Capítulo 24: A Manhã Seguinte na Serra
A luz pálida do amanhecer filtrava-se através da névoa espessa da serra, desenhando feixes cinzentos nas paredes de madeira escura do quarto principal.
O frio da montanha batia contra os vidros das janelas, mas, dentro do quarto, o calor remanescente das brasas da lareira mantinha o ambiente acolhedor.
Dante abriu os olhos devagar. A primeira coisa que notou foi a ausência do peso esmagador que o torturara nos últimos dias; a febre severa estava totalmente curada.
Em seu lugar, uma sensação de plenitude e calma biológica inédita espalhava-se por seus músculos, um relaxamento tão profundo que o assustou de imediato. Seu corpo de Ômega puro, antes em completo colapso, parecia ter encontrado um porto seguro.
Ele moveu a cabeça milimetricamente no travesseiro e congelou.
A poucos centímetros de seu rosto, Bernardo Imperial dormia profundamente.
Sem os óculos de armação dourada, que estavam caídos sobre a mesa de cabeceira, o rosto aristocrático do Alfa Rei exibia linhas relaxadas, desprovidas daquela frieza cirúrgica e calculada que ele exibia nos corredores do Instituto Santa Cruz.
Pela primeira vez desde que se conheciam, Bernardo parecia vulnerável. O peito largo subia e descia em um ritmo calmo, e um dos seus braços robustos continuava estendido sobre o colchão, a poucos milímetros da cintura de Dante.
A ressaca emocional atingiu Dante com a força de um soco no estômago. A lembrança da madrugada — de ter rastejado até os pés do rival, de ter implorado por seu toque e, finalmente, de ter permitido que ele cravasse os dentes em sua carne — inundou sua mente, trazendo uma confusão sentimental violenta.
— Que porra eu fiz... — Dante sussurrou para o quarto silencioso, os lábios trêmulos de puro ressentimento contra si mesmo.
Ele precisava sair dali. Precisava colocar sua máscara de bad boy de volta e fingir que nada daquilo havia acontecido.
Dante apoiou os cotovelos no colchão de algodão egípcio, tentando se levantar silenciosamente para não despertar o rival.
No entanto, assim que ele afastou o torso do calor do corpo de Bernardo e tentou colocar os pés no chão, uma dor aguda e ríscida latejou na base de sua nuca.
Os quatro furos avermelhados deixados pelos dentes de Bernardo arderam como fogo. Junto com a dor física, uma sensação avassaladora de vazio e desespero psicológico atingiu seu peito, um puxão invisível e magnético que parecia arrancar suas forças a cada centímetro que ele se distanciava do Alfa.
Suas pernas fraquejaram imediatamente, e ele desabou de joelhos na borda da cama, arquejando em busca de ar.
O Vínculo Biológico Ativado cobrou seu preço no tabuleiro da realidade. Dante levou a mão enfaixada à nuca, os olhos escuros arregalados pelo choque do diagnóstico natural: ele percebeu, com um terror genuíno, que a marca temporária criara uma dependência absoluta e que ele não conseguia mais ficar longe de Bernardo sem sofrer fisicamente. Seu organismo agora rejeitava o isolamento do Alfa Rei.
— Não... isso não pode ser real — Dante sibilou entre os dentes, as lágrimas de frustração ameaçando voltar diante de sua total perda de autonomia.
O barulho de seu arquejo quebrou o silêncio do quarto. Na cama, os cílios de Bernardo moveram-se sutilmente.
Mesmo dormindo, seus instintos territoriais de Alfa dominante registraram o distanciamento de sua presa e o pico de estresse no feromônio cítrico de Dante.
A proteção inconsciente de Bernardo agiu de forma mecânica. Sem abrir os olhos cor de âmbar, Bernardo esticou o braço longo pelo colchão, tateando o espaço vazio até encontrar a silhueta trêmula do menor na borda da cama.
— Dan... — a voz de Bernardo saiu em um murmúrio extremamente grave, rouco e arrastado pelo sono, despida de qualquer arrogância acadêmica.
Antes que Dante pudesse se afastar ou desferir um golpe para romper o cerco, os dedos firmes de Bernardo circularam a sua cintura fina com uma rapidez ríspida.
Com um puxão contínuo e forte, Bernardo puxou Dante de volta para a cama pela cintura, colando as costas do rapaz contra o seu peito largo e robusto mais uma vez.
O contato térmico imediato fez a dor na nuca de Dante cessar de golpe, substituída pelo frescor anestésico do sândalo que Bernardo exalava naturalmente pela pele na manhã fria.
O menor relaxou contra a sua vontade, soltando o ar dos pulmões em um suspiro humilhado.
O gancho daquela proximidade forçada desenhava um futuro perigoso para ambos. Dante estava preso ao rival por um elo carnal inquebrável, e o retorno à rotina escolar do Instituto Santa Cruz seria um campo minado.
Como eles vão agir na escola agora que seus feromônios estão sintonizados? Cada olhar de Lico, cada provocação agressiva de Marcos ou aproximação de outro Alfa faria o corpo de Dante reagir e o instinto protetor de Bernardo explodir no meio do corredor.
Bernardo apertou o abraço, enterrando o rosto nos cabelos pretos e bagunçados de Dante, exalando um carinho matinal possessivo que selou o confinamento deles naquela mansão de inverno.
— Fique aqui, Dan — Bernardo sussurrou ríscido contra a nuca marcada do menor, a ordem baixa e possessiva ecoando como um veredito definitivo enquanto a neblina da serra continuava a isolar os dois rivais do resto do mundo.