66. Thalita, a soberana
Em leilões de alto padrão, figuras de grande destaque raramente compareciam pessoalmente, preferindo designar assistentes para realizar as aquisições de seu interesse. Contudo, havia exceções ocasionais, como o caso de Maurício, que fazia questão de comparecer para demonstrar seus recursos e agradar sua parceira, sentindo-se realizado com isso. De todo modo, ele não supunha que a outra personalidade influente estivesse ali pelo mesmo motivo.
Enquanto refletia, notou os funcionários conduzindo mais alguém pela entrada do salão. Parecia ser uma garota de estatura delicada, que se dirigia diretamente aos assentos reservados da frente. O que causou enorme surpresa em todos os presentes foi o fato de o gestor do Grupo Qi levantar-se pessoalmente para conduzi-la pela mão, acomodando-a ao seu lado.
Maurício ficou sem reação. Viviane, ao seu lado, também demonstrou surpresa, acompanhada por um sutil sentimento de frustração.
— Marido, quais são as opções disponíveis neste leilão? — nos assentos da frente, Thalita perguntou demonstrando curiosidade, já que não havia verificado as informações prévias.
— Diversas — Caio respondeu observando-a. — Se houver algo de seu interesse, basta sinalizar para o Samuel, e ele fará a aquisição.
Ao lado, o assistente Samuel esboçou um sorriso cortês: — Exatamente, senhorita Thalita. Sinta-se à vontade.
Os olhos de Thalita ganharam brilho: — Posso escolher o que quiser, na quantidade que desejar?
Caio assentiu com um olhar sereno: — Sim.
Thalita sentiu-se entusiasmada internamente, mas manteve uma postura contida na aparência: — Puxa... não gostaria de causar incômodos.
Apesar da colocação, assim que a sessão teve início, ela não economizou nos recursos de Caio. Fosse um bracelete de jade valioso de coleções históricas ou o colar de diamantes azuis de grande valor que Viviane pretendia adquirir, tudo o que chamava a atenção de Thalita era arrematado por Caio através de Samuel com valores expressivos. Em suma, todas as joias sofisticadas e antiguidades de bom padrão visual foram adquiridas por ela.
Após um longo período, Viviane observou os dois deixando o local juntos, sentindo um misto de sensações.
— Tudo bem, não fique chateada — Maurício comentou tentando confortá-la com moderação. — O diretor Caio demonstrou interesse pela peça, eu não poderia insistir e causar um desentendimento com ele, compreende? — Além disso, em uma disputa de recursos, ele saberia que não teria chances.
Diante do tom de respeito dele, Viviane atentou para a denominação utilizada: — Diretor Caio? — Sua expressão era de incredulidade. — Você está se referindo ao gestor do Grupo Qi?
Maurício assentiu: — Exatamente.
Viviane ficou impressionada. Agora entendia a razão de achar a figura familiar. Aquele jovem empresário de atuação marcante e trajetória de destaque era uma personalidade reconhecida internacionalmente no meio corporativo. Contudo, ela tinha a informação de que ele mantinha uma postura muito reservada e distante de relacionamentos. Quem seria afinal aquela garota que recebia tanta atenção e cuidado da parte dele?
...
Thalita não tinha conhecimento de que havia chamado a atenção.
— Um beijo, marido. Boa noite... — à noite, após as luzes se apagarem, ela depositou um beijo suave nos lábios de Caio e fechou os olhos com tranquilidade.
No papel da acompanhante fictícia naquele dia, ela havia aproveitado os recursos dele com muita satisfação. Com isso, as inseguranças e temores anteriores haviam se dissipado por completo; ela não sentia mais a necessidade de justificar sua utilidade, considerando que a situação já havia sido vantajosa.
Caio, percebendo que as emoções dela ficavam totalmente evidentes em suas feições, achou graça da situação: — Boa noite.
A persona acreditava ter alcançado uma grande vantagem, mas não mensurava a totalidade dos recursos que ele possuía — os diversos empreendimentos pelo mundo e as movimentações financeiras expressivas a cada instante. Recursos materiais eram apenas dados numéricos para ele, sendo o item mais acessível em sua rotina. Como pintora em sua consciência normal, Thalita já possuía uma condição estável e não demonstrava grande apego a valores materiais. Mas sob a influência da ilusão atual, com a suposta falência familiar recente, a segurança financeira era o elemento mais direto para trazer-lhe tranquilidade. E aquilo, indiretamente, também trazia satisfação a ele. Acompanhar as reações dela e vê-la contente trazia imenso bem-estar. Ele inclusive sentia curiosidade sobre qual seria a próxima persona que a imaginação dela criaria.
A resposta para isso manifestou-se logo na manhã seguinte.
— Guarda Caio, o que significa essa conduta?
A claridade sutil do amanhecer preenchia o quarto através das frestas da cortina, revelando a postura atual da mulher. Ela encontrava-se sentada sobre a cintura dele, mantendo as mãos delicadas posicionadas sobre o pescoço do homem. Seus olhos expressivos estavam levemente semicerrados enquanto o questionava com autoridade:
— Já faz quase dois meses que esta soberana foi transportada para este plano, e até o momento, além de cumprir suas obrigações nos aposentos, você não providenciou nenhum outro acompanhante para a minha corte! Com tamanha ineficiência, não se esqueça de que a sua essência vital permanece sob o meu domínio. Quer que eu simplesmente a encerre e decrete o seu fim?
Ao concluir, posicionou os dedos indicador e médio unidos em um gesto formal sobre a própria testa e, em seguida, tocou a testa dele de forma impositiva.
Caio: ...
A encenação era meticulosa, indicando que ela devia ter consumido muitos conteúdos de ficção fantástica. Ele ergueu levemente o olhar, achando graça daquela suposta ameaça invisível à sua integridade física, e comentou com a voz pausada e descontraída: — Compreendo. E de que maneira você pretende encerrar essa essência?
— Quanta audácia! — A mão de Thalita exerceu uma leve pressão sobre o pescoço dele. — Quem lhe permitiu dirigir-se a esta soberana dessa forma? — Ela acrescentou com firmeza: — Sou a prestigiosa princesa da dinastia soberana, sua autoridade máxima! Você deve se dirigir a mim como Vossa Alteza ou Soberana! Com apenas dois meses neste plano, você já se esqueceu das normas de conduta?
Dito isso, uniu novamente os dedos indicador e médio, proferindo algumas palavras em tom de comando: — Esta soberana vai aplicar uma penalidade agora! — Ela continuou murmurando uma sequência incompreensível de termos.
Caio permaneceu observando-a em silêncio, achando a cena muito divertida e cativante, o que lhe despertou a vontade de se aproximar. E foi exatamente o que fez no instante seguinte. Sem que Thalita esperasse, ele a segurou pela nuca com firmeza e iniciou um beijo caloroso.
Ela ficou sem reação por um segundo e, ao compreender a situação, demonstrou grande agitação, elevando o tom de voz de forma inédita: — Ah! Quanta audácia! — Seu rosto corou de indignação. — Isso é insubordinação total! Eu permiti essa aproximação? Como ousa quebrar a hierarquia dessa forma?
Ela fez menção de retomar os gestos de comando, mas, recordando-se de algo recente, sua fisionomia demonstrou subitamente uma certa apreensão: — Un momento... por que a penalidade de antes não surtiu nenhum efeito em você? — Seus olhos expressivos arregalaram-se levemente. — Será que... você conseguiu se libertar do meu domínio?
Caio, percebendo a alteração na fisionomia dela e notando que ela começava a demonstrar sinais de nervosismo, agiu rápido para manter a encenação. Levou as mãos à cabeça, contraindo as feições do rosto como se estivesse sentindo um forte incômodo, e simulou sofrimento: — Ah... que dor intensa! Peço clemência, soberana!
Ao presenciar a reação dele, os olhos de Thalita logo ganharam um brilho de satisfação!