo.”
A luz da sala mudou.
Ficou mais fria.
Mais artificial.
Uma voz automatizada ecoou pelos alto-falantes:
“PROTOCOLO DE CORREÇÃO EM ANDAMENTO.”
Caio empalideceu.
“Correção?”
Eveline respondeu lentamente:
“Eles vão ajustar a história novamente.”
Silêncio.
“E desta vez…”
Ela virou-se para ele.
“…não vão preservar ninguém.”
Caio deu um passo em direção à porta.
“Eu preciso sair daqui.”
Eveline bloqueou o caminho.
“Não adianta.”
Silêncio.
“O sistema já te removeu.”
Caio congelou.
“Você não entendeu ainda?”
Ela continuou.
“Você já não pertence a lugar nenhum.”
Silêncio profundo.
De repente, todas as luzes do palácio apagaram por um segundo.
Total escuridão.
E então voltaram.
Mas algo estava diferente.
A voz do sistema voltou:
“IDENTIDADE ORIGINAL LOCALIZADA.”
Eveline fechou os olhos.
“Começou.”
Caio olhou para ela.
“Começou o quê?”
Ela respondeu baixinho:
“A parte em que descobrem quem realmente deveria ter sobrevivido naquela noite.”
Silêncio.
E então o sistema exibiu uma nova linha em todas as telas do palácio:
“HERDEIRO ORIGINAL CONFIRMADO.”
Caio empalideceu completamente.
Eveline sussurrou:
“Eles não estavam procurando a mim…”
Ela virou lentamente o rosto em direção ao corredor escuro.
“…estavam procurando o outro nome que nunca foi apagado.”