Capítulo 16: O Exame de Simulado Geral
O silêncio dentro do anfiteatro principal do Instituto Santa Cruz era quase sólido, interrompido apenas pelo som rítmico das folhas de papel sendo viradas e o clique sutil das lapiseiras.
O cheiro de grafite e folhas recém-impressas preenchia o ambiente, que estava sob a vigilância severa de três inspetores de bloco.
Era o dia do simulado geral mais importante do semestre, o exame que ditaria o ranking de elite e a distribuição de bolsas para o final do ano.
Para Dante Valente, aquela prova significava muito mais do que notas. Ele havia estudado até a exaustão absoluta nas últimas setenta e duas horas, passando noites em claro com os olhos fixos em livros de cálculo avançado e física teórica.
Ele precisava daquele primeiro lugar. Precisava provar para si mesmo, para os patriarcas e para o colégio inteiro que a sua biologia recente de Ômega puro não dita a sua inteligência ou a sua capacidade de dominar o topo da cadeia acadêmica.
Dante mantinha o corpo inclinado sobre a mesa de madeira clara, os olhos escuros focados na questão de número setenta e duas.
Sua testa exibia uma linha tensa de concentração, e os nós de seus dedos enfaixados apertavam o corpo da lapiseira com uma obsessão competitiva extrema. Ele ignorava o leve latejar na base de sua nuca, controlado rigidamente pelo supressor que havia tomado antes de sair de casa.
Sua mente funcionava como uma máquina de combate, desestruturando os problemas de exatas com uma ferocidade que mantinha a fachada de rivalidade viva.
Duas fileiras à sua frente, a postura de Bernardo Imperial era o completo oposto. O Alfa Rei mantinha as costas retas contra a cadeira, resolvendo as equações com uma facilidade aristocrática e cirúrgica.
Os óculos de armação dourada repousavam sobre o nariz reto, as lentes refletindo a luz fluorescente do teto enquanto seus dedos longos deslizavam o grafite de forma contínua pelo papel do gabarito.
Bernardo liderava o ranking desde o início do mês, e a Guerra de Gênios entre os dois protagonists criava uma bolha de eletricidade estática que o resto da classe evitava quebrar.
Dante limpou uma gota sutil de suor da têmpora com as costas da mão, os olhos fixos na folha de Bernardo.
O menor sentia o peso invisível da dominância intelectual do rival, o que só alimentava seu desejo violento de esmagar aquela pontuação perfeita. Ele queria ver o nome Valente acima de Imperial no mural central do colégio, custasse o que custasse.
— Dá para parar de olhar para a minha folha e focar na sua, Dan? — a voz de Bernardo ecoou de forma absurdamente baixa, um sussurro que viajou pelo vão das carteiras, audível apenas para os sentidos aguçados do menor.
— Eu não estou olhando para a sua folha, Imperial — Dante rebateu no mesmo tom milimétrico, sem mover a cabeça. — Só estou calculando o tempo que você vai levar para errar a fórmula de termodinâmica.
— Você devia se preocupar com o seu próprio gabarito — Bernardo murmurou de volta, o canto dos lábios se movendo de leve. — O topo do ranking não aceita erros de principiante.
— Engole o seu orgulho, engomado. Eu vou te derrubar hoje.
Click.
O som seco de Bernardo deixando a caneta preta sobre a mesa cortou a provocação sussurrada e ecoou pelo anfiteatro silencioso. O relógio de parede marcava exatamente trinta minutos para o encerramento regulamentar do exame. Bernardo havia terminado a prova de alta complexidade com meia hora de antecedência.
Dante travou os dentes, os olhos escuros injetados de puro ressentimento enquanto assistia ao rival organizar suas folhas com uma calmaria irritante.
Bernardo levantou-se da cadeira, ajeitando o paletó do terno cinza-escuro com movimentos lentos e calculados.
Ele caminhou em direção à mesa do professor Branco para entregar o caderno de respostas, seus sapatos sociais batendo contra o piso de porcelanato de forma compassada.
— Terminou, senhor Imperial? — o professor Branco perguntou, checando o relógio com admiração.
— Sim, professor. Tudo revisado — Bernardo respondeu, a voz polida e firme ecoando pela sala.
No caminho de volta para recolher sua pasta de couro, Bernardo mudou sutilmente a rota. Ele passou pelo corredor estreito onde Dante estava sentado. Os inspetores de bloco estavam distraídos conferindo o horário no fundo da sala.
Com uma rapidez ríspida e imperceptível para os outros alunos, Bernardo esticou os dedos longos, deixando um pequeno pedaço de papel quadrado, dobrado em quatro partes, exatamente no canto superior esquerdo da mesa de Dante.
Ele não parou o passo, mantendo um flerte intelectual e um orgulho silencioso desenhados no rosto enquanto cruzava a porta de saída do anfiteatro.
Dante congelou, a lapiseira parando no meio de uma linha de raciocínio lógico. O coração bateu contra as costelas em um ritmo frenético de paranoia biológica. Ele olhou para os lados, certificando-se de que nenhum inspetor havia notado a interação ilegal durante o exame de estado.
O gancho daquele bilhete misterioso agiu como uma distração devastadora. A mera presença do papel branco ali parecia queimar a madeira da mesa, ameaçando desconcentrar Dante para o resto do exame.
Sua mente, antes focada nas fórmulas mecânicas, foi invadida por uma curiosidade irritante e pelo medo latente de que o rival estivesse usando aquela cumplicidade biológica para sabotar seu rendimento.
— Faltam quinze minutos para o encerramento — o professor Branco anunciou da frente da sala, a voz cortando o silêncio. — Quem não preencheu o gabarito oficial, faça isso agora.
Dante soltou o ar com força pelo nariz. Ele esticou a mão esquerda de forma disfarçada, puxando o quadrado de papel para baixo da mesa, escondendo-o entre o linho das calças sociais e a madeira do assento.
Seus dedos cortados pelas bandagens desdobraram o bilhete com cuidado para não rasgar o papel timbrado com o brasão da família Imperial. Dante inclinou o rosto milimetricamente para baixo, forçando a vista na penumbra da estrutura da mesa para ler a caligrafia perfeitamente alinhada e ríspida de Bernardo:
"Foque na prova, Dan. Seu cheiro está mudando com o estresse."
Dante arregalou os olhos escuros, o pânico biológico atingindo sua espinha de golpe.
Ele levou a mão direita automaticamente à base da nuca, sentindo a pele ali aquecer sutilmente com o nervosismo da competição, o supressor falhando diante do seu colapso psicológico enquanto o sândalo invisível de Bernardo no bilhete parecia zombar de sua vulnerabilidade sob o teto da escola.