Capítulo 34: O Exame Final de Formatura
O grande anfiteatro do Instituto Santa Cruz cheirava a cera de madeira fresca, papel timbrado e àquela tensão gélida e concentrada que apenas os dias de avaliação máxima conseguiam arrancar da elite acadêmica.
O sol da manhã de terça-feira filtrava-se pelas enormes clarabóias de vidro, projetando feixes de luz clara sobre as fileiras de bancadas dispostas em semicírculo.
Para os alunos do último ano, aquele não era apenas mais um teste; era o veredito definitivo que ditaria o destino de suas linhagens no topo do mercado e da sociedade purista.
Os fiscais de prova, Betas de postura rígida vestidos com ternos pretos impecáveis, caminhavam pelos corredores distribuindo os cadernos de questões lacrados.
O silêncio era quase palpável, quebrado apenas pelo sussurro nervoso dos estudantes que revisavam fórmulas mentalmente.
Clack. Clack.
O som firme e compassado de sapatos de couro contra o piso de granito anunciou a entrada de Dante Valente.
Um murmúrio coletivo, ríspido e chocado, varreu as fileiras do anfiteatro no mesmo milissegundo.
Dante caminhava com a postura ereta, os ombros largos projetados para a frente e o queixo erguido com a sua habitual marra de bad boy indomável.
No entanto, o detalhe que paralisou o fôlego da instituição de elite estava em seu uniforme: pela primeira vez em semanas, Dante entrava na sala sem a blusa de gola alta preta.
O colarinho da camisa social branca estava ligeiramente aberto, exibindo orgulhosamente, para quem quisesse ver, a marca temporária de Bernardo Imperial em seu pescoço.
Os quatro furos avermelhados, recém-renovados e profundamente cravados na base da nuca, reluziam sob a luz do sol matutino, exalando um rastro sutil, mas incontestável, de sândalo e tempestade gélida que cortava o oxigênio do perímetro.
— Olhem para o pescoço dele... — uma Alfa da segunda fileira balbuciou, cobrindo a boca com a mão e cutucando a colega ao lado. — Aquilo é... uma marca real? Do Imperial?
— Não pode ser... Eles se odiavam até semana passada — a outra respondeu em um sussurro tenso, empalidecendo ao notar a nitidez dos furos. — Mas quem vai ter coragem de questionar? Você viu o que aconteceu no vestiário?
A escola inteira estava em completo choque. Os olhares de desdém, confusão e agitação biológica cruzavam o ar como flechas, mas ninguém ousava dizer uma única palavra em voz alta ou rir da revelação.
O fantasma do incidente do vestiário ainda assombrava os blocos de elite; a notícia de que Marcos, Ricardo e Thiago haviam sido expulsos sumariamente nas últimas vinte nítidas e quatro horas, com os corpos quebrados e as reputações destruídas pelo clã Imperial, servia como um aviso de morte para qualquer um que cogitasse cruzar o território do casal de deuses.
Dante desceu os degraus do anfiteatro sem desviar o foco, sentindo um orgulho pleno de sua dupla identidade assumida.
Ele não era mais o ex-Alfa paranoico que se escondia atrás de supressores químicos militares; ele era Dante Valente, o gênio indiscutível do ringue e das ciências exatas, e um Ômega puro de alta fertilidade que carregava o selo do Alfa Rei por escolha própria.
— Perdeu alguma coisa aqui, Lico? — Dante quebrou o silêncio de forma ríscida ao passar pela mesa do amigo, que o encarava com os olhos arregalados.
— Cara... Você enlouqueceu de vez? — Lico engoliu em seco, a voz trêmula de puro espanto. — Você tá mostrando isso para todo mundo... Para os diretores... Para o conselho purista...
— Deixe que olhem, Lico — Dante respondeu, o deboche afiado brilhando em seus olhos escuros enquanto ele sustentava o queixo erguido. — Quem tiver algum problema com o meu pescoço, que tente resolver comigo no Ringue. Ou com o Bernardo.
Dante caminhava até a sua banca habitual na primeira fileira e puxou a cadeira de madeira. Ao se sentar, ele inclinou o torso milimetricamente para o lado direito.
Três mesas de distância, na cabeceira central do semicírculo, Bernardo Imperial já o aguardava.
O terno cinza-escuro estava perfeitamente alinhado, e os óculos de armação dourada repousavam sobre o nariz imponente, capturando o reflexo das janelas altas. Bernardo mantinha os braços cruzados sobre o peito largo, exibindo uma postura de controle absoluto.
Ao ver a nuca exposta de Dante, as pupilas cor de âmbar do Alfa Rei brilharam com uma satisfação profunda, orgulhosa e possessiva. Ele deu um apoio incondicional através de sua aura, liberando uma lufada massiva de sândalo para confortar o menor.
— Um visual ousado para o dia mais importante do ano, Valente — Bernardo comentou, a voz saindo extremamente baixa, grave e densa, carregada de uma cumplicidade crescente que viajou pelo espaço entre as mesas.
— Eu cansei de passar calor por causa do seu ego, Imperial — Dante rebateu no mesmo tom, inclinando a cabeça milimetricamente com um sorriso desafiador. — Além disso, achei que o seu avô no fundo do anfiteatro precisava de um choque de realidade antes da prova começar.
— Ele já recebeu o aviso — Bernardo deu um sorriso imperceptível por trás das lentes. — Foque no papel, meu marrento. Eu não vou pegar leve com você nas questões de cálculo apenas porque você carrega os meus dentes na pele.
— Eu ficaria ofendido se você facilitasse — Dante sibilou entre os dentes, os olhos brilhando de pura fumaça competitiva. — Se prepare para o segundo lugar, engomado.
Os dois rivais de infância trocaram um último olhar de cúmplices silenciosos antes que o inferno acadêmico começasse. Havia uma eletricidade estática entre eles que transcendia o elo carnal.
A Exposição do Vínculo de Reis estava consolidada diante de toda a elite de São Paulo.
Ao rasgar as máscaras puristas em público, eles não apenas desafiavam as regras da instituição, mas batiam de frente contra a intromissão familiar do velho Patriarca Imperial e seus casamentos arranjados.
Eles ditaram suas próprias leis biológicas no centro do tabuleiro, unindo o intelecto mais destrutivo da escola ao poder territorial mais avassalador daquela geração.
— Silêncio, senhores — o chefe dos fiscais ditou do topo do púlpito, a voz ecoando pelos alto-falantes do anfiteatro e cortando os murmúrios restantes. — Os cadernos de questões estão posicionados. Lembrem-se de que este exame define a nota final de formatura e o ranking oficial do ano. Não haverá tolerância para rasuras ou atrasos. Podem virar as folhas.
Dante esticou os dedos enfaixados sobre a mesa de granito, segurando a caneta preta com uma precisão mecânica.
O cansaço físico da semana havia desaparecido por completo; sob o efeito da marca renovada, sua mente operava em um nível de lucidez quase sobre-humano.
Ele virou o caderno de física e cálculo, os olhos escuros brilhando com a ferocidade de quem ia devorar cada questão por mérito próprio.
O gancho daquela batalha final desenhava a última incógnita do semestre: quem ficaria com o primeiro lugar do ano de forma definitiva e justa no ranking de elite?
Dante rasgara os gabaritos da trapaça na biblioteca para provar que podia esmagar o rival de forma limpa; Bernardo jogaria com sua capacidade máxima para honrar o caráter do menor.
A simbiose carnal deles estava selada na pele, mas o trono acadêmico continuava sendo um prêmio disputado palmo a palmo pelas duas maiores mentes do Instituto Santa Cruz.
Dante respirou fundo, absorvendo o aroma gélido que viajava da mesa de Bernardo para o seu sistema nervoso, estabilizando seus batimentos cardíacos.
Tic. Tac. Tic. Tac.
O som metálico e pesado do relógio de parede do anfiteatro ecoou de forma ríscida no recinto, marcando o início exato do exame mais importante de suas vidas, enquanto as duas feras inclinavam as cabeças sobre o papel, prontas para o round final de sua dinastia.