Capítulo 1: A Pulseira Roubada
São Paulo, as luzes da cidade cintilavam como pequenos pontos distantes.
Vitória saiu do turno da noite e pegou um atalho pelos fundos do hotel para voltar para casa.
Ela conhecia aqueles becos desde a infância, por isso não estava particularmente preocupada.
No entanto, a ruela parecia estranhamente silenciosa aquela noite, a ponto de nem mesmo o latido dos cães ser ouvido, o que a fez desacelerar o passo com os pelos do corpo arrepiados.
Felizmente nada aconteceu, e ao avistar a saída do beco logo à frente dos prédios residenciais antigos, ela finalmente respirou aliviada.
De repente, a pilha de lixo acumulada na esquina se moveu, fazendo com que Vitória quase corresse de susto, mas um homem desabou dali de dentro e permaneceu completamente imóvel.
Ela se aproximou dele com cautela e percebeu que, sob o corpo daquele homem cujo rosto estava coberto de sujeira, começava a se espalhar uma poça escarlate.
Vitória levou um susto e rapidamente pegou o celular para ligar para a emergência.
— Ambulância? Tem um homem ferido aqui na travessa da Vila Mariana, número sete, venham rápido!
Caído no chão, Felipe abriu os olhos em meio ao torpor, enxergando vagamente a luz amarelada do poste acima de sua cabeça, enquanto o rosto da mulher sob a lâmpada não passava de uma sombra escura.
Antes de ser colocado na ambulância, Felipe reuniu suas últimas forças e segurou a mão de Vitória com firmeza.
Vitória ficou estática de susto, pois nem imaginava que aquele homem ainda conseguia se mexer.
Uma pulseira de prata fria foi empurrada rudemente na palma de sua mão, e o homem, com a voz fraca mas num tom extremamente impositivo, murmurou:
— Guarde isso... com cuidado.
A ambulância partiu em alta velocidade, e só então Vitória reagiu, olhando para o objeto em suas mãos e guardando-o no bolso com uma ponta de frustração.
Como ele já estava a caminho do hospital, provavelmente ficaria bem, e ela apenas torcia para que sua boa ação não lhe trouxesse problemas.
Ela se virou para caminhar em direção a casa, mas antes de dar dois passos, foi atingida em cheio por um esbarrão violento, torcendo o salto alto e caindo estirada no chão.
A mulher que havia esbarrado nela foi a primeira a gritar:
— Garota ridícula, não olha por onde anda?
Vitória ergueu os olhos e se assustou com o cabelo tingido de vermelho e a maquiagem exagerada daquela mulher.
A reclamação que estava prestes a sair de sua boca acabou travando, pois preferia evitar confusões e sabia que era melhor não arrumar briga com os tipos marginais daquela região.
Ao ver que ela permanecia calada, a mulher cuspiu no chão e se afastou com arrogância.
Vitória voltou para casa desanimada e sem alternativas.
Ela não percebeu que, atrás dela, a jovem delinquente, Valéria, pesava na mão a pulseira que acabara de furtar de seu bolso e, acendendo um cigarro, soltou um riso de desprezo:
— Quem diria, tem cara de miserável mas carrega uma peça de valor dessas.
A pulseira era realmente linda. Valéria apagou o cigarro com o pé de forma experiente, colocou a joia no pulso e seguiu em direção ao bar.
Enquanto isso, Vitória, após vivenciar aquela noite tão peculiar, finalmente conseguiu entrar em casa.
Ao abrir a porta, o aroma forte de carne de panela a envolveu.
Seu irmão mais novo, Vitinho, colocou a cabeça para fora da cozinha ao ouvir o barulho:
— Mana, por que demorou tanto hoje?
A mente de Vitória finalmente relaxou e ela respondeu casualmente:
— Surgiu um imprevisto de última hora no hotel.
Depois que os irmãos terminaram a refeição, Vitória se esparramou no sofá. Vitinho se aproximou trazendo uma pequena caixinha e, com um sorriso misterioso em seu rosto bonito, disse:
— Mana, é para você!
Vitória abriu a embalagem e encontrou uma gargantilha com um pingente de folha de ginkgo.
Era exatamente a peça que ela havia namorado no shopping dias atrás com Vitinho, mas que não tivera coragem de comprar.
O coração de Vitória se aqueceu e ela sentiu o nariz arder.
Desde a morte dos pais, ela e Vitinho dependiam um do outro e precisavam economizar cada centavo, fazendo com que ela não se arrumasse como uma garota comum há muito tempo.
Mas as coisas estavam mudando, pois Vitinho tinha acabado de passar no vestibular da USP e os dias seriam melhores a partir de agora.
— Obrigada, meu irmãozinho querido.
Ela piscou os olhos para disfarçar as lágrimas que marejavam sua visão e fez menção de guardar o pingente.
De repente, lembrando-se de algo, tateou o próprio bolso.
Estava completamente vazio. A pulseira havia sumido.
Ela empacou no lugar por um instante, chegando a duvidar se realmente tinha salvado um homem minutos atrás.
— Mana, aconteceu alguma coisa?
Vitória balançou a cabeça com um sorriso terno:
— Nada não, só não gaste mais com isso, guarde o dinheiro do seu trabalho para você.
Vitinho pegou a corrente e a ajudou a colocar no pescoço enquanto comentava:
— Mana, daqui para frente eu vou cuidar de você, isso é só o começo...
O ventilador de teto fazia um ruído abafado acima deles, embalando uma noite que era ao mesmo tempo silenciosa e cheia de vida.
Um mês depois, em uma mansão luxuosa nos Jardins.
— Foi você quem me salvou?
Felipe franziu as sobrancelhas marcantes, fitando a mulher à sua frente com olhos tão frios e profundos quanto um abismo.
Anteriormente, sua madrasta, Júlia, havia subornado os seus seguranças particulares, deixando-o entre a vida e a morte, e ele tivera a sorte de ser resgatado por alguém.
E a mulher diante dele era justamente a delinquente que havia roubado a pulseira, Valéria.
O tom vulgar de vermelho do cabelo de Valéria já havia sido tingido de preto e, vestindo um vestido branco simples, ela conseguia se passar por uma figura frágil e digna de pena.
Olhando para aquele homem imponente e atraente diante de si, e lembrando-se da imensa riqueza que o assistente dele a havia feito presenciar nos últimos dias, ela jamais imaginaria que uma pulseira furtada traria tamanha sorte.
Ela assentiu com a cabeça simulando timidez.
Felipe lançou um olhar distante para Valéria e fixou os olhos na pulseira no pulso dela.
E questionou friamente:
— O que você quer em troca?
Valéria assumiu uma postura lamentável:
— Senhor Felipe, minha família sempre foi muito pobre, não tive estudos e passei por muitas provações na vida. Quando o salvei, eu não estava pensando em receber nada...
Felipe costumava abominar a aproximação de mulheres, mas ao se recordar daquela silhueta gentil que vira à beira da morte, seu coração cedeu por um instante.
Embora sua voz permanecesse rígida, ele declarou:
— Já que você salvou a minha vida, eu cuidarei de você.
Capítulo 2: O Reencontro
Hotel Fasano.
Vitória tinha acabado de vestir o uniforme de trabalho e, ao sair do vestiário, deparou-se com dois homens de terno preto que se aproximaram com expressões severas.
— Por favor, a senhora seria a Senhorita Vitória?
Vitória assumiu uma postura alerta:
— Sou eu, o que desejam?
Um dos homens gesticulou indicando o caminho:
— O nosso Vovô Francisco deseja vê-la, por aqui, por favor.
Quem seria esse homem?
Vitória vasculhou a memória exaustivamente, mas não conseguiu se lembrar de conhecer ninguém com esse nome.
Contudo, os dois homens à sua frente claramente não davam margem para qualquer recusa.
Ela não teve escolha senão acompanhá-los até o restaurante de luxo do hotel.
O salão, que costumava estar repleto de clientes àquela hora, contava agora com apenas um senhor de cabelos brancos sentado à mesa.
Ao avistá-la, o idoso demonstrou imediata agitação.
Vitória sentiu-se intrigada, mas o senhor retirou uma fotografia antiga do bolso e a estendeu em sua direção:
— Vivi, não fique nervosa, eu fui companheiro de exército do seu avô e passei as últimas décadas procurando por vocês.
...
Nos últimos dois dias das férias escolares, os irmãos jantavam em casa, pois no dia seguinte Vitinho deveria se apresentar na faculdade.
Vitinho comentou enquanto comia:
— Mana, o Vovô Francisco realmente tem palavra. O nosso avô salvou a vida dele no passado, e ele passou décadas nos procurando apenas para entregar os pertences que eram da nossa avó.
Vitória soltou um suspiro:
— Quem poderia imaginar que a vovó viajaria tanto para o norte tentando encontrar o vovô, e acabaria esperando por ele a vida inteira aqui em São Paulo?
Ambos ficaram um tanto melancólicos, e Vitinho logo tratou de mudar de assunto de propósito:
— Mana, ouvi dizer que o Vovô Francisco quer que você saia com o neto dele amanhã?
Vitória colocou um pedaço de carne no prato de Vitinho e lançou-lhe um olhar de censura:
— Nem comendo você consegue segurar essa língua!
No dia seguinte, às sete da noite.
Vitória saiu do trabalho e correu para o restaurante agendado.
Ela não havia se produzido especialmente para a ocasião; afinal, só aceitara o encontro por consideração ao idoso.