Antes que Vitória pudesse processar a afirmação, sentiu as vias respiratórias serem obstruídas por um tecido; em seguida, sua visão escureceu e ela perdeu a consciência.
No escritório.
Felipe permanecia posicionado junto à janela e aquela declaração — "eu odeio você" — ecoava de forma contínua em sua mente, torturando-o.
A chuva do lado de fora havia cessado, mas um pressentimento terrivelmente incômodo tomou conta de seu peito.
— Felipe, deve estar com fome, trouxe um caldo para você! — Valéria entrou no recinto carregando uma bandeja.
Felipe tencionava ordenar rudemente que ela se retirasse quando, subitamente, o sistema de alarme contra incêndio da mansão foi acionado!
Bi-bi... bi-bi... — O sinal sonoro ecoou com intensidade por toda a propriedade.
Felipe correu para fora do escritório e constatou que uma densa fumaça emergia do quarto principal, no segundo pavimento.
— Vitória! — Ele tensionou o olhar e correu desesperadamente naquela direção.
Boom! — No milésimo de segundo seguinte, uma forte detonação ocorreu no aposento e labaredas imensas irromperam em direção ao teto.
Capítulo 11: Quem Realmente o Salvara?
O incêndio persistiu durante toda a madrugada, destruindo a maior parte da propriedade.
O fogo foi finalmente controlado, contudo, Vitória fora totalmente consumida pelas chamas, sem que restasse qualquer vestígio.
Felipe contemplava a estrutura danificada da mansão, experimentando a nítida sensação de que uma parte de sua própria alma havia se convertido em cinzas.
Ao lado dele, Valéria esboçou um sorriso discreto e vitorioso; finalmente, aquele imenso obstáculo fora removido de sua trajetória.
À noite, Felipe embriagou-se por completo; a residência onde compartilhara a rotina com Vitória por três anos fora reduzida a nada.
A partida dela parecia ter apagado qualquer registro da existência de ambos neste mundo.
Sem perceber, ele acabou conduzindo seus passos até a antiga residência de Vitória, um local onde, em três anos de matrimônio, ele estivera apenas em uma única oportunidade.
Contudo, naquele momento de agonia, era o único lugar para onde desejava ir.
Ele venceu os degraus com extrema dificuldade e desabou, vencido pelo álcool, diante do portão de ferro.
Em meio à visão turva, estendeu as mãos e tateou o vão entre as estruturas, localizando a chave conforme ela costumava fazer.
Ao abrir a porta, adentrou o recinto cambaleando.
O imóvel encontrava-se totalmente limpo e organizado, exalando uma atmosfera acolhedora.
Ele recordou-se subitamente de que, nos últimos três anos, independentemente do horário tardio em que retornasse, a sala de estar da mansão sempre contava com uma lâmpada acesa.
Ela permanecia aguardando o seu retorno dia após dia.
Contudo, agora tudo havia cessado, o vazio era absoluto e ela não retornaria.
Essa constatação fez com que uma dor aguda e repentina tomasse conta do peito de Felipe.
Ele deitou-se no leito que pertencera à Vitória e a fragrância característica dela ainda impregnava o tecido, conferindo-lhe uma sutil sensação de alívio.
Naquela madrugada, um ruído ecoou na sala de estar.
Felipe despertou sobressaltado e dirigiu-se apressadamente ao cômodo.
— Vitória! — ele clamou, mas não obteve qualquer resposta.
Ao acionar a iluminação, constatou que a estrutura da janela encontrava-se parcialmente aberta e uma lufada de ar gélido adentrava o ambiente, resfriando seu peito.
Não passava de uma oscilação causada pelo vento.
O olhar de Felipe obscureceu; não era ela, ela jamais retornaria!
A partir daquele dia, Felipe estabeleceu-se permanentemente naquele imóvel.
Ele não conseguia articular uma razão plausível, limitando-se a recusar a ideia de se afastar do único perímetro que preservava a identidade dela.
Felipe experimentava pela primeira vez a percepção de que, sem perceber, havia se habituado por completo à presença de Vitória.
Contudo, essa constatação fazia com que seu coração parecesse despencar em um abismo; a mera menção ao fato parecia sufocá-lo.
Certo dia, ao término do expediente, ele retornou àquela residência como de costume.
Uma senhora idosa vencia os degraus com dificuldade carregando diversas embalagens quando, subitamente, uma das sacolas rompeu-se e os objetos espalharam-se pelo chão.
Felipe agiu por impulso e recolheu os itens, auxiliando-a até o pavimento superior.
A senhora expressou imensa gratidão:
— Muito obrigada, jovem, você é muito gentil. Os irmãos que residiam nesse imóvel anteriormente também eram excelentes pessoas; a Vitória inclusive salvou a vida de um homem totalmente ensanguentado naquele beco de número sete no passado, uma cena terrível, apenas uma jovem de alma tão pura quanto a dela teria coragem de prestar auxílio!
Beco de número sete?
Aquele era exatamente o perímetro onde ele sofrera o atentado anos atrás!
O peito de Felipe contraiu-se instantaneamente:
— Que beco de número sete? Quem foi a pessoa auxiliada?
A idosa inseriu a chave na fechadura enquanto respondia:
— Ah, a identidade do sujeito eu não sei, isso já faz uns quatro anos...
— Agradeço imensamente pela ajuda, rapaz! — concluiu a senhora, entrando em seu domicílio.
Felipe permaneceu estático e um pavor profundo tomou conta de seu corpo a partir de seus pés.
Ele retirou o celular do bolso e suas mãos tremiam visivelmente ao discar o número do subordinado:
— Realize uma investigação minuciosa imediatamente: quero saber a real identidade da pessoa que me prestou socorro quando fui ferido naquele beco de número sete há quatro anos!
No escritório do complexo corporativo.
O assistente acionou a porta e adentrou o recinto:
— Diretor Felipe, aqui está o relatório detalhado enviado pela equipe de investigação e, além disso, a Senhorita Valéria encontra-se na recepção e solicita uma audiência.
Felipe fixou os olhos na pasta posicionada sobre a mesa com uma fisionomia sombria, respondendo rigidamente:
— Não vou recebê-la.
Do lado de fora, Valéria foi tomada por um pressentimento incômodo e uma forte ansiedade.
Qual seria a razão de ele recusar o encontro de forma tão abrupta? No passado, independentemente da alta demanda de trabalho, ele jamais deixaria de recebê-la, e aquela situação já se estendia por dias!
No interior do escritório, Felipe inspirou profundamente e, encarando o relatório de investigação diante de si, estendeu as mãos para abri-lo.
Capítulo 12: A Fábula da Serpente
Os registros textuais detalhavam com total clareza que, no dia do evento, diversas testemunhas presenciaram Vitória conduzindo Felipe até a viatura de emergência.
Os moradores daquela localidade a conheciam perfeitamente; de fato, fora Vitória quem salvara a sua vida.
Valéria, por sua vez, era uma figura de péssima reputação naquela região, associada a vícios e comportamento marginal, sendo reconhecida pelos infratores locais como uma ladra habitual.
Naquela oportunidade, após subtrair a pulseira de identificação, ela inclusive exibira o objeto publicamente para se vangloriar.
À medida que avançava na leitura, a fisionomia de Felipe tornava-se cada vez mais sombria e uma agonia violenta tomou conta de seu coração.
Constatava que, durante todo aquele tempo, ele equivocara-se totalmente, validando uma mentira e agindo com total cegueira!
Ele permitira que uma mulher de índole perversa como Valéria prejudicasse gravemente a sua verdadeira benfeitora!
— Diretor Felipe, há um elemento adicional que requer a sua atenção, associado à... Senhorita Valéria — comentou o assistente com cautela ao notar a fisionomia severa do superior.
Contendo uma indignação monumental, Felipe ordenou:
— Prossiga!
O funcionário sobressaltou-se e adiantou as informações rapidamente:
— Os peritos analisaram o perímetro do incêndio e constataram que o fogo iniciou através de um curto-circuito na fiação, gerando uma explosão e danos severos à estrutura; contudo... o senhor conhece perfeitamente os sistemas de segurança daquela mansão, uma falha dessa natureza seria tecnicamente impossível de ocorrer por acidente.
Felipe tinha total ciência de que os dispositivos de proteção de sua propriedade eram de última geração e passavam por vistorias rigorosas periodicamente.
A menos que Vitória tivesse provocado a situação deliberadamente, um acidente daquela magnitude jamais ocorreria.
Contudo, naquele último diálogo, Vitória demonstrara total determinação ao afirmar que faria Valéria pagar com sangue pela vida do irmão!
Considerando que Valéria permanecia ilesa, qual seria a razão de Vitória atentar contra a própria vida?
Um estalo ocorreu em sua mente e ele cerrou os punhos com tanta força que as articulações estalaram.
— Traga a Valéria até a minha presença imediatamente!
O assistente, aterrorizado diante daquela atmosfera gélida e severa de Felipe, retirou-se apressadamente e conduziu Valéria para o interior do escritório.
Ao entrar na sala, Valéria ainda não havia se dado conta da fisionomia severa de Felipe e adiantou-se exibindo uma postura lamentável:
— Felipe, você se recusou a me ver por todos esses dias; a mansão sofreu aquele incêndio há pouco tempo e eu me sinto terrivelmente insegura morando sozinha.
Ao ouvir a menção ao incêndio, um gatilho mental torturou a mente de Felipe e ele desferiu um olhar cortante em direção à Valéria:
— Avalie as suas próprias ações! Cesse esse fingimento diante de mim, pois a sua tolerância comigo chegou ao fim!
Valéria assustou-se com a abordagem; era a primeira vez que testemunhava Felipe manifestar-se naquele tom com ela.
Sua fisionomia enrijeceu instantaneamente:
— O que você está sugerindo? Eu realmente não compreendo.
Constatava que aquela mulher era uma atriz talentosa e ele, por pura ingenuidade, permitira-se ser ludibriado por aquela figura!
Felipe recolheu os documentos sobre a mesa e arremessou-as diretamente contra a face de Valéria: