62. Marido
Apesar de ser uma mudança, na verdade não havia muitos pertences para carregar. Quando Thalita chegou à residência de Caio na noite seguinte, percebeu que ele já havia providenciado tudo o que ela poderia precisar. Um exemplo era o closet atual.
Ela observou impressionada o amplo espaço que se assemelhava a uma loja de departamentos, repleto de roupas de grife, joias, calçados e bolsas de luxo, a maioria pertencente às coleções exclusivas e limitadas do ano.
— Por enquanto encomendei apenas estes itens, os demais ainda estão sendo confeccionados — Caio comentou, puxando-a para um abraço por trás e apoiando o queixo no topo da cabeça dela. Sua voz soou ligeiramente rouca: — Thali, me desculpe. — Ele sentia muito por ela ter passado por tanto sofrimento sozinha no exterior, longe da família e dos conhecidos, em um local totalmente estranho.
Ele a segurava com tanta firmeza que Thalita quase sentiu dificuldade para respirar. Ela não entendia o motivo do pedido de desculpas. Além disso, a quantidade de itens era imensa, e ele ainda usava a expressão "apenas estes itens". Aquilo a deixou um tanto surpresa, afinal, na lógica de seu papel atual, ele a havia escolhido apenas por interesse estético. Em suma, tratava-se de uma situação baseada em atração visual, sem envolvimento emocional.
Portanto, ele exibir tudo aquilo seria uma forma de sugerir que ela deveria corresponder às expectativas? Pensando nisso, Thalita ergueu-se levemente sobre a ponta dos pés e depositou um beijo suave no maxilar tenso dele.
— Obrigada, diretor Caio. Tudo isso é maravilhoso, eu gostei muito. — Seus olhos eram expressivos e sua postura era dócil.
Na realidade de sua consciência normal, ela deveria demonstrar descontentamento, expressar a frustração pelos anos de afastamento, e não adotar uma postura dócil devido àquela ilusão.
— Thali, não me chame de diretor Caio. — Ele não fazia ideia de que tipo de conteúdo ela havia consumido para idealizar uma situação daquela natureza. Ele não se sentia confortável vendo-a se colocar em uma posição de submissão. Embora as orientações médicas sugerissem não contestar a ilusão de forma direta, ele achava difícil se conter. — Pode me chamar pelo meu nome. — Ele ergueu a mão, tocando com carinho o rosto que tanto desejara ver ao longo dos anos, e corrigiu com seriedade: — Você não está aqui sob nenhuma condição de acordo, você é a minha namorada, compreendeu?
Thalita hesitou por um instante. O que ele pretendia com aquilo? No início, ele havia adotado uma postura impositiva e orgulhosa ao propor o arranjo, enfatizando os limites da situação. Agora falava em namoro? A fisionomia de Thalita tornou-se pensativa. Ela deduziu que a denominação anterior poderia ser prejudicial à reputação dele. Afinal, sendo um empresário de destaque internacional e com uma imagem pública preservada, a divulgação de um arranjo daquela natureza traria repercussões negativas.
Thalita considerou que não deveria levar a colocação de namoro a sério; as obrigações do arranjo ainda precisavam ser cumpridas. No entanto, ela não se sentia à vontade para chamá-lo diretamente pelo nome.
— Posso te chamar de irmão Caio então? — ela perguntou, fitando-o com seus olhos expressivos.
"Irmão Caio..." Caio franziu levemente o cenho. A expressão ainda transmitia uma sensação de distanciamento.
Ao notar a reação dele, Thalita percebeu que a opção não havia agradado. Após refletir por um momento, uma ideia a fez corar levemente: — Então... marido?
O ambiente ficou em absoluto silêncio. Após um instante, Caio perguntou com a voz ligeiramente alterada: — O quê?
Thalita demonstrou uma certa hesitação, mordendo o lábio inferior. Qual seria o significado daquela reação dele? Desanimada, ela comentou: — Se você não gostou, eu posso mudar...
— Eu gostei — ele a interrompeu, fixando os olhos nela com intensidade. — Chame assim mais uma vez.
A denominação a deixou um pouco surpresa, e seu rosto ficou ainda mais avermelhado. "Quem diria que, na intimidade, o diretor adotava uma postura tão afetuosa." Ela correspondeu ao pedido de forma dócil: — Marido. — Sua voz suave trazia a cadência característica das pessoas do sul, soando de forma afetuosa.
— Sim — Caio respondeu com a voz grave e, movido pela emoção do momento, inclinou-se para iniciar um beijo suave em seus lábios. Foi um gesto inesperado e de extrema delicadeza.
Thalita hesitou por um segundo, mas, lembrando-se de sua suposta condição no acordo, correspondeu ao gesto de forma ativa. O momento estendeu-se de forma calorosa no interior do closet. Movido pelo sentimento, o beijo tornou-se mais prolongado. Sentindo uma certa instabilidade nas pernas devido à intensidade da situação, Thalita acabou sendo acomodada por ele sobre o balcão de joias, mantendo uma proximidade física acentuada.
Aquela postura parecia um tanto ousada para Thalita, tornando as percepções físicas muito evidentes. Na verdade, desde o momento em que imaginara o início do arranjo, ela já havia se preparado mentalmente. Se ele não demonstrasse interesse por ela, aí sim haveria motivo para preocupação. Afinal, para alguém na posição dele, encontrar um arranjo seria extremamente simples. Se ela não correspondesse às expectativas e ele decidisse cancelar o apoio à sua família, a situação seria desastrosa.
Com esse pensamento, ela envolveu o pescoço dele com os braços e, com os lábios próximos ao ouvido dele, pronunciou em tom suave e tímido: — Marido. — A intenção de corresponder ao momento era evidente.
No entanto, Caio não levou a situação adiante. Naquele momento, poder mantê-la em seus braços, recebendo aquele tratamento afetuoso, de certa forma parecia algo temporário e frágil. Se ela não estivesse sob o efeito daquela desorientação de identidade, a reação dela provavelmente seria de afastamento e descontentamento. Se ela retomasse a consciência normal naquele instante, a situação causaria um enorme desconforto.
Pensando nisso, sentindo um aperto no peito, ele usou o polegar para acariciar suavemente a face macia dela: — Você acabou de receber alta do hospital, precisa descansar adequadamente.
Dito isso, ele a segurou nos braços e a conduziu até o quarto, acomodando-a na cama confortável. Envolvendo-a em um abraço protetor, tocou de leve em seus cabelos: — Durma um pouco.
Thalita piscou os olhos, surpresa. Mesmo diante daquela proximidade, ele optou por não avançar? "Será que ele não ficou satisfeito? Talvez ele tenha se incomodado por eu ter apenas feito a higiene básica em vez de um banho completo e perfumado, perdendo o interesse?" Pequenas insatisfações acumuladas poderiam gerar desentendimentos futuros. Como a situação de sua família ainda era delicada na ilusão, ela achou melhor agir com cautela.
Com isso em mente, ela ergueu o rosto e disse: — Marido, eu gostaria de tomar um banho primeiro.
Ele concordou prontamente: — Tudo bem, quer que eu te ajude?
Ela achou que não seria adequado receber esse tipo de auxílio dele. No entanto, a disposição dele em se oferecer a surpreendeu. A ausência de iniciativa anterior realmente devia estar relacionada ao fato de ela não ter tomado um banho completo antes.
No banheiro, o ambiente estava tomado pelo vapor da água aquecida. Thalita sentiu-se confortável e acabou prolongando o momento na banheira, até que o cansaço a fez pegar no sono. Ela acabou despertando com o movimento dele a retirando da água.
Ao abrir os olhos ainda sonolentos e confusos, deparou-se com o olhar profundo e afetuoso dele: — Desculpe, eu te acordei? Eu...
Thalita permaneceu imóvel, sem conseguir processar as palavras dele. As lembranças dos acontecimentos dos últimos dias retornaram com total clareza à sua mente. Ele havia demonstrado proximidade com Amanda na pista de dança e depois havia agido de forma impositiva com ela. Ela sentia muita raiva; havia dito que não queria mais saber dele e que não pretendia vê-lo novamente!
No entanto, sob o efeito daquela confusão mental recente, o que ela havia feito? Além de se colocar na posição de uma acompanhante de acordo, chegou a chamá-lo de marido e até tomou a iniciativa de aproximação!
Aquilo era inacreditável! Ela não aceitava aquilo!
— Me solte! — Uma forte sensação de indignação tomou conta dela. Com os olhos marejados, ela demonstrou total rejeição: — Eu quero ir para casa, não quero ficar com você!
Caio observou a clareza no olhar dela e fez uma pausa. Ele compreendeu imediatamente: ela havia retomado a consciência normal.