Capítulo 27: Intromissão Familiar
O som rítmico de uma bengala com cabo de prata batendo contra o mármore polido do corredor principal ecoou como um aviso de tempestade.
O Instituto Santa Cruz parecia ter congelado sob aquela nova frequência. O falatório habitual dos alunos no intervalo cessou de golpe, dando lugar a um silêncio reverente e temeroso.
A presença que acabara de cruzar os portões de ferro não pertencia à rotina escolar; era uma força política do topo da cadeia da sociedade purista.
Dante e Bernardo estavam parados perto do vão dos laboratórios de química, discutindo em voz baixa os tópicos de geometria analítica do próximo exame.
A proximidade forçada mantinha os feromônios sintonizados, uma calmaria gélida que estabilizava a glândula oculta sob a gola alta de Dante.
No entanto, a bolha de isolamento deles foi estraçalhada quando a silhueta imponente do Patriarca e Avô Imperial surgiu na curva do corredor.
O velho Alfa Rei mantinha as costas perfeitamente retas, os cabelos brancos alinhados e olhos de um âmbar opaco, mas terrivelmente afiados, que varreram o perímetro com um desdém aristocrático.
Ele fizera uma visita surpresa à escola de elite para verificar pessoalmente o progresso acadêmico de seu herdeiro.
— Bernardo — a voz do velho Imperial cortou o ar, rústica, grave e pesada pelo peso dos anos de dominação política.
Bernardo travou os movimentos de golpe. Ele ajeitou os óculos de armação dourada sobre o nariz reto, sua máscara de gelo retornando ao lugar em um milissegundo enquanto se virava para encarar o patriarca.
— Avô. Não esperava o senhor na instituição hoje — Bernardo respondeu, a voz mantendo uma polidez cirúrgica e fria.
Dante deu meio passo para trás, sentindo o desconforto com a pressão familiar preencher seus sentidos de Ômega puro.
A aura que emanava do velho era opressora, uma autoridade purista ancestral que fez a base de sua nuca latejar sutilmente sob o tecido da blusa preta.
Dante cerrou os punhos dentro dos bolsos, sustentando o olhar do idoso com sua habitual marra de bad boy, mas o ambiente havia se tornado um campo minado.
O velho patriarca deu dois passos à frente, parando a menos de um metro dos dois jovens. Ele não olhou para o neto; seus olhos de âmbar opaco fixaram-se diretamente na silhueta de Dante.
Suas narinas inflaram com força, capturando o oxigênio ao redor. Mesmo com os bloqueadores químicos pesados que Dante aplicara, o faro experiente do velho Alfa Rei sentiu o cheiro sutil, mas inconfundível, do vínculo temporário impregnado na atmosfera.
Ele reconheceu a assinatura hormonal de Bernardo misturada à essência cítrica do menor.
O maxilar do velho Imperial travou de forma ríscida.
— Garoto Valente — o patriarca ditou, o tom desprovido de qualquer cortesia. — Volte para a sua classe. Tenho assuntos particulares a tratar com o meu neto.
Dante engoliu em seco, sentindo o sangue ferver de ressentimento, mas um olhar milimétrico e firme de Bernardo indicou que era hora de recuar.
Dante soltou um estalo com a língua, girou os calcanhares e marchou pelo corredor com passos ríspidos, deixando os dois Alfas da linhagem Imperial sozinhos no vão dos laboratórios.
Assim que a silhueta de Dante sumiu na escadaria, o velho Imperial bateu a bengala contra o chão com violência, arrancando um estalo seco do mármore.
Ele puxou Bernardo para o canto escuro do laboratório vazio, trancando a porta principal para um confronto em particular.
— Que pouca vergonha é essa, Bernardo? — o avô esbravejou, a voz baixa, mas carregada de uma fúria territorial assassina. — Você acha que os bloqueadores da escola conseguem enganar o meu faro? Você marcou aquele garoto. Você injetou o seu feromônio na nuca do herdeiro dos Valente!
— Foi uma medida de emergência, avô. Para estabilizar o perímetro — Bernardo mentiu com uma rebeldia fria, sustentando o olhar do patriarca sem recuar um único centímetro.
— Não me venha com desculpas políticas! — o velho deu um passo à frente, a pressão de sua aura tentando esmagar a postura do neto. — O Pacto do Pecado que você está desenhando com aquele garoto vai destruir o nosso tabuleiro se os conselhos puristas descobrirem.
Você é o Alfa Rei desta geração. O seu dever é escolher uma Ômega de linhagem pura oficial, uma fêmea registrada que possa garantir a herança do norte, e deixar esse bastardo Valente em paz! Ele é um atraso para os nossos negócios.
O Confronto de Alfas de Elite atingiu o ponto de catarse definitivo na penumbra do laboratório. Bernardo sentiu o lobo em seu peito rugir contra a autoridade do ancião.
O herdeiro rompeu a fachada de submissão familiar, enfrentando o avô de forma direta para proteger o seu direito exclusivo de escolha sobre a presa que encurralara na serra.
— O que eu faço com o meu feromônio diz respeito apenas ao meu território, senhor — Bernardo ditou, a voz saindo em um tom absurdamente grave e denso, sua própria aura de tempestade gélida expandindo-se na sala para bater de frente com a opressão do idoso.
— Você está sendo insolente! — o patriarca semicerrou os olhos, o gancho de sua ameaça externa revelando as garras do conselho familiar. — Se você não limpar esse rastro até o final do semestre, eu mesmo tomarei as rédeas.
O plano já está traçado: nós vamos forçar um casamento arranjado para você com a herdeira dos Silva no baile de encerramento.
Você vai assinar o contrato de linhagem e esquecer que esse bad boy de ringue existe. Isso é uma ordem do clã, Bernardo.
Bernardo deu um sorriso imperceptível, terrivelmente gélido e cortante por trás das lentes de armação dourada.
Ele deu um passo à frente, quebrando a distância de respeito e olhando o avô de cima, seus olhos cor de âmbar brilhando com uma possessividade selvagem e implacável.
— O senhor pode organizar o baile que quiser, avô — Bernardo sussurrou, a calmaria de suas palavras carregando uma promessa perigosa e definitiva que fez o velho patriarca recuar milimetricamente. — Mas o contrato da minha biologia quem assina sou eu. Ninguém dita quem eu marco. Nem mesmo o senhor.
Sem esperar pela resposta do idoso, Bernardo girou os calcanhares e abriu a porta do laboratório com um movimento ríspido, marchando de volta para os corredores do Instituto Santa Cruz para encontrar o rastro cítrico de Dante antes que o sinal da próxima aula tocasse.