As palavras de Valéria atingiram Vitória como um golpe violento.
Com a expressão gélida, ela fixou os olhos na rival, retrucando com a voz sombria:
— Cale a boca e pare de inventar mentiras.
Embora tentasse negar verbalmente, ela recordou-se subitamente da noite do sepultamento de seu irmão, quando Felipe propôs o casamento exibindo um olhar completamente desprovido de sentimentos.
Valéria cruzou os braços, saboreando o próprio triunfo.
— Acredite você ou não, os fatos são os fatos. Além disso, eu sou a mulher que o Felipe realmente ama. Ele já me garantiu que, assim que essa criança nascer, ela será entregue para que eu a crie!
Apesar de sua mente rejeitar aquela afirmação, o coração de Vitória começou a afundar gradualmente.
A iluminação intensa do ambiente a envolvia, mas ela experimentava apenas o frio rigoroso daquele outono.
Será que Felipe a amava?
Diante dessa questão, ela jamais conseguiria articular uma resposta afirmativa com convicção.
Uma dor aguda e repentina manifestou-se em seu peito.
Valéria subiu os degraus com um sorriso cínico e parou diante dela, assumindo uma postura provocativa:
— E então? Senhora, ainda vai tentar me expulsar daqui?
Ela enfatizou o tratamento formal de propósito para desestabilizar Vitória.
Com a fisionomia abatida, os olhos de Vitória fixaram-se no lenço de seda que envolvia o pescoço de Valéria.
Felipe havia lhe presenteado com um acessório idêntico no passado.
Ele raramente lhe dava presentes, e receber aquele lenço a deixara radiante por dias.
Contudo, constatava agora que o objeto que considerava uma joia preciosa não passava de uma escolha feita para outra pessoa, replicada para ela por pura convenção.
Experimentando uma agonia profunda e contínua, Vitória apontou para a saída e ordenou friamente:
— Não me importa o que você invente, a esposa legítima aqui ainda sou eu. Já avisei que você não é bem-vinda, saia imediatamente!
A expressão de Valéria tornou-se extremamente sombria; seus olhos se dirigiram ao abdômen de Vitória e, recordando as instruções que recebera daquela mulher, um brilho cruel tomou conta de seu olhar.
Aproveitando que os funcionários não observavam a cena diretamente, ela segurou os pulsos de Vitória e soltou um grito estridente:
— Ah! O que você está fazendo?
No instante seguinte, antes que Vitória pudesse esboçar qualquer reação, sentiu um empurrão violento e perdeu o controle do corpo, despencando escada abaixo!
Dor! Uma dor insuportável tomou conta de todo o seu corpo!
Ela ouviu vozes confusas ao seu redor e o som de alguém telefonando apressadamente para a emergência.
— Sangue! A patroa está sangrando! — gritou uma das funcionárias em pânico.
A mente de Vitória girava enquanto cólicas violentas castigavam seu abdômen; no trajeto até o hospital, ela conseguia sentir o fluxo contínuo de sangue e a perda de temperatura em seu corpo.
O seu filho... estava prestes a deixá-la?
Lágrimas involuntárias escorriam de seus olhos, misturando-se aos cabelos; seu corpo já perdia a sensibilidade devido à intensidade do sofrimento, restando apenas a dor real em seu coração.
Ela pensava em Felipe, em suas feições distantes, em cada detalhe dos últimos três anos...
Ela desejara tanto constituir um lar legítimo, composto por ela, Felipe e o bebê.
Toda aquela projeção idealizada estraçalhou-se como um espelho partido.
Ela sentia a vida de seu filho se esvair progressivamente.
Após um período indeterminado, em meio à semi-inconsciência, ela percebeu vozes no ambiente.
— Felipe, você precisa acreditar em mim, eu juro que não foi por mal! Eu acabei de retornar ao país e fiquei com muito medo de morar sozinha, por isso quis passar uns dias com você. Não imaginava que ela avançaria para me agredir; eu apenas tentei me esquivar e ela acabou caindo.
Dito isso, a pessoa começou a chorar de forma dramática.
Vitória identificou imediatamente a voz de Valéria.
Logo em seguida, uma voz familiar manifestou-se:
— Eu acredito em você.
Era Felipe.
Ele declarou que depositava confiança em Valéria.
E quanto a ela?
Capítulo 8: O Acordo de Divórcio
Será que para ele ela não passava de uma mulher desequilibrada e violenta que atacava os outros sem motivo?
Movida por uma indignação profunda, Vitória abriu os olhos abruptamente, deparando-se com uma cena que a atingiu como uma lâmina no peito.
Valéria encontrava-se acolhida de forma vulnerável nos braços de Felipe.
Aquele tipo de proximidade e afeto, em três anos de matrimônio, ela jamais recebera dele.
Ao notar que a paciente despertara, Valéria afastou-se do abraço com uma postura frágil:
— Você acabou de sofrer um aborto, precisa focar na sua recuperação!
O tom exalava falsa preocupação, mas o olhar transbordava um triunfo perverso.
Vitória cerrou os punhos com força e fez esforço para se acomodar no leito, mantendo os olhos fixos exclusivamente em Felipe.
Seu rosto pálido não exibia qualquer vestígio de cor, e seus olhos marejaram de forma incontrolável:
— Me diga a verdade: o seu casamento comigo serviu apenas para assegurar as ações do seu avô?
Embora formulasse uma pergunta, sua entonação carregava a certeza do fato.
Felipe hesitou por um breve instante, algo incomum em sua postura; ele lançou um olhar severo para Valéria e fixou os olhos na expressão ferida de Vitória, sentindo uma inquietação interna quase incontrolável.
— Sim.
Naquele momento, ele decidiu banir qualquer hesitação restante.
As lágrimas anuaram a visão de Vitória; ela mordeu os lábios com força, mas sua voz manifestou-se trêmula:
— Você... desde o início, já havia planejado o divórcio?
— Sim.
Cada confirmação dele funcionava como um golpe cortante.
As lágrimas dela romperam qualquer barreira, escorrendo em abundância.
— Uma última pergunta: quando prometeu me oferecer um lar, aquilo também não passou de uma farsa?
Felipe contraiu o maxilar involuntariamente antes de responder de forma contida:
— ...Sim.
O brilho nos olhos de Vitória extinguiu-se instantaneamente; suas forças se esvaíram por completo e ela não conseguiu articular mais nenhuma palavra.
Felipe exibia uma fisionomia rígida, experimentando a sensação de que a atmosfera do quarto havia estagnado.
Naquele milésimo de segundo, ele quase se arrependeu.
Contudo, a racionalidade o manteve firme em sua postura e ele limitou-se a declarar:
— Foque em descansar.
Em seguida, retirou-se do recinto acompanhado por Valéria.
A porta do quarto foi fechada com força, permitindo a entrada de uma lufada de ar gélido.
Vitória fixou os olhos na estrutura de madeira e finalmente deu vazão ao pranto.
Os soluços e a agonia dela ecoaram pelo quarto hospitalar vazio, cessando somente após um longo período.
A noite se estabeleceu, trazendo consigo uma escuridão gélida.
Vitória permanecia encolhida no leito, com os olhos abertos, incapaz de conciliar o sono.
Ela levou a mão ao ventre, experimentando um vazio absoluto; a pequena vida que um dia trouxera calor ao seu interior havia partido definitivamente.
Uma angústia latente tomou conta de sua mente e ela recordou-se subitamente do dia do casamento com Felipe, do momento em que o contemplara no altar, experimentando uma mistura de doçura e uma estranha melancolia.
Ela havia se preparado para caminhar ao lado dele pelo resto da vida, mas constatava agora que aquela união fora estruturada sob uma fraude desde o primeiro dia.
Cada lembrança afetuosa convertera-se em fragmentos de vidro, ferindo-a profundamente.
Felipe, já que não há sentimentos de sua parte, qual o sentido de manter este matrimônio?
...
Andar 76 do complexo corporativo.
O assistente abriu a porta do escritório:
— Diretor Felipe, a sua esposa encontra-se na recepção e solicita uma audiência.
Ao notar a súbita queda na temperatura do semblante de Felipe, o funcionário adotou uma postura cautelosa.
Felipe, por sua vez, tentava calcular quanto tempo havia se passado desde o último encontro no hospital...
Um mês ou dois?
Ao verificar o calendário, constatou que transcorrera apenas uma semana; uma irritação incompreensível tomou conta de sua mente e ele respondeu de forma ríspida:
— Não vou recebê-la.
O assistente retirou-se, porém retornou minutos depois com extrema cautela, estendendo um documento:
— A patroa solicitou a entrega deste material ao senhor.
Felipe franziu o cenho com profundidade e, ao abrir a pasta, deparou-se com os caracteres destacados: Acordo de Divórcio!
Mansão da família.
O documento foi arremessado sobre a mesa por Felipe, que encarou Vitória com total indiferença:
— Ainda resta um mês para completarmos os três anos exigidos. O divórcio não pode ser formalizado neste momento.
O olhar de Vitória carregou uma expressão de profunda amargura, logo contida por sua postura firme:
— Como preferir. O documento já conta com a minha assinatura; passarei este último mês residindo fora desta casa.
Dito isso, ela se virou em direção às escadas.
Felipe fixou os olhos naquela silhueta que se afastava com uma determinação isenta de qualquer nostalgia, cerrando os punhos.
Por fim, ele permaneceu em silêncio e retirou-se da propriedade.
Nos degraus, Vitória olhou para trás à distância e, ao notar a silhueta indiferente dele sumir pela porta, esboçou um sorriso melancólico.
Em seguida, retomou os passos firmes em direção ao quarto.
Capítulo 9: A Descoberta
Naquela madrugada, Felipe retornou à residência.
A imensa propriedade exibia a mesma estrutura de sempre, porém parecia estranhamente desolada e fria.