Capítulo 2: Fragrância de Provocação
O silêncio no corredor do Instituto Santa Cruz durou o tempo de um batimento cardíaco desregulado. Dante deu as costas a Bernardo, os passos pesados arrastando o ódio de volta para a sala de aula.
O Professor Branco cruzou a porta logo em seguida, jogando a pasta de couro gasta sobre a mesa principal. A voz firme do Beta ecoou pelo espaço, cortando os cochichos:
— Silêncio, pessoal... Guardem os celulares e parem de olhar para o corredor. Sentem-se porque temos um início de semestre movimentado.
A turma se organizou em poucos segundos, o respeito pelo professor de exatas falando mais alto. Branco ajeitou os óculos de grau, apontando para o jovem parado na entrada.
— Este é Bernardo Imperial. Ele veio transferido de uma instituição rígida e vai ocupar a vaga restante na nossa linha de frente de exatas. Bernardo, pode escolher o seu lugar.
O homem voltou-se para a lousa, alheio ao atrito invisível que eletrizava o ar da sala.
Os olhos de Dante acompanharam o movimento do novato. Os nós de seus dedos pressionaram a mesa de madeira até perderem a cor.
Havia apenas uma maldita cadeira vazia em toda a sala. Estrategicamente posicionada na última fileira. Exatamente atrás da sua.
Bernardo caminhou pelo corredor central, a mochila preta de couro cruzando um dos ombros largos.
Os alunos da frente se encolheram sutilmente na passagem do rapaz, empurrados por uma lufada de vento frio.
Clack.
A mochila de Bernardo atingiu o chão ao lado da mesa traseira.
Ele puxou a cadeira de ferro sem fazer o menor ruído. Acomodou o corpo de um metro e oitenta e nove com uma postura impecável, os joelhos longos quase tocando a estrutura da mesa de Dante.
Dante endureceu a espinha, recusando-se a virar o rosto. A proximidade forçada agia como um ácido, corroendo a fina camada de autocontrole.
O Professor Branco pegou o giz, começando a desenhar fórmulas complexas de cálculo avançado. O som do giz batendo contra a lousa misturava-se ao barulho da tempestade nas vidraças.
Atrás de Dante, o ar mudou.
Não havia cheiro explícito, mas Dante sentia a pressão térmica da presença do rival. Era como ter um predador de grande porte sentado logo atrás de sua nuca, um observador atento de cada movimento de seus ombros.
Dante soltou uma lufada de ar quente pelo nariz. Pegou a caneta esferográfica e girou-a entre os dedos com força, a irritação física subindo pelos seus braços como formigamento.
Ele não suportava ser encurralado. Odiava a calmaria insolente que Bernardo exalava pelas suas costas.
Decidido a reaver o controle do território, Dante jogou o peso do corpo para trás de uma vez.
A cadeira de ferro bateu contra a borda da mesa de Bernardo com um baque seco. Uma tentativa clara e física de intimidação.
A mesa de Bernardo sequer tremeu.
O Alfa novato permaneceu imóvel, os olhos fixos na lousa. A mão direita deslizava uma lapiseira prateada pelo papel do caderno com precisão cirúrgica.
Dante travou os dentes. Manteve a cadeira pressionada contra a mesa traseira, desafiando o rival a recuar o móvel.
Foi então que o bloqueador de Bernardo falhou. Ou melhor, foi aberto deliberadamente por uma fração de segundo.
Uma lufada invisível de feromônios escapou, espalhando-se como fumaça densa apenas no perímetro da última fileira.
O cheiro de madeira de sândalo misturado ao frescor gélido da tempestade atingiu a nuca de Dante em cheio.
Dante travou.
Seus pulmões se esvaziaram de golpe. Os dedos colaram-se na borda da mesa enquanto o corpo reagia com um espasmo involuntário de calor.
Não era uma agressão física. Era opressão psicológica pura, uma dominação territorial passiva exercida sem mover um único músculo do rosto.
O feromônio real de Bernardo Imperial agiu como um sedativo pesado. Fez o pulso de Dante acelerar enquanto uma queimação estranha subia pela sua espinha, concentrando-se na base do pescoço.
Dante prendeu a respiração, sufocado pelo desejo involuntário de respirar aquele aroma dominante. O peito subia e descia sob a camisa justa do uniforme.
Tentou empurrar a cadeira novamente. Suas pernas pareciam ter perdido metade da força, os músculos amolecidos pela densidade do aroma do Alfa Rei.
Atrás dele, o som da lapiseira de Bernardo parou.
Pela primeira vez desde que havia entrado na sala, Bernardo moveu o rosto milimetricamente para baixo.
Seus olhos cor de âmbar, frios e focados por trás das lentes de armação dourada, cravaram-se diretamente na nuca exposta de Dante. Bem no ponto onde os cabelos pretos eram mais curtos.
A gola da camisa de Dante estava ligeiramente caída para o lado. Revelava a pele alva e sensível que cobria sua glândula hormonal ainda adormecida.
Bernardo sustentou o olhar naquele ponto exato por dez segundos longos.
Seus dedos apertaram o metal da lapiseira com uma força imperceptível. As pupilas dilataram sutilmente antes de voltarem ao normal, os óculos refletindo a silhueta trêmula do menor.
Dante sentiu um arrepio violento percorrer sua pele, uma lâmina de gelo roçando sua nuca. Engoliu em seco, mantendo os dentes cravados no lábio inferior para não soltar um som de frustração.
O Professor Branco virou-se para a turma, o giz na mão esquerda e o apagador na direita.
— Valente, Imperial... Algum problema com o espaço das carteiras aí atrás? Posso ouvir o barulho de ferro batendo daqui da frente.
Dante forçou os músculos das pernas a obedecerem. Empurrou a cadeira para a frente com um movimento brusco e seco, criando distância.
— Nenhum problema, professor.
A voz de Dante saiu um tom mais baixa do que o normal. Os dedos limparam o suor que começava a brotar em suas palmas.
— Ótimo. Continuem prestando atenção no teorema. O simulado de sexta não vai ser complacente com distrações.
O professor voltou a dar as costas, preenchendo o espaço restante do quadro com números.
Dante afundou o corpo na cadeira, apoiando os cotovelos na mesa e escondendo o rosto entre as mãos. Sua pele estava quente, o coração batendo contra as costelas em um ritmo frenético que o assustava.
Aquele desgraçado fez de propósito...
A sensação de submissão temporária deixou um gosto amargo em sua boca, uma humilhação erótica que ele tentava afastar balançando a cabeça de leve.
O tempo parecia andar de arrasto. Cada minuto transformou-se em uma tortura de proximidade.
Sempre que Dante tentava relaxar os ombros, o som da respiração pausada de Bernardo atrás de si o lembrava da armadilha biológica.
Bernardo Imperial mantinha o ritmo perfeito. Não liberou mais nenhuma gota de feromônio, agindo como o aluno perfeito e controlado que todos na escola respeitavam.
Mas a mensagem já havia sido entregue.
Faltando apenas cinco minutos para o sinal do intervalo soar, o Professor Branco começou a recolher as folhas de respostas das lições de férias, caminhando pelas fileiras com passos pesados.
Ao chegar na última fileira, parou diante da mesa de Dante, estendendo a mão. Dante manteve os braços cruzados, erguendo o queixo com a insolência habitual.
— Eu já avisei o senhor pelo aplicativo, Branco. Não fiz as folhas de férias. Estou focado nos problemas da Olimpíada de Matemática de Tóquio.
Branco soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça.
— Você tem crédito comigo, Valente, mas o ranking não perdoa negligência. Se o seu rendimento cair um ponto no simulado de sexta, você vai perder a liderança.
— Não vai cair — Dante rebateu com um sorriso arrogante, os olhos brilhando com uma ponta de fúria competitiva.
O professor moveu o passo para a mesa traseira. Bernardo Imperial estendeu sua folha de respostas perfeitamente preenchida, sem nenhuma rasura.
Branco olhou para o papel de Bernardo e soltou um aceno de aprovação raro.
— Excelente, Imperial. Vejo que o nível do norte continua alto. Espero ver o seu nome no topo do mural esta semana.
— Darei o meu melhor, professor.
A voz de Bernardo saiu fria, educada e totalmente desprovida de arrogância. Isso tornava sua superioridade ainda mais irritante para os ouvidos de Dante.
Dante sentiu o estômago revirar. O desejo de quebrar a cara de Bernardo ali mesmo subiu pelos seus músculos, os punhos fechando-se dentro dos bolsos do uniforme.
O sinal da escola finalmente tocou, ecoando pelo corredor externo com um som estridente.
Os alunos começaram a se levantar imediatamente, o falatório voltando a preencher o espaço enquanto arrumavam os materiais para o intervalo.
Dante puxou a mochila com uma única mão. Estava pronto para sair dali e respirar o ar puro do pátio, longe daquela cabine de confinamento gasoso.
Antes que ele pudesse dar o primeiro passo para fora da fileira, um movimento sutil aconteceu sob as estruturas de ferro.
Bernardo Imperial esticou a perna longa por baixo da mesa.
Com a ponta do sapato social perfeitamente engraxado, ele deu um chute leve, quase imperceptível, mas firme, no pé da cadeira de Dante.
O impacto fez o metal virar contra os sapatos de Dante, um toque físico direto que quebrou a distância que o menor tentava manter.
Dante travou o passo instantaneamente.
O corpo inteiro se virou com os olhos faiscando de ódio na direção do novato, suas mãos saindo dos bolsos.
Bernardo, no entanto, sequer o olhou. Continuou guardando a lapiseira prateada dentro do estojo com uma calma irritante, mantendo os olhos cor de âmbar fixos no quadro negro agora semipagado.