Precisava provar que não tinha nenhum sentimento por Bianca.
Ele soltou a gravata, irritado, e acendeu um cigarro.
Entre a névoa do cigarro, o rosto de Bianca surgiu inexplicavelmente em sua mente, com o desespero profundo em seus olhos inchados enquanto o olhava.
E os soluços quebrados em sua voz.
Em algum lugar em seu peito, era como se fosse picado por uma agulha fina.
Nos últimos três anos, viveram sob o mesmo teto.
Ela preparava mingau quando ele estava doente, puxava-o para correr quando ele tinha insônia, encorajava-o a persistir quando ele sentia falta de Lívia —
Ele sabia que tinha passado dos limites.
Muito além dos limites.
Ele a bateu.
Não apenas uma vez.
Dez tapas.
No rosto de uma mulher que não cometeu erro algum e que se dedicou diligentemente a manter a imagem dele por três anos.
Ele havia prometido a ela que, durante o contrato, garantiria sua dignidade e segurança.
Mas...
Mas Lívia esperou por ele por três anos.
Ele jurou que não a deixaria sofrer nenhuma injustiça.
Quanto a Bianca — entre eles, desde o início, foi apenas um negócio. Um troca por troca, cada um buscando o que precisava.
Ele a bateu e também deu a compensação.
Ele fez o que pôde.
Não precisa sentir culpa.
Não precisa se sentir culpado.
Quanto àquele leve desconforto insignificante, era apenas pelo convívio de três anos, uma questão de cortesia.
Ele ama Lívia. Antes não tinha capacidade, não conseguia protegê-la.
Agora que tem capacidade, naturalmente não pode deixá-la sofrer.
Isso. É exatamente assim.
Capítulo 6
Dois dias depois, Bianca passou uma camada grossa de base no rosto e voltou à antiga residência com Mateo.
Como de costume, ela agradou a avó até que a idosa estivesse radiante de alegria.
A avó, como sempre, pediu que eles pernoitassem.
Nas estadias anteriores, Bianca sempre se oferecia para dormir no sofá, brincando com um sorriso:
“Esta é a nossa amizade revolucionária dividindo o mesmo quarto. Se um dia eu estiver na miséria, com base nesta amizade, você poderia me estender a mão?”
Mateo não respondia.
Mas sentia-se à vontade.
Ele até decidira mentalmente que, se Bianca precisasse de ajuda no futuro, ele não ficaria de braços cruzados.
Mas desta vez, Bianca dormiu no sofá silenciosamente.
Não disse mais uma palavra a Mateo.
Mateo olhou para aquela pessoa fria, querendo dizer algo, mas engoliu as palavras de volta.
Desde o incidente daquele dia, eles pareciam ter passado de amigos a estranhos.
Tão estranhos que ele se sentia incomodado.
A noite passou em silêncio.
No dia seguinte, Bianca entrou no banco do carona sob o olhar atento da avó.
Depois que o carro saiu da residência, Mateo recebeu um telefonema e parou em uma esquina.
Antes que ele pudesse falar, Bianca saiu do carro por conta própria.
Mateo olhou para ela através da janela: “O assistente virá buscá-la em breve.”
Bianca assentiu e disse educadamente: “Obrigada.”
Se não fosse pelo fato de aquela área de vilas ser impossível de conseguir um táxi, ela realmente não queria aceitar a gentileza dele.
A espera durou uma hora.
O telefone do assistente não atendia.
Ela pensou em voltar à residência, mas não poderia arcar com as consequências de retornar.
Ela suspirou.
Não faltava muito tempo, bastava persistir um pouco mais.
Assim que Bianca, caminhando com os saltos altos na mão por uma hora, finalmente saiu daquela vasta área de vilas —
Um carro acelerou em sua direção.
Ela tentou desviar por instinto, mas como a velocidade humana poderia superar a de um carro?
Antes de perder a consciência, ela viu o sorriso triunfante de Lívia no banco do motorista.
Naquele momento, Bianca pensou: se eu morrer, será que Mateo vai tentar não cumprir o acordo sobre aquele terreno?
Quando Bianca acordou novamente, descobriu que estava deitada na cama de um hospital.
Com a cabeça enfaixada, seu corpo doía como se estivesse todo quebrado.
Vozes de discussão vinham de fora do quarto.
“Eu só queria ver se, ao atropelá-la, você sentiria pena dela.”
Era a voz de Lívia.
“Lívia, isso é lesão corporal intencional! Se algo de grave acontecer com ela, você irá para a cadeia!”
A voz de Mateo estava contida de raiva.
“Você vai me proteger, você não prometeu que me protegeria para sempre?”
“Isso são dois assuntos diferentes.”
“Mateo, você sentiu pena, não foi? Nesses três anos, você criou sentimentos por ela, não foi?”
A voz de Mateo estava carregada de exaustão:
“Eu não criei. Mas Bianca é inocente, você não deveria ter feito isso.”
“Inocente? Ela ocupou o lugar de Sra. Qin por três anos, roubou o que deveria ser meu, como ela pode ser inocente? Mateo, já que você tem tanta pena dela, então deixe que eu vá para a cadeia.”
“Lívia, não me machuque com essas palavras, eu sei que não conseguiria suportar.”
A discussão do lado de fora dava dor de cabeça a Bianca.
Ela tentou encontrar seu celular; ela precisava chamar a polícia.
O que Lívia fez foi tentativa de homicídio.
Assim que sua mão tocou o celular, a porta do quarto foi empurrada.
Mateo entrou e, ao ver Bianca acordada, ficou atordoado por um momento.
Ao notar o movimento dela, ele avançou instintivamente e tomou o celular da mão dela.
“Bianca, sugiro que resolva isso em particular. Lívia não fez por querer, foi apenas um impulso.”
Bianca sorriu: “Mateo, você acredita nisso? Há câmeras na estrada.”
O rosto de Mateo endureceu: “A câmera estava quebrada.”
Bianca não ficou surpresa.
Mateo queria proteger Lívia, bastava uma câmera estar quebrada.
Ele tinha capacidade para eliminar qualquer risco para Lívia.
“Sr. Mateo, você sabe o que está fazendo agora? Você está encobrindo um crime.”
Mateo tirou um documento de sua pasta:
“Este é o acordo. Assine-o, esqueça este assunto, e eu a compensarei.”
Bianca olhou para Mateo com raiva.
“Sr. Mateo, quanto você pretende pagar pela minha vida?”
Mateo franziu a testa: “Bianca, não seja tão sarcástica. Sem evidências, mesmo que você não assine, nada acontecerá com Lívia.”
“Por causa de Lívia, você perdeu todo o senso de justiça?”
Mateo enfiou o documento nas mãos de Bianca.
“Bianca, em vez de ficar irritada e questionar, pense bem: você tem forças para brigar? Se você quiser brigar, temos testemunhas e depoimentos. O médico examinou, você tem apenas uma concussão e alguns ferimentos leves. Lívia agiu com cautela, apenas testou o que eu sinto por ela.”
Ele fez uma pausa: “Eu sei que você pode contar à vovó. Mas, no dia em que ela souber disso, farei a equipe de construção entrar no terreno. Bianca, não faça birra. Sei que Lívia passou dos limites, mas, aconteça o que acontecer, ficarei do lado dela.”
Bianca apertou o acordo.
“Mateo, foi você quem me procurou e me pediu para ser sua esposa por contrato. E foi você quem disse que, durante o período do contrato, me protegeria e não me deixaria sofrer ferimentos.”
“Mas também foi você quem me deu mais de uma dúzia de tapas e permitiu que Lívia me atropelasse. E agora quer que eu deixe Lívia impune?”
“Sua promessa é realmente ridícula.”
“Eu já te dei a compensação, o que mais você quer?” Mateo não gostava da atitude agressiva de Bianca.
Ela não tinha nada de grave e ele tinha dado tanto dinheiro.
Mas Bianca queria se pregar na coluna da vergonha moral.
Isso era absolutamente inaceitável.
“Quanto ao casamento, você também lucrou com ele. Bianca, não quero repetir as mesmas palavras duas vezes.”
“Este acordo, se quiser assinar, assine. Se não quiser,” ele zombou friamente, “assuma as consequências por si mesma.”
Lívia era quem Mateo queria proteger.
Ele tinha as habilidades e meios para limpar todos os problemas dela, incluindo, é claro, evidências.
Bianca teve que assinar.
Se assinasse, pelo menos teria dinheiro.
Se não assinasse, ela seria uma ameaça.
Suportando a dor, ela virou as páginas do documento.
Não só teria que provar que ela mesma violou as leis de trânsito e encenou o acidente, mas também provar que Lívia foi uma heroína que a enviou ao hospital para salvar sua vida.
“Sr. Mateo, bela forma de chamar cervo de cavalo e inverter o certo pelo errado.”
“Eu só me previno. Não quero que Lívia sofra qualquer problema.”
Bianca não tinha escolha.
Mesmo que ela brigasse, a única pessoa que acabaria presa seria outra, sem que um fio de cabelo de Lívia fosse tocado.
Mateo realmente não tinha limites por causa de Lívia.
Ela assinou aquele acordo humilhante com dificuldade.
Mateo pegou o documento e se virou para sair.
Bianca o chamou: “Sr. Mateo.”
Mateo parou, sem olhar para trás.
“Após o banquete de aniversário, espero que o Sr. Mateo cumpra sua palavra. Quem não tem nada não teme quem tem muito. Se houver mais alguma turbulência, eu posso não ter poder ou influência, mas tenho uma vida.”
As costas de Mateo ficaram rígidas por um momento:
“Fique tranquila, eu, Mateo, cumpro o que prometo.”
A porta do quarto foi fechada.
Bianca deitou-se na cama do hospital, olhando para o teto, enquanto as lágrimas, teimosas, escorriam.