68. Evolução da percepção compartilhada
Enquanto lidava com o constrangimento interno, a porta do quarto foi aberta de forma repentina. Ao notar a aproximação, Thalita buscou se abrigar na sala de banho sem refletir muito, mas acabou sendo contida logo em seguida.
— Por que a Alteza está tentando se esquivar, sim? — A presença firme e imponente dele aproximou-se, e Thalita demonstrou uma expressão embaraçada, sentindo a face aquecer intensamente.
Céus, aquela denominação de "Alteza" não precisava ser mencionada de forma tão direta naquelas circunstâncias. Sentindo-se desconfortável com a provocação, ela mudou de posição no abraço dele, encarando-o de frente e comentando em voz baixa: — Por favor, evite me chamar dessa forma.
— Compreendo. Retornou à normalidade? — Caio comentou achando graça da reação e, segurando-a com firmeza, acomodou-as junto ao balcão, mantendo uma grande proximidade física. Essa postura facilitava o contato entre os dois. Ele aproximou o semblante, mantendo a respiração próxima, e brincou: — Sendo assim, o que faremos com a exigência sobre o acompanhante do meio artístico?
Thalita demonstrou timidez e apoiou o rosto contra o peito dele, respondendo em tom abafado: — Caio, você não precisa dar tanta atenção às exigências daquela persona...
Ela referia-se à soberana da ilusão. Caso contrário, em uma próxima oportunidade, aquela persona certamente exigiria dele a encenação de outros papéis para o seu entretenimento. Pensar em cenários daquela natureza causava imenso constrangimento a ela.
— Não há problema nenhum. — Ele respondeu com seriedade, embora mantivesse um tom de voz descontraído enquanto acariciava os cabelos dela: — Desde que seja do seu agrado, farei o possível para corresponder. Dispomos de muito tempo no futuro para acompanhar a rotina um do outro. Por isso... — Ele inclinou-se para depositar um beijo na testa dela, fixando o olhar nela com afeição: — independentemente das variações ou das personas que surgirem, permanecerei ao seu lado até que essa condição se recupere por completo.
Thalita silenciou por um instante. O constrangimento anterior dissipou-se, dando lugar a um sentimento de contentamento que a fez sorrir: — Sim.
Ao retomar a consciência normal, Thalita costumava manifestar um certo cansaço. Por essa razão, após o almoço, ela acabou pegando no sono. Mais tarde, despertou experimentando uma nítida sensação de imersão em água aquecida. O período noturno já havia começado.
Ela abriu os olhos com uma certa confusão, avaliando o ambiente. O quarto permanecia sem iluminação artificial, recebendo apenas a claridade da lua através da janela. Ela encontrava-se deitada na cama ampla, protegida pelo cobertor de seda, em um ambiente totalmente seco. Portanto, a origem daquela percepção de imersão em água não demandava muitas explicações.
A percepção compartilhada com o corpo dele havia retornado, mas parecia apresentar características distintas. A primeira alteração relacionava-se ao olfato. Embora não estivesse na sala de banho, ela percebia nitidamente a presença de vapor e calor em sua respiração. A segunda modificação manifestava-se na superfície da pele, algo perceptível mesmo sob a luz natural da lua: sua pele habitualmente clara exibia uma tonalidade levemente rosada.
Seria o desdobramento que ela estava imaginando? Sem total certeza, ela considerou que o melhor seria verificar a situação pessoalmente. Pouco depois.
Clique.
Caio encontrava-se na banheira quando a porta foi aberta. Ao notar a aproximação de Thalita conduzindo um copo de leite, ele demonstrou surpresa: — Thali? — Ele fez menção de se levantar.
Contudo, Thalita adiantou-se, sinalizando para que ele permanecesse na água.
— Caio, gostaria de beber algo?
Enquanto falava, posicionou o copo próximo aos lábios dele. Naquele instante, ela identificou claramente o aroma marcante do leite, o que alterou sutilmente a sua expressão. Suas suposições haviam se confirmado.
Embora a variação em seu olhar tenha sido discreta, Caio atento percebeu o movimento. Ele fixou o olhar nela com atenção. A postura havia mudado novamente? Diante daquela insistência em oferecer a bebida de forma súbita, estaria ela sob a influência de alguma persona com intenções desfavoráveis?
— Caio, não vai aceitar? — Notando a ausência de reação dele, Thalita insistiu, afinal, ainda precisava testar se a percepção do paladar também havia sido integrada.
Contudo, a atitude reforçou a interpretação equivocada de Caio. Aquela pressa sugeria que a persona realmente apresentava alguma proposta suspeita. Semicerrando os olhos de forma descontraída, ele estendeu a mão para receber o copo e, sob o olhar atento dela...
Ploft.
O recipiente de vidro com o líquido acabou caindo no interior da banheira de forma repentina.
— Ah, lamento pelo ocorrido. — Caio esboçou um sorriso sutil e recolheu o copo da água. — Houve uma falta de firmeza no movimento, peço desculpas, querida.
— Não há problema. — Thalita respondeu mantendo um tom suave e recolhendo o objeto: — Vou providenciar outra opção para você.
Caio achou a persistência da persona marcante. Diante do movimento dela para deixar o local, ele agiu rápido, envolvendo a cintura dela com o braço e aplicando uma leve força. Com o impacto na água, Thalita foi conduzida para o interior da banheira, permanecendo em proximidade direta com ele, com a vestimenta de dormir úmida entre os dois.
— O que está fazendo? — Thalita ergueu o rosto, demonstrando surpresa.
Ele segurou o queixo dela com delicadeza, aplicando uma leve pressão em tom de brincadeira: — Quais são as suas reais intenções aqui, sim?
As intenções dela? Claramente eram apenas verificar os desdobramentos da percepção compartilhada! Agora estava evidente que a conexão entre os dois havia integrado a capacidade olfativa. Quanto à alteração na tonalidade da pele... ela considerou que seria oportuno realizar mais uma verificação.
Com esse intuito, ela aproximou o semblante da região clavicular dele, exercendo uma leve pressão com os dentes na superfície da pele. Caio demonstrou uma certa rigidez com o contato e, com a voz grave, pronunciou: — Thali?
Thalita manteve a iniciativa por mais alguns instantes antes de se afastar. Ao avaliar o local tocado, notou a presença de uma marca avermelhada na pele dele. Em seguida, direcionou a atenção para a própria clavícula: ali manifestava-se exatamente uma marca idêntica.
Caio também constatou aquela alteração evidente, demonstrando surpresa em seu olhar.
— Confirmado. — Thalita murmurou em tom baixo.
Caio fixou o olhar nela: — O que foi confirmado?
Diante do questionamento, Thalita optou por esclarecer toda a situação envolvendo a percepção compartilhada que mantinha com o corpo dele. E incluiu também a informação de que, no passado, havia tomado a iniciativa de aproximação motivada justamente por essa condição, buscando estabelecer limites para as ações dele.
— Entendo... — após um momento, ele comentou com a fisionomia demonstrando surpresa e reflexão.
— Peço desculpas, Caio, — Thalita segurou o braço dele, buscando explicar com seriedade: — embora a motivação inicial estivesse relacionada a isso, os meus sentimentos por você tornaram-se reais posteriormente, por favor, compreenda!
Ele observou a clareza no olhar dela por alguns instantes e sorriu: — Sim, eu compreendo.
Ouvindo a resposta, Thalita sentiu-se mais aliviada. Contudo, no momento seguinte, ele segurou o rosto dela com as duas mãos, demonstrando muita consideração em seu olhar: — Lamento que, por minha causa, você tenha passado por esse tipo de preocupação por tanto tempo.
Thalita moveu os cílios levemente e acomodou o rosto contra a palma da mão dele: — Não há motivo para lamentar, no momento sinto-me satisfeita por partilhar dessa conexão com você. Mas... — ela demonstrou uma certa preocupação em seu olhar: — quando eu retornar ao estado de desorientação de identidade, certamente deixarei de lembrar desses fatos.
Ela aproximou-se para enfatizar com seriedade: — Portanto, Caio, daqui em diante, é fundamental que você dispense muita atenção aos seus próprios cuidados e evite excessos. Não permita que a minha outra persona note qualquer detalhe incomum na percepção compartilhada, para evitar reações imprevistas da parte dela. E além disso, caso manifeste os sintomas de sua condição de sensibilidade ao toque, lembre-se de buscar a minha proximidade física através de abraços ou demonstrações de afeto. Caso contrário, eu também experimentarei o desconforto e, sem a lembrança da situação, poderei reagir com muita impulsividade diante do incômodo!
Caio esboçou um sorriso e concordou prontamente: — Perfeitamente.