— Aconteceu algo, senhora?
O pânico tomou conta do interior de Valéria, que se levantou apressadamente, empurrou Vitória e correu em direção à saída, temendo ser identificada.
Somente ao retornar para a mansão que Felipe lhe dera, e ao tocar as fileiras de itens de grife em seu closet, ela conseguiu recuperar a calma.
Se aquela mulher chamada Vitória continuasse viva, o segredo sobre a falsa autoria do salvamento de Felipe correria o risco de vir à tona a qualquer momento.
O olhar dela assumiu uma expressão cruel e decidida.
Aquela Vitória precisava desaparecer definitivamente.
Capítulo 4: Todo o Mundo Desaba
Hotel Fasano.
A noite caiu e a chuva do lado de fora ficava cada vez mais forte.
Vitória olhou para o relógio, sentindo uma ponta de ansiedade inexplicável no coração.
Já passava das oito da noite e Vitinho ainda não havia chegado, embora tivessem combinado que ele viria buscá-la hoje.
Trrim... trrim... trrim...
Enquanto pensava, o celular tocou de repente.
Vitória olhou para o número desconhecido e seu coração se apertou instantaneamente:
— Alô, boa noite?
— Olá, é a Senhorita Vitória? O seu irmão sofreu um acidente de carro, ele está agora no Hospital Central...
A chuva desabava em torrente.
Vitória correu loucamente para o meio da rua na tentativa de parar um táxi, mas como algum veículo parado na porta do hotel estaria vazio naquele momento? Ela simplesmente não conseguia uma carona.
Coch... — um carro parou lentamente diante dela.
O vidro da janela desceu devagar e ela se deparou com os olhos indiferentes de Felipe.
Naquele instante, ela não se importou com mais nada, implorando com a voz embargada pelo choro:
— Senhor Felipe, aconteceu algo com o meu irmão e ele está no hospital, o senhor poderia me levar até lá? Por favor, eu lhe imploro...
A chuva forte encharcou Vitória por completo, a água escorria por seus cabelos e, ao notar os olhos vermelhos dela, uma corda no coração de Felipe pareceu ser profundamente tocada.
— Entre no carro.
Hospital.
A luz da sala de cirurgia permaneceu acesa por muito tempo.
Vitória fixava os olhos naquela lâmpada, imóvel e hirta, enquanto a água da chuva formava uma pequena poça sob seus pés.
Ela sentia como se tivesse retornado àquela noite de anos atrás, quando seus pais sofreram o acidente; naquela noite, a luz vermelha também ficou acesa por muito tempo e ela, abraçada ao irmão ainda pequeno, sentiu-se completamente abandonada pelo mundo.
E agora, mais uma vez.
Mais uma vez, contudo, ela já não tinha sequer um ombro em que se apoiar, pois o seu último familiar estava deitado ali dentro.
Ela pensou em muitas coisas e, ao mesmo tempo, não conseguia se lembrar de nada.
Apenas o sorriso de Vitinho insistia em surgir em sua mente.
Ele dizia: Mana, não trabalhe tanto, eu vou ganhar dinheiro para sustentar você...
Ele dizia: Mana, você fica tão cansada todos os dias, eu posso deixar de assistir às aulas noturnas para cozinhar para você em casa, de qualquer forma eu estudo bem em qualquer lugar...
Ele dizia: Mana, eu vou buscar você no trabalho...
Vitória não percebeu que as lágrimas já lavavam seu rosto, enquanto Felipe, ao seu lado, por algum motivo não havia ido embora e apenas a observava em silêncio.
Madrugada.
Vitória estava sentada no banco do corredor quando um copo de leite quente surgiu diante de seus olhos; ela ergueu o olhar aturdida e percebeu que era Felipe.
Ela hesitou por mais alguns segundos antes de aceitar o copo, dizendo com a voz rouca:
— Senhor Felipe, o Vitinho vai ficar bem, não vai?
Clac — antes mesmo que Felipe pudesse responder, a luz da sala de cirurgia mudou para a cor verde.
O médico saiu do recinto e Vitória correu imediatamente em sua direção:
— Doutor, como está o meu irmão?
O médico retirou a máscara, expressando profundo pesar:
— Sinto muito.
Aquelas duas palavras atingiram o seu coração com violência, fazendo com que todo o seu mundo desabasse.
— Não pode ser, o Vitinho é tão jovem, ele não pode morrer!
De repente, ela segurou as mãos do médico, implorando desesperadamente:
— Por favor, doutor, salve a vida dele, eu lhe imploro...
O médico permitiu que ela o segurasse, sem proferir uma única palavra.
A maca de cirurgia coberta por um lençol branco foi empurrada para fora do aposento, e nos olhos de Vitória restaram apenas aquele branco cortante e o vermelho trágico.
Ela tremia de forma incontrolável, estendeu as mãos mas não conseguiu segurar nada e, no momento seguinte, desabou desfalecida no chão.
Um dia depois, no corredor do necrotério.
A polícia colhia o depoimento.
— Senhorita Vitória, o local do acidente do seu irmão não fica longe do seu ambiente de trabalho, mas aquela área não possui câmeras de segurança; apenas testemunhas relataram que um carro esportivo vermelho atropelou o seu irmão e fugiu sem prestar socorro.
Vitória vestia roupas pretas e seu olhar parecia tão sem vida quanto o do falecido.
Ela perguntou baixinho:
— Se capturarem o culpado, ele pode ser condenado à pena de morte?
O policial ficou desconcertado com a pergunta e, após um longo silêncio, gaguejou:
— Senhorita Vitória, isso... receio que... seja muito difícil...
Uma fuga, uma vida interrompida.
A morte é a despedida mais cruel deste mundo.
Vitória já não conseguia chorar.
Atrás dela, Felipe permanecia de olhos baixos e em silêncio; ele próprio não entendia a razão de ainda não ter ido embora.
Talvez porque ela o fizesse lembrar de alguém, daquela mulher que, quando ele tinha apenas oito anos, morreu em um acidente automobilístico após descobrir a traição do marido.
Depois que a polícia se retirou, ele se aproximou de Vitória.
— Eu levo você para casa. — Ele não percebeu que sua voz soava quase terna naquele momento.
Vitória sobressaltou-se, sem imaginar que ele ainda estaria ali, e murmurou em seguida:
— Casa... eu não tenho mais uma casa.
— Enquanto você mesma estiver aqui, poderá construir o seu próprio lar.
As palavras dele funcionaram como um forte estímulo, e o olhar de Vitória finalmente deixou de parecer tão sombrio a ponto de incomodá-lo.
Após deixar Vitória em casa, Felipe retirou o celular do bolso com impaciência e notou dezenas de chamadas perdidas de Valéria.
Ele manobrou o veículo em direção à mansão.
— Felipe! — Assim que o viu, Valéria correu em sua direção, abraçando-o e caindo no choro. — Eu causei uma tragédia, o que eu faço? Não foi por mal, aquela pessoa surgiu do nada na minha frente, os meus freios falharam e eu acabei atropelando ela sem querer!
Felipe franziu o cenho e a afastou.
Contendo o impulso de descartar a roupa manchada pelas lágrimas dela, perguntou friamente:
— O que aconteceu?
Valéria chorava copiosamente, fingindo desespero:
— Ontem à noite... perto do Hotel Fasano, eu atropelei uma pessoa, mas eu juro que não foi por mal! Pelo fato de eu ter salvo a sua vida no passado, me ajude, Felipe, por favor, eu não quero ser presa!
O acidente perto do Hotel Fasano... era o irmão de Vitória!
Após um longo silêncio, Felipe manteve as sobrancelhas unidas, com uma fisionomia sombria e irredutível:
— Vou ordenar que providenciem a sua saída do país.
Capítulo 5: Lágrimas Como Flores
Valéria ficou apreensiva; se deixasse o país, como conseguiria se casar com Felipe?
Ela abriu a boca para contestar, mas ao notar os sinais de irritação no rosto dele, não ousou dizer nada.
Felipe telefonou para o assistente e, assim que a ligação foi atendida, ordenou rigidamente:
— Providencie a saída de Valéria do país o mais rápido possível!
Do outro lado da linha, o assistente respondeu prontamente:
— Sim, senhor, mas acabamos de receber uma notícia urgente sobre o velho senhor...
— Fale!
— O idoso sofreu um ataque cardíaco e foi internado às pressas!
Quarto de hospital.
Felipe parou diante da porta e, antes mesmo de abri-la, ouviu os soluços de uma mulher ao lado do leito do avô.
Não precisava adivinhar para saber que se tratava de sua madrasta, Júlia.
Ao avistar Felipe, Júlia intensificou o pranto:
— Pai, o senhor precisa intervir pelo nosso Murilo! O Felipe ordenou que o levassem e até agora não sabemos o paradeiro dele, ele é o seu neto legítimo!
Diante do escândalo de Júlia, a expressão de Felipe não sofreu qualquer alteração; ele já não era aquela criança que perdera a mãe, que era subjugada por ela e não tinha um lar.
Ele comentou calmamente:
— Há poucos dias a Senhora Júlia me enviou um grande presente, o qual apreciei muito, por isso decidi retribuir da mesma forma ao seu filho; por acaso não gostou?
Júlia sentiu uma mistura de raiva e desespero, desejando destruí-lo naquele instante.
— Cof... cof... — Na cama, o Vovô Francisco gesticulou com a mão. — Saia um instante, por favor, preciso tratar disso com o Felipe.
Júlia lançou um olhar ameaçador para Felipe e retirou-se do aposento.
O Vovô Francisco encarou Felipe e, com uma postura séria, abordou outro assunto: