CAPÍTULO 11: Se não são irmãos de sangue, então tudo é permitido...
Alice ficou estática.
Era como se as palavras tivessem entrado por um ouvido e saído pelo outro.
Passaram pelo seu cérebro, mas ela não teve coragem de reter nada.
Ela sentiu que, se não tivesse enlouquecido e tido uma alucinação, então Henrique é quem devia ter perdido o juízo desta vez.
Alice olhou fixamente para os olhos de Henrique, mas teve a vaga sensação de que ele não estava brincando.
Ela endireitou o corpo, esquecendo-se até de chorar.
Discretamente, afastou-se um pouco, aproveitando o movimento para empurrar Henrique e mudar de assunto: "Como é que você também começou a falar bobagens como o meu segundo irmão?"
O olhar de Henrique tornou-se indecifrável; ele virou o rosto, largou o lenço e pegou um novo: "Ele também já te disse coisas desse tipo?"
"Não." O coração de Alice palpitou, pois percebeu que Henrique parecia estar falando sério.
O irmão mais velho não era de brincadeiras.
Alice sabia disso.
Normalmente, o que ele dizia, ele cumpria.
Como dizia, assim fazia.
Pensando nisso, Alice desviou o olhar com medo e inquietação, antes de voltar a encará-lo em descrença: "Não, você..."
"Eu não quero ser manipulado," Henrique disse enquanto usava o lenço limpo para secar o restante das lágrimas no rosto dela. "Eu sei que você também não quer. O motivo de você ainda estar aqui hoje é porque não se conforma."
"Antes do vovô falecer, a família avaliou a contribuição de cada um para dividir a herança; suas ações foram merecidas pelo seu esforço."
"E quanto a esse exame de DNA, existem soluções muito melhores."
"Afinal, vocês já são adultas, e a vontade própria de vocês está acima de tudo. Se nenhuma das duas quiser, ou não estiver disposta, não haveria problema em não trocar de lugar e apenas manterem contato."
"Mas por que isso vazou da família e foi parar nos jornais para ser amplamente noticiado?"
"E por que o terceiro e o quarto tios estavam tão apressados em convocar o conselho para remover o papai, usando esse incidente para tirar todas as vantagens possíveis?"
Diante de Alice, as luzes da cidade cintilavam em um clima festivo; as risadas da família no jardim tornavam-se cada vez mais altas.
Atrás dela, havia apenas uma noite vasta, silenciosa e densa.
"Alice, eles te usaram e depois te descartaram. Por isso, quanto mais eles quiserem te ver na miséria, melhor você deve viver."
"Quanto mais eles tentarem tirar o que é seu, mais você deve lutar para recuperar."
"Mesmo que precise me usar para isso, não tem problema."
O vento noturno dissipava as nuvens e a névoa.
Após a saída de Alice.
Henrique segurava sua taça, observando do alto o banquete animado no jardim.
A borda da taça ainda carregava o frescor deixado pelas pontas dos dedos de Alice.
Dentro da taça estava o champanhe que ela bebera pela metade.
Henrique pressionou os dedos sobre aquele frescor e deixou o líquido rolar por sua língua; a luz afiada refletida pelo vinho claro caiu inteiramente no fundo de seus olhos.
Junto com todas as pessoas lá embaixo.
Lá embaixo, o rosto do terceiro tio, Augusto Cavalcanti, não esteve bom a noite toda.
De vez em quando, ele olhava o celular, lendo as mensagens enviadas pelo secretário.
[O grupo seguiu a classificação de receita total dos últimos cinco anos para atribuição de valores. Combinando a participação acionária, com foco principal na receita e secundário na participação, procedeu-se à distribuição das ações.]
[Após a distribuição, houve mudanças significativas dentro do conselho.]
[A participação de Artur Cavalcanti ultrapassou 18,9%, tornando-o o segundo maior acionista depois de Henrique. Houve alterações em vários membros do conselho; um saiu e dois entraram. Será necessário convocar uma reunião de eleição para mudança de membros na próxima semana.]
[Um dos novos membros é Arthur, cujas receitas no mercado externo foram excelentes nos últimos dois anos.]
Augusto esperou não haver ninguém por perto para praguejar: "Eu realmente subestimei aquele garoto, o Henrique."
"O quarto irmão era o aliado que eu trouxe para pressionar o primogênito, e agora ele pode pisar na minha cabeça! E ainda colocou um diretor aliado dele no conselho, derrubando o seu próprio irmão."
"Foi apenas uma diferença de 0,5%, daremos um jeito de recuperar isso depois", disse a terceira tia como quem não quer nada. "Aquela Lívia que veio do interior é que é o problema."
Dizendo isso, ela deu um empurrão no filho: "Vá conversar com sua nova irmã daqui a pouco para sondar o terreno."
O mimado Arthur Silva ainda sentia desprezo pela garota do interior que não conhecia o mundo e não queria ir: "Ah, as ações de vocês não aumentaram? Já têm mais dinheiro, por que ainda não estão felizes?"
Ouvindo isso, Augusto sentiu-se ainda mais sufocado: "O que você entende?"
O plano dele era derrubar Henrique futuramente para tornar-se o número um, mas não esperava que Henrique lhe arranjasse outro adversário.
A segunda tia chamou de longe: "Por que ainda estão parados aí? Vamos jantar."
Augusto imediatamente mudou para uma expressão sorridente: "Estamos indo."
A terceira tia tentou pressionar Arthur Silva novamente, mas vendo que ele não se movia, desistiu.
Lívia sentou-se ao lado de Helena, sendo a protagonista indiscutível da mesa.
Um perguntava uma coisa, outro perguntava outra.
O terceiro tio, Augusto, apresentou a si mesmo e aos que o rodeavam com um sorriso: "Eu sou seu terceiro tio, esta é sua tia e seu irmão."
Lívia olhou para ele casualmente, não respondeu e apenas pegou o copo de suco ao seu lado.
Augusto tentou ser cortês: "Não precisa de tanta formalidade, não precisa brindar..."
Antes que ele pudesse terminar a frase, Lívia tomou um gole de suco por conta própria, sem a menor intenção de brindá-lo.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Ninguém imaginaria que uma garota do interior, participando pela primeira vez de uma reunião da família, ousaria dar tal desprezo.
Lucas foi o primeiro a soltar uma risada.
Ele parou logo após levar um tapa de Helena.
Ao lado do terceiro tio, Arthur Silva disparou ironicamente: "Quem vem do interior parece realmente não ter modos."
Lívia foi ainda mais direta: "Pare de fingir. Quem tinha modos foi expulsa por vocês."
"Ficou comigo, que não tenho modos, e eu não vou te paparicar."
A atmosfera na mesa congelou por um momento.
O pai interveio para apaziguar: "A criança é direta, não levem a mal."
Lucas continuou a provocação indireta: "Ser direta é ótimo. Hoje em dia está cheio de hipócritas, gente fingida e cínica."
"O que há de errado em dizer a verdade?"
A família do terceiro tio ficou com o rosto ainda mais fechado, e as tias logo mudaram de assunto, tentando disfarçar com risadas.
A terceira tia comentou de repente: "Ouvi dizer que a Lívia e o Lucas estudaram Computação na Universidade de Hong Kong. Vocês já se conheciam?"
Lucas, agora com o sorriso sumido, rangeu os dentes de leve e olhou para a tia.
Como o assunto era interessante, Lívia comentou casualmente: "Como veterano, com certeza já tinha ouvido falar dele."
O clima começou a suavizar: "Pois é, o Lucas na faculdade tinha muitas garotas atrás dele, com certeza você ouviu falar."
Helena ficou curiosa: "Mas vocês já tinham se visto antes?"
Lucas falou primeiro: "Nunca nos vimos."
Lívia olhou para Lucas de forma significativa mais uma vez.
Considerando que ele a ajudara a rebater os outros agora pouco, ela não o desmentiu.
No segundo ano do mestrado, quando foi para os Estados Unidos como pesquisadora visitante, ela vira Lucas, que já era formado.
Colegas disseram que ele estava nos Estados Unidos acompanhando um projeto por dois anos.
Que coincidência.
Ela ouvira dizer que Alice estivera em especialização nos Estados Unidos, também por dois anos.
Então ele tinha ido escondido da família.
Além disso, o motivo de ela ter visto Lucas foi...
Ela encontrou uma pulseira inteligente dele, que havia sido modificada.
Tinha monitoramento remoto por GPS.
Lívia tivera a boa intenção de avisá-lo.
Mas ele apenas disse: "Nós trabalhamos com isso. A pulseira monitora batimentos, oxigenação, sono, exercícios; ter uma função de localização a mais não é normal?"
Mais tarde, Lívia viu a garota que acompanhava Lucas usando aquela pulseira.
Lívia não quis ser intrometida; quem saberia se o casal gostava desse tipo de sentimento pervertido de ser vigiado e cobiçado.
Mas agora ela sabia: aquela garota era a Alice.
Após o jantar.
Lívia voltou para o quarto e, por azar, pegou o elevador com Lucas.
Lucas disse friamente: "Lembre-se de não falar demais nesta casa."
Lívia olhou para ele com diversão e retrucou com as próprias palavras dele: "Nós trabalhamos com isso. Não é normal uma pulseira inteligente ter uma função de localização a mais?"
Lucas cerrou os olhos, mas de repente sorriu mostrando os dentes: "É só para saber onde ela está a qualquer momento. Eu me preocupo com ela, o que você entende?"
Ele parecia um tanto sinistro: "Não tem problema, você pode contar para a Alice."
Ele usou um tom de aviso e deboche: "Veja se a Alice acredita em você ou em mim."
Com um "bipe", o elevador chegou ao quarto andar.
Lucas saiu.
Lívia observou-o ir com interesse e apertou novamente o botão do terceiro andar.
O andar do quarto de Alice.
Lívia foi direto até a porta do quarto de Alice e bateu.
Ouviu passos lá dentro, a porta se abriu e Lívia cerrou os olhos, surpresa.
Quem abriu a porta não foi Alice.
Foi o Arthur.
Arthur estava tirando uma luva descartável, mantendo a outra; parecia estar comendo algo.
Ele foi receptivo como se fosse o dono do quarto: "Lívia, você chegou. Estamos fazendo um lanche noturno, quer se juntar a nós?"
A expressão de Lívia era um misto de reações, e ela soltou um riso silencioso: "Não."
"Então você tem algo para falar com a Alice? Eu posso dar o recado."
"Nada." Lívia observou Arthur por um momento e, no fim, não disse nada: "Eu já vou indo."
A porta se fechou, Lívia fez o caminho de volta e não pôde evitar um estalo de língua.
Esses três irmãos da Alice...
Nesse momento, Alice acabara de ligar o projetor de cinema e voltou para escolher um filme qualquer.
Ao ver Arthur voltar, ela aproveitou para perguntar: "Quem era?"
"A Lívia."
"Ela me procurou," Alice olhou para ele. "Por que não pediu para ela entrar?"
Arthur sentou-se novamente: "Ela disse que não era nada e foi embora."
Alice achou estranho; Lívia não parecia o tipo de pessoa que viria apenas para dar uma volta sem motivo.
"Antes de você subir, como estavam as coisas lá fora?"
"Tudo bem."
"Alguém a humilhou?"
"Quem conseguiria humilhá-la?" Arthur lembrou-se da cena na mesa: "Ela não deu a mínima para o terceiro e o quarto tios, não fez a menor sala. Eles ficaram verdes de raiva."
"Você deveria se preocupar com você mesma. Pretende mesmo ir embora?"
"Pretendo." Alice sentou-se novamente, encolhendo-se no sofá, e pegou uma asa de frango da caixa: "Já encontrei uma casa e estou arrumando tudo."
Arthur não disse nada, apenas organizou a mesa.
O quarto ficou em silêncio por um tempo, preenchido apenas pelos sons de abertura do filme.
O início da história mostrava a mãe da protagonista se casando novamente; a protagonista mudava-se com a mãe para a casa do padrasto e conhecia seu meio-irmão...
O movimento de Alice comendo a asa de frango desacelerou visivelmente.
Arthur colocou as luvas novamente e, justamente naquele momento, comentou: "Na verdade, você poderia morar na minha casa."
Alice lembrava-se de que a casa dele era na praia: "É muito longe."
Arthur perguntou de novo: "Se não fosse longe... você aceitaria?"
"Não." Alice recusou de forma simples: "Eu já decidi. Se você estiver preocupado, pode me visitar sempre."
O quarto mergulhou em silêncio novamente.
Na tela do cinema, o meio-irmão era libertino e casual; as cenas de confronto e a tensão ambígua que surgia com a irmã tornaram-se estranhamente bizarras naquele ambiente silencioso.
Alice começou a suspeitar que aquele filme não seria sobre laços familiares.
E se fosse um romance...
Então aqueles irmãos...
Alice comprimiu os lábios e não resistiu a perguntar ao Arthur: "Você já viu este filme?"
Arthur respondeu em tom relaxado e casual: "Nunca vi."
Alice deu um "ah" e, distraída, tomou dois goles de suco.
Talvez por estar com a consciência pesada após a conversa com Henrique, ela esqueceu que estava logada na conta de vídeo do Arthur.
No entanto, no segundo seguinte, surgiu na tela uma cena do irmão prensando a irmã contra um carro.
Alice engasgou com o suco, que transbordou e manchou seu camisolão.
Arthur pegou um lenço de papel, mas parou com a mão no meio do caminho.
Onde seus olhos alcançavam, o suco agridoce escorria por seus lábios cheios e brilhantes, desenhando a linha do queixo e do pescoço, serpenteando para baixo e encharcando o decote.
As manchas na saia pareciam respingos por todo o corpo, chegando até as pernas...
Alice, apressada, arrancou o lenço da mão de Arthur e tentou limpar, mas a sujeira no vestido ficou ainda mais evidente.
Ela levantou-se bruscamente: "Vou trocar de roupa."
Dizendo isso, foi para o quarto; o suco que ela não tivera tempo de limpar escorria pela curva de sua perna.
O quarto não era longe, apenas uma parede os separava.
Arthur tirou as luvas, recostou-se no sofá e conseguia até ouvir o farfalhar das roupas sendo trocadas no cômodo ao lado.
Seu colarinho, como de costume, tinha dois botões abertos, mantendo um ar despojado.
Ele olhava para a tela do cinema; luzes e sombras mudavam de forma imprevisível sobre ele e em seus olhos.
A trama avançava para a parte em que a irmã era dopada em uma festa e o meio-irmão a levava dali.
Alice voltou após trocar de roupa.
A atmosfera no quarto começou a ficar estranha.
A mente de Alice estava cheia das palavras que Henrique lhe dissera há pouco.
Case-se comigo.
Alice perguntou, fingindo casualidade: "Nesse tipo de situação, eles podem se casar?"
Arthur respondeu rapidamente: "Se não estão no mesmo registro civil, por que não poderiam?"
"Mas... isso não deixaria os pais bravos?"
"Depois de casados, ela também teria que chamá-los de pai e mãe, qual a diferença?"
Arthur acrescentou com um significado oculto: "Se não são irmãos de sangue, então tudo é permitido fazer."
"Não acha, Alice?"