Ele ensaiou seguir em direção ao escritório como de costume, mas seus passos o conduziram involuntariamente ao quarto principal.
Ao abrir a porta, ele empacou no lugar.
O aposento encontrava-se totalmente organizado, como se jamais tivesse sido habitado.
Ele inspecionou o closet e constatou que Vitória de fato removera todas as suas roupas, deixando para trás apenas as joias de alto valor.
Diante daquele armário parcialmente vazio, seu coração experimentou um forte sobressalto.
Contendo as emoções, ele deixou o quarto e instruiu o supervisor da mansão rigidamente:
— Descarte todos os pertences que foram utilizados por ela.
Já que decidira partir, que sumisse de forma definitiva; o que os olhos não veem, o coração não sente!
No dia seguinte, sob um céu cinzento.
Vitória encontrava-se acomodada em uma cafeteria, diante de um homem de meia-idade que utilizava um acessório de abas largas.
— Detetive, conseguiu identificar o proprietário daquele veículo esportivo?
Após o falecimento de seu irmão, as autoridades não obtiveram pistas sobre o condutor, mas ela não desistira, contratando os serviços de um investigador particular.
Quatro anos depois, finalmente surgia uma pista concreta.
O profissional abriu o dispositivo eletrônico e exibiu um registro visual:
— Conseguimos este arquivo através do sistema de gravação de outro automóvel que encontrava-se estacionado nas proximidades no dia do evento; as imagens registraram os caracteres da placa daquele carro esportivo vermelho.
As mãos de Vitória tremiam ao acionar o arquivo de vídeo.
— As informações da placa já foram verificadas? A quem pertence o automóvel?
O investigador retirou um documento da pasta e o estendeu à cliente:
— O registro consta em nome de Valéria. Logo após o ocorrido, ela foi enviada para o exterior por intervenção de Felipe, mas confirmei que ela retornou recentemente ao país.
O nome de Valéria atingiu Vitória como um forte impacto, deixando-a estática no lugar.
Ela tensionou os documentos em suas mãos, contraindo os dentes enquanto seus olhos avermelhavam de forma súbita.
Num milésimo de segundo, todas as peças do quebra-cabeça pareciam se encaixar.
O rosto ferido de seu irmão, a expressão de Felipe propondo matrimônio, as feições vitoriosas de Valéria... tudo desfilava diante de seus olhos.
Por fim, restou apenas uma constatação em sua mente.
Que criatura trágica você é, Vitória; acabou se casando com o cúmplice da morte de seu próprio irmão.
Mansão da família.
Vitória contemplou aquela propriedade onde residira por três anos e da qual se retirara dias atrás, entrando no local de forma resoluta.
Ao alcançar a sala de estar, deparou-se com Valéria e Felipe conversando no estofado.
Ao notar a presença dela, as feições de Valéria sofreram uma alteração, mas ela adiantou-se exibindo uma postura afetada e lamentável:
— Você retornou? Eu só soube que pretendia se divorciar do Felipe após a perda do bebê depois que mudei para cá, sinto imensamente...
Constatava que mal havia desocupado o espaço e a rival já se estabelecera ali.
O coração de Vitória recebeu mais um golpe doloroso, conferindo-lhe ainda mais lucidez.
Clac! — Sem proferir uma única palavra, Vitória desferiu um tapa violento na face de Valéria!
Valéria levou as mãos ao rosto sem acreditar na agressão, ensaiando uma reação, mas estancou imediatamente diante da frase seguinte:
— Após quatro anos de fuga, já calculou como pretende pagar pela vida do meu irmão?
A face de Valéria perdeu totalmente a cor e ela se abrigou atrás da silhueta de Felipe:
— Felipe, você tem conhecimento de que aquilo foi um acidente, me proteja!
Vitória mantinha os olhos fixos e gélidos em Felipe, o homem que a enganara e ferira profundamente.
Em determinadas circunstâncias, a realidade mostra-se mais cruel do que a própria mentira.
Ela sentia um desejo imenso de questioná-lo se, naqueles três anos, funcionara apenas como um mecanismo para a obtenção de ações ou como uma figura de entretenimento para ele.
Felipe permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de formular uma única questão:
— De quanto você precisa em dinheiro?
Qualquer questionamento perdia o sentido diante daquela abordagem.
A postura de Vitória desmoronou diante daquela indagação; ela manifestou-se com a voz completamente fragilizada e rouca:
— Felipe, estamos tratando de uma vida humana... o meu irmão contava com apenas dezoito anos ao partir... como consegue articular algo assim?
Felipe uniu as sobrancelhas com rigidez, respondendo em tom gélido:
— Aquilo não passou de uma fatalidade, por quanto tempo ainda pretende insistir nesse assunto?
Ao concluir a frase, ele próprio demonstrou uma leve hesitação.
Vitória encarou fixamente as feições de Felipe e a silhueta de Valéria resguardada por ele.
Seu coração acabou totalmente destruído naquele instante.
Ela recuou um passo, proferindo com a voz sombria:
— Fui extremamente ingênua ao nutrir qualquer resquício de expectativa em relação a você.
Esperando um pedido de escusas ou algum sinal de arrependimento...
Vitória retirou o dispositivo celular do bolso:
— Entrarei em contato com as autoridades. É o momento de ela receber a devida punição.
Dito isso, ela discou o número da polícia.
Capítulo 10: O Beco Sem Saída
Clac! — Antes mesmo que a chamada para a polícia fosse completada, Valéria avançou abruptamente, arrancou o aparelho celular das mãos de Vitória e o arremessou com violência contra o chão.
Valéria desatou a chorar e implorou em pânico:
— Felipe, você precisa me proteger, por favor! Eu não quero ser presa de jeito nenhum!
Vitória direcionou os olhos para Felipe e, por alguma razão, seu coração experimentou um forte sobressalto.
Felipe manifestou-se com a voz extremamente grave, instruindo os funcionários posicionados atrás dele:
— A patroa não está bem. Conduzam-na ao quarto para que possa descansar!
Vitória arregalou os olhos, encarando-o com indignação:
— Felipe! O que você pretende fazer?
— Levem-na! — Felipe exalava uma aura gélida e intimidadora, impedindo qualquer contestação.
Vários funcionários avançaram de uma só vez, contiveram Vitória e a conduziram à força para o quarto principal, trancando a porta por fora em seguida.
Independentemente da intensidade com que Vitória golpeava a estrutura de madeira, ninguém esboçava qualquer reação.
A noite caiu e a chuva começou a cair de forma contínua do lado de fora da janela.
Vitória contemplava a paisagem externa com um olhar totalmente desprovido de vida; em seu coração, restavam apenas ruínas.
Clac — a fechadura foi acionada e a porta se abriu.
Ela não se virou e permaneceu imóvel.
Felipe fixou os olhos na silhueta dela, experimentando uma inquietação incompreensível.
Ele comentou calmamente:
— Eu já eliminei todos os vestígios daquela gravação.
O corpo de Vitória enrijeceu instantaneamente, como se tivesse recebido uma descarga elétrica; ela virou-se abruptamente e adiantou-se dois passos, segurando o paletó dele com força:
— Felipe, você por acaso possui algum resquício de humanidade?
Felipe desvencilhou-se das mãos dela, respondendo em um tom gélido e assustador:
— O Vitinho surgiu do nada na frente do carro. A Valéria possui um futuro brilhante pela frente e não posso permitir que uma fatalidade destrua a vida dela.
O futuro brilhante de quem?
O irmão dela fora o primeiro colocado no exame nacional, um estudante brilhante da renomada universidade da capital; o futuro dele por acaso não possuía valor?
Vitória encarava o homem diante dela, experimentando a nítida sensação de jamais tê-lo conhecido.
Embora tivessem compartilhado a mesma rotina diariamente, a fisionomia dele naquele instante causava-lhe um profundo temor.
Ela inspirou profundamente e toda a indignação contida em seu peito converteu-se em uma declaração dolorosa:
— Eu juro que não vou deixar isso assim. Se possui tanta convicção, proteja essa mulher pelo resto da vida, caso contrário, farei com que ela pague com sangue pela vida do meu irmão!
Os olhos de Felipe mostrar-se profundos e ele ditou as palavras com total indiferença e crueldade:
— Amanhã ordenarei que providenciem a sua saída do país, e farei com que jamais retorne.
Dito isso, ele virou-se em direção à saída.
A turbulência que dominava a mente de Vitória cessou abruptamente; ela permaneceu estática e, contemplando a silhueta dele se afastar, declarou subitamente:
— Felipe, eu odeio você.
Os passos de Felipe hesitaram por um breve instante, mas ele retomou a caminhada de forma resoluta.
Bam! — A resposta dele manifestou-se através do fechamento violento da porta.
Vitória desabou sentada no chão, sentindo as forças se esvaírem de seu corpo.
Diante daquele silêncio repentino, toda a agonia e o rancor acumularam-se em seu peito; o quarto convertera-se em uma imensa cela, sufocando qualquer vestígio de vitalidade em seu interior.
Ela entreabriu os lábios, mas não conseguiu dar vazão a um pranto ou a um clamor; ela constatava estar em um completo beco sem saída.
No momento seguinte, a porta foi aberta novamente por outra pessoa.
Valéria exibia um sorriso vitorioso e de deboche:
— Eu já havia lhe avisado: independentemente das circunstâncias, o Felipe sempre optará por me resguardar.
Vitória ergueu os olhos em direção à rival, com o olhar avermelhado pelo ódio:
— Veio tripudiar da minha situação mais uma vez?
Valéria soltou uma gargalhada e seu olhar tornou-se repentinamente perverso:
— Estou aqui para colocar um fim definitivo na sua trajetória!