Ela era como uma espada de dois gumes.
Pode ferir, mas também pode salvar.
Não evitava mais deliberadamente usar as mãos para tocar em objetos.
Tirei aquela luva que usei por dois meses.
Claro, ainda tomava muito cuidado.
Apenas tocava quando era necessário.
A vida parecia ter voltado ao normal.
Ao ver que meu estado estava muito melhor, Xavier me transferiu de volta para o posto de inspeção.
Ele não perguntou por que eu garanti o idoso naquele dia.
Ele apenas disse: "Zico, confio no seu julgamento."
Essa confiança foi mais reconfortante do que qualquer prêmio.
Passou mais um mês.
Depois do trabalho, um dia, Xavier me chamou.
"Está livre à noite? Vamos jantar juntos."
Sua expressão era muito séria, não parecia um jantar comum.
Balancei a cabeça.
Fomos a um restaurante de comida de Sichuan bem isolado.
Pedimos uma sala privativa.
Pedimos alguns pratos e uma garrafa de licor.
Depois de algumas rodadas.
Xavier pousou os pauzinhos.
"Zico, o relatório final do caso de Fabiana foi concluído."
"Hum", respondi.
"Seu nome foi mencionado no relatório."
Senti um aperto no coração.
"Não tínhamos combinado que seria confidencial?"
"É confidencial. Este relatório é de nível ultrassecreto, apenas algumas poucas pessoas podem vê-lo", disse Xavier. "No entanto, sua 'contribuição especial' chamou a atenção de algumas pessoas lá em cima."
Ele tirou uma pasta de documentos da maleta e me entregou.
Estava aberta.
Abri e dentro havia um documento muito fino.
O título era "Esboço preliminar sobre o estabelecimento de um banco de informações de talentos especiais".
Folheei rapidamente.
O documento mencionava que, em alguns casos especiais, os métodos convencionais de investigação encontram gargalos.
E que indivíduos com "intuição extraordinária" ou "capacidade sensorial especial" muitas vezes podem fornecer avanços cruciais.
O documento sugeria a triagem e a criação secreta de um banco de talentos desse tipo em todo o país.
Para fornecer suporte à segurança nacional, quando necessário.
Na lista de "pessoal a ser examinado" do anexo.
Vi meu nome.
Zico.
Administração Geral das Alfândegas, Sub-agência do Aeroporto da Cidade X.
A observação era: percepção por contato (resíduos de emoções, memórias), já comprovada no "Caso de afogamento no reservatório de 18 de novembro".
Minha palma da mão começou a suar.
Esta não era uma ordem de premiação.
Era uma ordem de convocação.
"O que isso significa?", perguntei a Xavier.
"Significa que você foi visado", Xavier tomou um gole de licor, com o rosto solene.
"Não foi ideia minha procurá-lo hoje."
"Alguém quer vê-lo."
Assim que terminou de falar.
A porta da sala privativa foi aberta.
Um homem vestindo um terno Zhongshan cinza entrou.
Parecia ter cinquenta e poucos anos, estatura baixa, mas olhos afiados como os de uma águia.
Não havia ninguém atrás dele.
Ele caminhou diretamente até mim.
"Camarada Zico, olá."
Ele estendeu a mão.
"Meu sobrenome é Chen, venho de um departamento que você nunca ouviu falar."
Sua voz era firme, mas carregada de autoridade.
Olhei para a mão que ele estendia.
Hesitei.
Eu estava pensando, se eu apertasse essa mão.
O que eu veria?
Seriam segredos de estado ou o passado de um indivíduo?
Seria lealdade ou ambição?
Eu não sabia.
Só sabia que, uma vez apertada.
Minha vida nunca mais voltaria ao que era.
Xavier tocou minha perna levemente sob a mesa.
Respirei fundo.
Levantei minha mão direita e apertei a dele.
Sua mão estava quente, seca e firme.
Não houve nenhuma imagem.
Não houve nenhuma emoção.
Como se estivesse segurando uma pedra comum.
Fiquei paralisado.
O Diretor Chen sorriu.
Ele parecia ter lido meus pensamentos.
"Não precisa tentar, Camarada Zico."
"As pessoas do nosso departamento, na primeira aula ao entrar, aprendem como se ocultar."
"Ocultar-se para não ser visto pelos outros."
"E também se ocultar, para não ver os outros."
Ele soltou a mão e sentou-se na cadeira ao lado.
"Vim hoje para lhe fazer uma pergunta formalmente."
Ele me olhou com olhos brilhantes.
"Você está disposto a usar sua habilidade para ver um mundo maior?"
Capítulo 13
Um mundo maior.
Essa frase do Diretor Chen soou como uma chave.
Inserida em uma porta dentro da minha mente.
O que havia por trás da porta?
Eu não sabia.
Mas vagamente podia sentir que era um lugar cheio de desconhecido e perigo.
Um campo que, nos meus trinta anos de vida, eu jamais havia imaginado.
Meu olhar desviou do rosto do Diretor Chen para o de Xavier.
A expressão de Xavier era complexa.
Havia encorajamento, preocupação e um pouco de... inveja?
De repente, entendi.
Talvez Xavier também tivesse sido um membro deste mundo.
Ou talvez ele sempre tivesse desejado ser um membro deste mundo.
Ele conhecia a paisagem por trás daquela porta.
Era por isso que ele confiava tanto em mim.
E me protegia tanto.
Ele não estava treinando um subordinado comum.
Ele estava protegendo uma semente capaz de abrir aquela porta.
Agora, a semente estava prestes a brotar.
A hesitação em meu coração se dissipou instantaneamente.
A vida passada era estável, mas também como um lago estagnado.
O caso de Sheila foi como uma pedra gigante que quebrou a calmaria desse lago.
Permitindo-me ver as ondulações sob a superfície.
A urna funerária do idoso, por outro lado, me fez sentir outro tipo de força.
Um calor que atravessa a vida e a morte.
Estas minhas mãos podem tocar o ressentimento, mas também podem tocar a saudade.
Podem revelar o pecado, mas também podem confortar a alma.
Se apenas fossem usadas no dia a dia da inspeção de bagagens.
Isso seria um verdadeiro desperdício.
Respirei fundo e olhei para o Diretor Chen.
"O que preciso fazer?"
Não perguntei sobre salários, sobre cargo, nem sobre qualquer questão mundana.
Fiz apenas essa pergunta.
Nos olhos do Diretor Chen, um brilho de aprovação passou.
Ele assentiu.
"Você não precisa fazer nada."
"Você só precisa ser você mesmo."
"Conte-nos tudo o que você viu e sentiu."
"O resto, deixe conosco para julgar."
Dito isso, ele tirou outro saco de evidências da pasta que carregava.
Exatamente igual ao da última vez, aquele que continha a espuma.
Mas o que estava dentro não era uma pedra.
Era uma caneta tinteiro muito antiga.
Uma caneta Parker dourada.
Na tampa, estava gravada a letra inglesa "K".
"Esta conta como sua primeira avaliação."
O Diretor Chen colocou o saco de evidências sobre a mesa e empurrou-o para mim.
"Diga-nos o que você vê nela."
A respiração de Xavier tornou-se mais leve.
Não peguei imediatamente.
Apenas olhei para a caneta.
Ela jazia silenciosamente no saco transparente.
Como uma história selada.
Pude sentir uma aura completamente diferente da do caso de Sheila.
Sem ressentimentos.
Sem frieza.
E sim, uma espécie de... tensão.
Uma sensação de tensão extremamente reprimida, como dançar na ponta de uma faca.
Coloquei as luvas de perícia.
Com cautela, abri o saco de evidências e retirei a caneta.
Um leve frescor ao toque.
A textura do metal era pesada.
Meus dedos envolveram o corpo da caneta.
Fechei os olhos.
Instantaneamente.
Inúmeras imagens caóticas inundaram minha mente.
Não eram alucinações.
Pareciam mais inúmeras fotografias passando rapidamente.
Um papel de telegrama cheio de códigos.
Um porão escuro.
Um telégrafo apitando.
Um par de mãos digitando rapidamente em um teclado.
Essas mãos eram firmes, com nós dos dedos bem definidos.
Mas o dono das mãos estava com o coração acelerado.
Eu podia "ouvir" o som daquelas batidas cardíacas.
Cada tecla pressionada era como uma aposta.
Do lado de fora da janela, havia uma paisagem de rua europeia desconhecida.
Soldados em patrulha passavam.
O som das botas de couro pisando nas ruas de paralelepípedos era excepcionalmente claro.
A imagem mudou.
Um encontro secreto.
Em um banco de parque.
Duas pessoas trocaram informações usando um jornal.
Não consegui ver seus rostos.
Mas pude sentir aquela atmosfera de paranoia e medo constante.
Traição, mentiras, morte.
Essas palavras, como marcas de ferro em brasa, estavam gravadas nesta caneta.
Finalmente, a imagem travou.
As mãos que digitavam no teclado caíram, fracas.
A caneta escorregou de suas mãos.
Caiu no chão.
Produzindo um som nítido.
Abri os olhos bruscamente.
Minha testa estava coberta de suor frio.
"Como foi?", Xavier perguntou ansiosamente.
Respirei ofegante.
"O dono desta caneta já está morto."
"Ele era um espião. Ou melhor, um agente de inteligência."
"Ele trabalhou no exterior por muito tempo, transmitindo informações."
"Ele era muito solitário, muito tenso, sempre em perigo."
"No final, ele foi descoberto. Ele... cometeu suicídio."
Ao terminar de falar, senti que toda a minha força tinha sido drenada.
O Diretor Chen e Xavier trocaram olhares.
Em seus olhos, havia um choque que não conseguiram esconder.
O Diretor Chen começou a falar lentamente.
"Tudo o que você disse está correto."
"O dono desta caneta tinha o codinome 'K'."
"Foi um dos agentes de inteligência mais importantes do nosso país, infiltrado atrás das linhas inimigas por trinta anos."
"Há seis meses, sua identidade foi descoberta e, para não deixar informações confidenciais caírem nas mãos do inimigo, ele se envenenou."
"Esta caneta tinteiro é sua única lembrança, e tivemos muito trabalho para trazê-la de volta."
O Diretor Chen levantou-se e caminhou até mim.