A Catedral de São Miguel do Império ainda vibrava com o eco das revelações quando algo inesperado aconteceu.
O ar ficou mais frio.
Não era metáfora.
As luzes dos vitrais tremularam por um instante, como se o próprio tempo tivesse sido puxado para trás.
E então tudo mudou.
O som da catedral desapareceu.
O cheiro de incenso sumiu.
E o mundo começou a girar para trás.
Caio Montenegro Vasconcelos abriu os olhos.
Mas não estava mais na catedral.
Ele estava dentro de um carro.
Um veículo preto, antigo, atravessando a Estrada da Serra de Petrópolis sob uma tempestade de neve que não deveria existir no Rio de Janeiro.
Ele respirou rápido.
“Não… isso não…”
Mas sua voz não tinha controle.
Ao lado dele, uma jovem tremia no banco do passageiro.
Eveline.
Mais jovem.
Pálida.
Grávida.
O vidro do carro estava embaçado pelo frio.
Ela segurava o próprio ventre com as duas mãos.
“Caio… por favor… eu estou sangrando.”
A voz dela era quebrada, desesperada.
Ele não respondeu imediatamente.
Seus olhos estavam fixos na estrada.
A neve caía mais forte.
A estrada estava quase invisível.
E o carro avançava rápido demais.
“Eu preciso de um médico”, ela repetiu, agora chorando. “O bebê… algo está errado…”
Caio apertou o volante.
“Você vai parar com isso.”
A voz dele naquele momento era diferente.
Fria.
Impaciente.
Ela virou o rosto para ele, incrédula.
“O quê?”
Ele não olhou para ela.
“Você sabia exatamente no que estava entrando.”
O silêncio dentro do carro ficou pesado.
A neve batia no vidro como pequenas explosões silenciosas.
Eveline começou a respirar com dificuldade.
“Eu não estou mentindo… Caio, eu estou com dor…”
Ele finalmente olhou.
E havia irritação.
Não preocupação.
“Você quer me prender a você com isso?”
Ela arregalou os olhos.
“Você acha que eu… fiz isso de propósito?”
Ele desviou o olhar de novo.
“Não importa.”
Essas duas palavras mudaram tudo.
O carro parou de repente.
No meio da estrada.
A tempestade parecia engolir tudo ao redor.
Eveline tentou abrir a porta.
“Me leva para um hospital!”
Caio segurou o braço dela com força.
“Não.”
Ela congelou.
“O que você disse?”
Ele respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão antiga.
“Você vai sair aqui.”
Ela riu em choque.
“Você enlouqueceu?”
Caio abriu a porta do motorista.
O vento frio invadiu o carro como uma lâmina.
“Não posso ser visto com você nesse estado.”
Ela ficou paralisada.
“Eu estou grávida de você!”
Ele não respondeu.
Só apontou para fora.
“Desce.”
A palavra caiu como sentença.
Eveline saiu do carro cambaleando.
A neve cobria o chão da estrada.
Suas pernas falharam imediatamente.
Ela caiu de joelhos.
“Caio… por favor…”
Ele ficou dentro do carro.
Observando.
Sem sair.
Sem hesitar.
Ela se arrastou até a porta aberta.
“Eu estou perdendo sangue…”
Sua voz já não era forte.
Era quebrada.
“Eu não consigo sentir minhas pernas…”
Caio olhou para ela por um longo segundo.
E então fechou a porta.
O som ecoou na estrada vazia.
CLACK.
O motor foi ligado.
Eveline ficou imóvel.
“Não… não faz isso…”
Ela bateu no vidro.
“Não me deixa aqui!”
O carro começou a se mover.
Lentamente.
Depois mais rápido.
A neve engoliu as luzes traseiras.
E então… ele desapareceu.
O silêncio tomou conta da montanha.
Eveline ficou sozinha.
Na neve.
Grávida.
Sangrando.
Ela tentou se levantar.
Caiu novamente.
“Alguém… por favor…”
Mas não havia ninguém.
A estrada parecia infinita.
O vento cortava sua pele.
Ela olhou para o céu.
“Eu não posso morrer assim…”
Sua mão desceu ao ventre.
“Ele ainda está aqui…”
Mas o corpo não respondeu como antes.
O frio estava vencendo.
A visão começou a falhar.
E então ela viu algo ao longe.
Luzes.
Um carro voltando?
Ela tentou se levantar de novo.
“Caio…?”
Mas não era ele.
Era outro veículo.
Um caminhão.
Grande.
Sem frear.
Eveline tentou gritar.
Mas a voz não saiu.
O impacto nunca foi mostrado completamente.
Só o som.
Metal contra neve.
Um grito quebrado.
E depois… silêncio.
Caio estava dirigindo de volta pela estrada.
Sozinho.
Respiração controlada.
Mãos firmes.
Mas algo dentro dele ainda tremia.
Ele olhou pelo retrovisor.
Nada.
Só neve.
“Ela vai sobreviver”, ele disse para si mesmo.
Mas sua voz não tinha certeza.
Ele acelerou.
O mundo voltou a girar.
A Catedral reapareceu.
Os rostos dos nobres retornaram.
Mas agora tudo parecia mais pesado.
Como se a verdade tivesse deixado marcas invisíveis em cada parede.
Eveline estava de volta ao presente.
O rosto adulto.
A cicatriz visível.
Os olhos cheios de algo que não era mais dor simples.
Era memória confirmada.
Ela olhou para Caio.
E ele sabia.
Ela tinha visto tudo.
Ela tinha sentido tudo de novo.
“Então é isso…”, ela disse lentamente.
Sua voz não tremia mais.
“Você não me abandonou só uma vez.”
O silêncio era absoluto.
Caio não respondeu.
Porque não havia resposta possível.
Eveline deu um passo à frente.
“Você me deixou morrer naquela estrada.”
A catedral inteira pareceu prender a respiração.
O Rei Augusto fechou os olhos em dor.
Caio tentou falar.
Mas não conseguiu.
Eveline continuou.
“E agora quer me dizer que isso foi amor?”
O ar ficou pesado demais para respirar.
E então, atrás deles, um dos guardas reais entrou correndo pela lateral da catedral.
Ele estava sem fôlego.
“Majestade… o registro da noite da estrada…”
Ele parou.
Engoliu seco.
“…não foi apenas acessado.”
Silêncio total.
Ele levantou os olhos.
“…foi reescrito novamente agora.”
E todos entenderam a mesma coisa ao mesmo tempo.
Alguém ainda estava tentando mudar o passado.
Mas dessa vez… não para esconder a verdade.
E sim para destruir quem ainda restava dela.