CAPÍTULO 8: Excessivamente inadequado
O ar dentro do quarto estagnou por um instante.
Aquela sensação de estranheza que havia desaparecido retornou com força total.
Alice não conseguia distinguir bem o que era; sua primeira reação foi pensar que Henrique parecia zangado.
Mas ela não sabia por que ele estaria zangado.
Alice refletiu muito.
Ela achava que, embora Henrique tivesse um rosto de traços internacionais, sua mentalidade e comportamento sempre foram um tanto conservadores.
Talvez aquelas palavras soassem excessivamente inadequadas para ele.
Afinal, no ambiente em que Alice cresceu, Augusto estava sempre ocupado com o trabalho.
E como o irmão mais velho assume o papel de pai, o papel de Henrique equivalia ao de seu segundo progenitor.
Alice sentiu uma culpa sem motivo aparente.
Nesse exato momento, Henrique perguntou novamente: "É assim que você cumprimenta todo mundo?"
"Não, claro que não, eu estava brincando, irmão." Alice levou o cookie que tinha na mão em direção aos lábios dele e disse com leveza: "Como você pôde levar a sério?"
Henrique baixou o olhar, observando o gesto dela de alimentá-lo com seus dedos finos segurando o biscoito.
Parecia que ela não percebia o quão ambíguo era aquele gesto.
Assim como ela se jogou para abraçar Bernardo assim que entrou.
Não tinha nenhuma guarda levantada contra eles.
Henrique ficou imóvel por um longo tempo. Quando seus lábios finos se abriram levemente, Alice retirou o cookie com agilidade e deu uma mordida ela mesma.
Henrique foi, inevitavelmente, provocado por ela.
Para piorar, a culpada, após fazer a travessura, ainda empurrou a culpa para ele com um sorriso radiante: "Se o irmão não come, então eu como."
Alice limpou os farelos das pontas dos dedos e saiu cantarolando em direção à cozinha: "Vou ver o que a mamãe está preparando hoje."
Henrique respirou fundo, observando-a partir com um olhar profundo e sombrio.
Lucas entrou vindo de fora e disse em voz baixa para Henrique: "O conselho de administração começa em dez minutos."
Henrique desviou o olhar: "Entendido."
Dito isso, subiu para o escritório.
Lucas o seguiu e ligou a tela grande da sala de reuniões do escritório.
Na tela, via-se a mesa redonda do conselho de administração do grupo.
Augusto, antes de sair, recomendara a Henrique que pai e filho não aparecessem simultaneamente no conselho.
Um agindo às claras, outro na retaguarda.
Afinal, aquela reunião do conselho de hoje era fora do comum.
Era a reunião de prestação de contas após o incidente de Alice.
O conselho já havia começado a listar os prejuízos e impactos que o evento causara ao grupo.
A secretaria lia as avaliações de danos uma por uma.
Após a leitura, o quarto ficou em silêncio por alguns segundos. Um homem de meia-idade, recostado em seu assento, falou primeiro: "Presidente, o prejuízo desta vez é enorme. A estimativa de perda de parcerias e lucro líquido futuro ultrapassa 5 bilhões por ano."
"Todos estão rindo de nós. Como o senhor pretende lidar com isso?"
Augusto, sentado na cabeceira, tirou calmamente um maço de documentos: "Vim hoje para comunicar ao conselho."
"Indenizarei integralmente todas as perdas de lucro do grupo."
"Este é o plano de compensação para a matriz e as subsidiárias. Por favor, analisem."
A resposta direta e resoluta de Augusto silenciou momentaneamente aqueles que pretendiam atacá-lo.
Rapidamente, eles encontraram um novo argumento: "O presidente acha que isso é um assunto pequeno? Que basta cobrir o déficit?"
O homem de meia-idade retomou a palavra: "Exatamente. Não importa se esses 5 bilhões de lucro saem dos meus ativos ou dos seus, não nos falta essa quantia."
"Mas, por causa disso, a credibilidade do grupo despencou. O presidente conseguirá cobrir todos os déficits futuros?"
A voz de Augusto era grave e firme: "O déficit do grupo se divide em vários aspectos: a queda da economia de mercado, os gargalos do setor e a ineficiência da mão de obra da empresa, entre outros."
"Irmão, não tenha tanta pressa. Antes deste incidente, o lucro líquido da subsidiária sob sua responsabilidade caiu 23% em relação ao ano anterior."
Augusto olhou para ele: "Eu posso me responsabilizar pela minha falha como presidente, mas você pode se responsabilizar pelos prejuízos que causou?"
Aquele homem era o terceiro irmão de Augusto.
O tio de Henrique e dos outros.
"Não nego que você esteja certo, e não estou questionando perdas por outros motivos", o homem evitou o assunto, dizendo pausadamente: "O ponto é que o presidente é a parte culpada neste caso..."
Augusto o interrompeu: "Eu sei que sou a parte culpada."
"De acordo com o estatuto da empresa, a partir de amanhã, estarei afastado do cargo."
Com essa declaração, o silêncio tornou-se absoluto na sala.
Joaquim Cavalcanti ainda estava com a boca entreaberta, sem terminar a frase.
As pessoas ao redor olhavam para ele com incredulidade.
"Não era este o objetivo de vocês hoje?", Augusto fez sinal para que a secretária lesse o acordo de punição que ele mesmo redigira.
Augusto sabia que, ao ser convocado pelo irmão para aquela reunião, haveria ali mais da metade de aliados de Joaquim que haviam prometido derrubá-lo.
Em vez de deixar que eles agissem, era melhor tomar a iniciativa, assumir toda a responsabilidade.
E então, delegar o poder a Henrique, impulsionando-o para o topo, em uma manobra de recuo estratégico.
Dessa forma, a estrutura do conselho permaneceria sob o comando de sua família.
Uma vez garantida a posição, as contas futuras poderiam ser acertadas com calma.
Além disso, Augusto considerava que já estava em uma idade avançada e que chegara o momento de se aposentar.
"O presidente cometeu falha grave, causando prejuízos significativos ao grupo por motivos pessoais. Além de indenizar a empresa, deverá ser destituído de parte de suas funções no conselho e no grupo. Os cargos específicos a serem destituídos são os seguintes..."
A atmosfera na sala de reuniões era tensa. Cada um apurava os ouvidos, captando rapidamente quais informações lhes seriam vantajosas.
Exceto pelo som da leitura da secretária, o silêncio era tão profundo que se poderia ouvir uma agulha cair.
Augusto cedera o poder voluntariamente, oferecendo alguns benefícios que satisfizeram parte do conselho.
O ponto de insatisfação era que o presidente interino seria Henrique.
Apenas trocaram o pai pelo filho.
Mas, fosse pela participação acionária no grupo ou pela posição atual de Henrique na empresa, era impossível encontrar falhas técnica.
Eles não tinham como derrubar Henrique também por enquanto.
Após a leitura do acordo de punição, o silêncio persistiu.
Augusto não lhes deu chance de contestar: "Se não houver outras objeções, seguiremos com os procedimentos de resolução do conselho."
Augusto fez menção de se levantar para ir para casa.
Ao lado, Joaquim sentia que tudo aquilo estava sob o controle excessivo de Augusto.
Não queria que ele saísse tão confortavelmente e disparou: "O presidente foi previdente e demonstrou sinceridade. Quase todas as soluções que discutimos anteriormente foram previstas pelo senhor, exceto uma..."
"Concordamos que o senhor ainda precisa se posicionar perante o público, limpar o nome da família, manter a imagem pessoal e do grupo e reduzir as perdas."
Augusto percebeu vagamente a intenção deles, e seu tom tornou-se sombrio: "Posicionar-se perante o público e limpar o nome da família seria..."
"A influência negativa de Alice na opinião pública já causou danos severos à imagem do grupo."
"Pedimos que o senhor corte todos os vínculos entre o grupo e ela. Que haja uma declaração pública clara, que todas as ações dela no grupo sejam confiscadas e devolvidas, e que empresas e imóveis em nome dela sejam retomados. Ela não deve ter mais nenhuma ligação com o capital ou as propriedades do grupo."
Sendo uma empresa familiar, metade do conselho era composta por parentes.
Essas palavras, ditas de outra forma, eram fáceis de entender:
Expulsem Alice da família.
No futuro, mesmo que a mídia noticiasse algo, Alice seria Alice, e os Cavalcanti seriam os Cavalcanti.
Qualquer impacto negativo futuro seria suportado apenas por Alice.
Augusto soltou uma risada amarga: "Ela é apenas uma criança."
Ele achou que, ao chegar voluntariamente àquele ponto, seria o suficiente para que deixassem Alice em paz. "Vocês, como tios, antes de tudo isso, eram todos extremamente carinhosos quando viam a menina."
"Isso quando ela era da nossa família. Agora, ela é?"
Fora da tela, Henrique ouvia tudo em silêncio.
Inconscientemente, girava o anel no seu dedo mindinho.
Na hora do jantar, Augusto ainda não havia voltado.
Helena fez uma ligação e avisou a todos para não esperarem por ele.
Aquela súbita mudança fez com que todos percebessem que algo estava errado.
Alice não aguentou e perguntou: "O que aconteceu?"
Henrique colocou uma tigela de costelinha com taro na frente de Alice e respondeu prontamente: "Apenas assuntos triviais da empresa."
Helena também disse com naturalidade: "Seu pai não faz isso com frequência?"
"O quê? Está com saudade dele?"
Alice usou a colher para pegar o taro: "Só perguntei por ele considerando o quanto ele queria que eu voltasse."
À sua frente, Bernardo falou de repente com um sorriso: "Você não disse que voltou para me ver?"
Alice acabou se queimando com o taro, pegou um lenço e cobriu a boca: "Se ele não tivesse dito que você voltou, eu jamais teria deixado que ele conseguisse o que queria tão rápido."
A mesa de jantar era grande o suficiente.
Arthur, sentado ao lado de Bernardo, disse em um tom descontraído que apenas os dois podiam ouvir: "Alice está te bajulando, apenas aceite."
"Você voltou para mimá-la, não para ficar pedindo dengo feito um cachorrinho."
Bernardo levantou a mão para servir água a Arthur: "A comida não é suficiente para fechar a boca do meu irmão?"
Arthur, sem paciência para ele, pegou o copo e o colocou de volta com um estalo: "Pqp."
Moleque abusado, servindo água fervendo para o irmão.
Uma criança extremamente vingativa.
Bastava ouvir algo que não gostava para querer queimar a boca do outro.
Ali perto, Lívia percebeu aguçadamente um clima sutil.
Levantou o olhar para eles, mas notou que agiam como se nada tivesse acontecido.
Após o jantar, Helena chamou Henrique: "Venha aqui um momento."
Henrique parou; os outros, sabendo que o chamado provavelmente era por um assunto sério, retiraram-se discretamente.
Bernardo chamou Arthur para acompanhá-lo na devolução de um carro.
Restaram apenas Alice e Lívia no elevador para subirem aos quartos.
Lívia não conteve a pergunta: "Esses seus irmãos..."
Alice aproximou-se um pouco, como se estivesse se gabando: "E então, eles não são ótimas pessoas?"
E não esqueceu de elogiar a si mesma: "Igual a mim."
Lívia estreitou os olhos: "Você acha que eles são ótimas pessoas?"
"Eles também são seus irmãos", Alice disse com leveza. "Aos poucos você verá que são ótimas pessoas."
Não.
Lívia era uma pessoa muito perspicaz.
Ela conseguia sentir claramente uma aura fora do comum vinda daqueles homens.
Cada um mais calculista que o outro.
Alice era completamente diferente deles.
Especialmente aquele, o primogênito, que parecia o mais normal.
Alice saiu do elevador, despediu-se de Lívia e seguiu para seu quarto. Pelo caminho, as babás e empregados cumprimentavam-na com cortesia.
Os dois primeiros estavam normais.
Mas, conforme avançava, Alice percebeu que as babás e empregados pareciam ter sido trocados.
Aquelas pessoas de antes haviam desaparecido.
Alice estava prestes a refletir sobre isso quando foi interrompida por notificações no celular.
Ela estava novamente nos tópicos mais comentados de forma negativa.
Alice não entendia; ela não era uma celebridade, nem tinha rivais, por que sempre havia esses ataques?
O conteúdo era o mesmo de antes, mas desta vez criticavam-na por ter arrematado uma caixa por um preço altíssimo.
Acusavam-na de gastos luxuosos.
Alice ficou um tempo olhando para a tela antes de fechar a imagem.
Cherry encaminhou uma mensagem de texto.
Era o museu notificando-a para uma entrevista presencial.
Alice ficou subitamente em silêncio, sentada na bancada da cozinha por um longo tempo olhando para a mensagem.
Ela se sentiu um pouco atordoada, como se tivesse voltado àquela noite de anos atrás.
A única diferença era que não estava tão aterrorizada e ansiosa quanto antes.
Alice leu a mensagem mais algumas vezes e depois largou o celular.
Não havia desfecho que ela não pudesse aceitar agora.
No dia seguinte, Alice acordou cedo, vestiu um vestido longo adequado para a entrevista e saiu.
Quando Alice entrou no carro, Cherry já estava no banco do passageiro, agarrada ao celular discutindo fervorosamente com os ataques na internet.
Ao notar o espelho retrovisor, ela guardou o aparelho.
"Bom dia, bb." Alice entregou uma sacola para Cherry.
Dentro havia um kit completo de café da manhã; Cherry reconheceu na hora que fora preparado pelo chef Michelin dos Cavalcanti, com doces e café.
Ser assistente de Alice era relativamente fácil.
Alice não tinha muitas demandas; chamava quando precisava, e quando não precisava, dava folga.
Nos dias de trabalho, Alice cobria todos os gastos de alimentação, transporte e estadia, e tudo era do melhor nível.
Isso fez com que Cherry, inflamada novamente, pegasse o celular e discutisse por mais cinco minutos com os ataques na rede.
Alice, enquanto retocava a maquiagem distraidamente, perguntou: "O que será discutido na entrevista hoje? Você sabe?"
"Entrevistas geralmente acontecem depois que a documentação é aprovada, é apenas para conversar sobre os próximos passos", Cherry a confortou. "Não se preocupe."
Alice não perguntou mais nada; pegou dois batons e pediu ajuda para escolher a cor.
O carro logo chegou à porta lateral do museu.
Alice desceu e entrou; só então percebeu que suas mãos estavam suadas e frias.
Estranho. Ela não deveria se importar.
Ali perto, duas garotas viram Alice e cutucaram uma à outra: "Aquela não é uma celebridade? O perfil dela é muito familiar."
Ao ouvir que era uma celebridade, a amiga pegou o celular e tirou duas fotos: "Não dá para ver o rosto, mas acho que ela se parece com aquela que fez o papel de filha de oficial no drama de época..."
Antes que a garota terminasse, Cherry adiantou-se e as interrompeu: "Com licença, por favor, apaguem as fotos."
Alice bateu na porta da sala de reuniões.
A voz do diretor veio de dentro: "Pode entrar."
Alice abriu a porta, e dentro da sala não estava apenas o diretor.
Todos os líderes importantes do museu estavam lá, sentados ao redor da mesa em frente a Alice.
Alice cumprimentou-os brevemente e sentou-se.
O diretor baixou a ficha de avaliação dela: "Sua prova escrita e entrevista passaram por um processo de investigação; parabéns, você foi aprovada na revisão."
"Mas antes de oficializarmos seu cargo, precisamos ter uma compreensão mais ampla e uma conversa mais profunda com você."
Alice conhecia aquele procedimento: "Eu entendo."
Cerca de uma hora depois, Alice saiu da sala de reuniões.
O diretor, provavelmente querendo aliviar a atmosfera tensa, suavizou o tom de voz: "A peça que você doou ao museu foi avaliada pelo Dr. Souza, o maior especialista de Pequim que veio especialmente para isso. Trata-se de um artefato de mil anos que guardava o selo real; o valor real é altíssimo."
"Hoje é o primeiro dia de exposição. Quer dar uma olhada?"
Alice ouviu o nome familiar: "O Dr. Souza veio?"
O diretor ficou surpreso: "Você o conhece?"
Alice moveu os lábios: "Fui aluna dele."
O diretor compreendeu, indicou a direção da galeria e voltou ao seu trabalho.
Alice atravessou sozinha o corredor vazio e silencioso.
No eco do corredor, as palavras dos líderes na sala de reuniões martelavam em sua cabeça.
"O museu, como local de exposição cultural, de fato precisa da atenção do público, mas o excesso é prejudicial. Não pode ser tanto a ponto de afetar o funcionamento normal do museu e nossas pesquisas internas. Estas denúncias e assédios contínuos dos últimos dias tiveram um impacto sem precedentes."
"Contratar você traz um certo risco. Sabemos que, neste assunto, você é inocente e reconhecemos sua capacidade profissional."
"Mas não somos um tribunal; não basta saber quem está certo ou errado. Precisamos avaliar nossos ganhos e perdas. Especialmente por sermos uma unidade de preservação cultural, precisamos garantir nossa segurança e estabilidade."
"Descanse por mais um mês, até que isso passe."
Aquele mês seria para observá-la.
Alice sabia disso.
Eles também não mencionaram sua efetivação.
Mas ser o centro das atenções nunca fora o que ela desejara.
O museu acabara de abrir e não havia muitas pessoas.
Alice caminhou pela galeria, e a iluminação suave projetava sua silhueta no vidro das vitrines.
Ela parou diante da caixa de selo real em pedra jade rosa com detalhes em ouro, perdida em pensamentos.
Até que alguém tocou seu ombro.
Alice virou-se.
Beatriz surgiu atrás dela: "Que coincidência."
Alice ficou surpresa: "O que faz aqui?"
"Ouvi dizer que minha caixa de selo seria exposta hoje, vim ver." Beatriz olhou a peça e a descrição através do vidro e soltou um estalido: "Realmente é da Dinastia Tang."
Aquele artefato vindo do exterior pertencia a um colecionador chinês; a casa de leilões avaliara exaustivamente como sendo das dinastias Ming ou Qing.
Mas, na época, Beatriz viu Alice insistindo no leilão e achou que deveria ser algo mais.
Alice, desde pequena, gostava de coisas bonitas e caras.
De relance, ela gostava tanto de diamantes azuis de valor astronômico quanto de pesos de papel de jade branca discretos no escritório de Augusto.
Seu talento inicial fora visto apenas como a vaidade de uma menina bonita.
Até que, aos nove anos, Alice foi levada por Augusto a um leilão. Ela fixou os olhos em uma peça de jade antiga de cor muito mista; Augusto, sabendo que ela gostara, arrematou-a.
Como ninguém dava nada pela peça, não houve disputa.
Foi arrematada pelo lance inicial de quinhentos mil.
Mais tarde, após a perícia, descobriu-se que era um rei dos vasos de jade de dois mil anos atrás.
Valia mais de cem milhões.
O valor era o de menos; o fato trouxe um impacto positivo gigantesco para o Grupo Cavalcanti.
Afinal, visão é a qualidade comercial mais importante de um empresário.
Naquela época, todos diziam que a princesinha dos Cavalcanti era o amuleto da sorte da família.
Beatriz não conteve o comentário: "Você pagou uma fortuna por isso, por que doou ao museu?"
"Apenas um presente de apresentação para o Museu de Hong Kong."
Beatriz suspirou: "E foi por causa disso que você passou o dia sendo atacada na internet de novo?"
Alice não respondeu, observando na descrição abaixo da peça uma linha de letras miúdas.
[Doadora: Alice Cavalcanti]
No caminho para casa, Alice reclinou o banco e fechou os olhos para descansar.
Ao chegar, perguntou casualmente: "Papai ainda não voltou?"
A empregada pegou sua bolsa: "Voltou sim, está no escritório."
Alice animou-se um pouco: "Vou lá vê-lo."
"Espere, senhorita."
Alice parou e viu que a expressão da empregada estava estranha.
Mas a funcionária forçou um sorriso, tentando não transparecer: "O senhor ainda está discutindo assuntos sérios. Por que não vai descansar primeiro? Quando terminarem, nós a chamamos."
Alice entendeu: "Ah, entendo."
"Tudo bem."
Alice virou-se e subiu as escadas; o elevador estava em silêncio absoluto.
Ela quase conseguia ouvir seu próprio coração, batendo cada vez mais rápido, cada vez mais forte.
Seu quarto ficava no terceiro andar.
Mas ela apertou o segundo.
Onde ficava o escritório.
Alice imaginava que o dia inteiro que Augusto passara fora tinha a ver com ela.
De fato, antes mesmo de chegar ao escritório, ouviu sons de discussão.
Era a voz de Bernardo: "Agora acham que ela afeta a reputação do grupo?"
"Quando o grupo usava a imagem dela para lucrar, por que ninguém pensou em limpar as ações, entregar ao fundo fiduciário ou expulsá-la?"
Mesmo que Alice estivesse mentalmente preparada, demorou a processar o que acabara de ouvir.
O ambiente ao redor ficou subitamente silencioso, seguido por um zumbido ensurdecedor nos ouvidos.
Tudo ficou confuso, restando apenas a frase "expulsá-la".
A voz de Bernardo continuava: "E você? O que você pensa sobre isso?"
A voz de Augusto veio em seguida: "É uma decisão do conselho. Se mais da metade aprovar, a proposta passa."
"Neste assunto, não é o que eu quero que acontece."
"Então você consentiu?"
Augusto parecia exausto: "Se você realmente tem uma objeção, consiga primeiro o direito de votar no conselho."
"Em vez de ficar aqui dizendo palavras inúteis."
"Então direi algo útil."
"Não importa se a expulsarem; aquele bando de gente pode decidir o que quiser." Bernardo já havia planejado tudo: "No momento em que a expulsarem, eu entregarei todas as minhas ações, fundos e ativos para ela."
"E então partirei com ela, para longe daqui, para sempre."
Augusto repreendeu severamente: "Isso é um absurdo!"
Alice sentiu-se atordoada pela discussão; o zumbido cada vez mais forte nos ouvidos encobria todos os seus sentidos.
Ela não conseguia ouvir bem o que Augusto gritava com Bernardo.
Alice virou-se para sair, mas deu de cara com Henrique subindo as escadas.
Alice desviou o olhar, passou por ele e desceu correndo.
Henrique ficou parado; sentiu as pontas do cabelo dela roçarem seu braço.
Em seus ouvidos, vinha a voz furiosa de Augusto de dentro do quarto: "Você acha que eu não quero dar? Como eu daria?"
"E você? Sob qual pretexto daria? Qual a relação de vocês para você dar?"
"Não são pai e filha, não são irmãos, não são casados. Uma transferência de ações sem um título oficial também precisa de aprovação dos acionistas."
"Se você ousar desafiar a decisão do conselho, até as suas ações podem ser confiscadas!"
Henrique, impassível, levantou o olhar.
Por trás das lentes de armação dourada sobre o nariz, refletia-se o corredor sombrio e sem luz, voltado para a porta do escritório ao fundo.
Enquanto Augusto fervia de raiva, Bernardo parecia estranhamente calmo: "Quer que eu tente?"
Do lado de fora, Henrique compreendeu.
Eles estavam pensando na mesma coisa.