CAPÍTULO 4: Vontade de arrebentar
Alice jogou a almofada no rosto de Arthur e resmungou: "Não é da sua conta."
Ela se levantou do sofá, levando consigo o que restava de sua soda de limão.
Arthur mantinha aquele sorriso leve nos lábios enquanto observava a barra do vestido dela roçar em sua calça de linho.
Ele esfregou a ponta dos dedos, sentindo uma leve coceira.
Alice despejou a bebida na pia e percebeu que algo no balcão havia sido movido.
Para ser mais exata, alguém havia arrumado tudo.
O prato do cheesecake fora jogado fora, e a bagunça anterior no balcão fora limpa. Ela perguntou casualmente: "Você veio limpar meu quarto?"
Arthur não respondeu, apenas ficou observando-a.
Alice deu uma volta pelo balcão e, ao abrir a geladeira, caiu em si.
Deveria ter sido o irmão mais velho.
Sua geladeira, antes vazia, agora estava abarrotada de petiscos sem aditivos, refeições prontas, frutas frescas, legumes e leite.
Como ela sabia que fora Henrique? Porque todas as suas sodas cheias de açúcar e corantes tinham sido jogadas no lixo.
As sobrancelhas de Alice se juntaram em um nó.
Ainda bem que ela já tinha terminado de comer as guloseimas que guardava.
Caso contrário, o irmão mais velho teria jogado tudo fora também.
O olhar de Arthur percorreu as prateleiras cheias da geladeira e pousou na expressão agora calma de Alice.
Então, agora ela sabia quem tinha passado por ali.
Ela não parecia nem um pouco surpresa; parecia até consentir que Henrique entrasse em seu quarto quando quisesse.
Alice fechou a porta da geladeira e, ao virar-se, deu de cara com o olhar inquisitivo de Arthur. Sentindo-se culpada, perguntou: "O que foi?"
Arthur se levantou. "Agora nem olhar eu posso mais?"
Ele caminhou até o outro lado do balcão e apoiou as mãos nas bordas. "Não me diga que vai querer traçar uma linha entre nós agora."
Aquele era um tópico delicado. À primeira vista, parecia inofensivo.
Mas era perfeito para atingir Alice, que estava em uma fase sensível sobre o assunto da troca de bebês.
Arthur era o primeiro a ter coragem de tocar no assunto diretamente na frente dela.
Inesperadamente, isso não despertou nela emoções negativas.
Pelo contrário, trouxe uma leveza ao ambiente, como se nada tivesse mudado entre eles.
Alice comprimiu os lábios. "Por que você estava me seguindo escondido lá fora agora há pouco?"
"Eu não estava te seguindo", disse Arthur com naturalidade. "Só estava escoltando aquela coisinha até o andar de baixo. Se ele batesse em algum lugar ou se machucasse, você teria que descer para buscá-lo, não?"
O tom de voz de Arthur era sedutor, uma característica natural dele.
Ele sabia se mover muito bem nos círculos sociais. Era, de certa forma, um mestre da interação.
Para Alice, o que ele dizia fazia sentido, mas ela ainda não estava satisfeita. "Mas você fez com que eu fosse descoberta."
"Erro meu", Arthur inclinou a cabeça. "Aceita que eu me redima?"
Alice realmente precisava de uma válvula de escape. "Então você vai passar a noite jogando videogame comigo."
O fato de Arthur ter acesso à biometria do quarto dela devia-se inteiramente às suas habilidades nos jogos. Anos atrás, quando Alice estava viciada, eles costumavam passar noites inteiras jogando.
"Fechado", Arthur fez um sinal com os olhos. "Arrume suas coisas. Vou te levar para jogar em outro lugar."
Uma hora depois, o Cullinan preto deslizou silenciosamente para fora da Vila dos Horizontes.
Alice fechou bem a janela do carro, protegendo-se da imprensa carioca, mas, para sua surpresa, não viu flashes ou lentes.
Ela esticou o pescoço e abriu uma frestinha na janela.
À medida que a noite se tornava mais tranquila e vasta, ela baixou o vidro completamente.
A brisa fresca da noite invadiu o carro, soprando seus longos cabelos cacheados. Realmente não havia nenhum repórter de plantão nos arredores.
"Cadê todo mundo?"
Arthur apoiou o cotovelo na janela e disse casualmente: "Talvez tenham ido jantar em casa."
Alice não acreditou.
Mas o fato de não ser incomodada era, sem dúvida, excelente.
Sem se preocupar com mais nada, ela abriu a janela ao máximo e ficou observando a vista noturna do Rio.
A região da Lagoa estava bem mais calma; as luzes da baía e o neon da cidade ao longe refletiam na água, criando vultos luminosos.
No espelho retrovisor, refletia-se um rosto que, à primeira vista, era de uma beleza impactante.
Alice ficou melancólica por um momento, mas não resistiu e começou a se olhar no espelho. Ao notar que sua expressão triste ficava bonita, decidiu continuar triste.
Mesmo que, no fundo, seu humor estivesse bom.
Somente quando Arthur estacionou no aeroporto é que Alice se lembrou de perguntar: "Para onde estamos indo?"
"Maldivas", respondeu Arthur ao estacionar. Ele deu a volta e abriu a porta para ela.
O Gulfstream G700 particular da família Cavalcanti já esperava na pista logo adiante.
"Você avisou ao..." Alice parou a frase no meio.
Ela ainda estava brava com o pai e a mãe. Se ele não avisou, que fosse.
Não havia necessidade de dar satisfação para sair e se divertir.
Arthur sabia o que ela estava pensando e mantinha um sorriso sutil nos lábios.
Alice era muito direta ao expressar suas emoções; tudo ficava estampado em seu rosto.
Eles chegaram à ilha de Vela na manhã seguinte.
Alice escolhera a dedo uma villa com piscina sobre o oceano, mas, ao tentar reservar, foi informada de que ela acabara de ser ocupada dez minutos antes.
Alice ficou decepcionada e, enquanto hesitava sobre qual outra escolher, viu um post de Roberta em uma rede social.
As fotos mostravam exatamente a villa que acabara de ser tirada dela.
Logo abaixo, havia um grupo de amigas em uma viagem de lazer.
Os comentários eram cheios de elogios: "A Beta está linda, aproveitem a viagem!"
"Que lugar maravilhoso!"
Alguns apelidos eram familiares.
Alice lembrou-se: eram as mesmas pessoas que estavam falando mal dela no chat ontem à noite.
Havia até uma que ficara do lado de Roberta quando ela perdeu o leilão para Alice.
Alice não se importou muito com os comentários e abriu a conversa com Roberta.
[Alice: Beta, Beta! Onde você está hospedada? Que lugar lindo!]
[Roberta: ?]
[Alice: Você tem muito bom gosto, igual ao meu. Amei esse quarto.]
[Roberta: Ah, querida, sinto muito. A caixa de relíquia eu deixei para você, mas desta vez você vai ter que ceder para a sua amiga.]
Alice não esperava ser descoberta tão rápido.
Ela não escondeu suas intenções.
[Alice: Esse quarto é enorme, você não tem medo de dormir sozinha? Não quer trocar por um menorzinho?]
[Roberta: Pois é, morro de medo. Por que você não vem dormir comigo então, Alice?]
Alice, sentindo-se provocada, mordeu o lábio e fechou a conversa.
Ao entrar novamente no site de reservas, viu que a villa oceânica subitamente aparecia como disponível.
Alice se empertigou e seus olhos brilharam. Pediu imediatamente que Arthur fizesse a reserva.
Enquanto isso, começou a enviar emojis de beijo freneticamente para Roberta.
Roberta mudou de assunto: [Vai ter uma festa na praia amanhã, você vem?]
[Organizei um show com modelos masculinos para a gente relaxar.]
Alice sorriu: [Vou pensar com carinho no seu convite [beijo.jpg].]
Roberta estreitou os olhos. Aquela coisinha sabia como instigar as pessoas.
Alice não estava fazendo de propósito.
Afinal, viajar com o irmão exigia certos cuidados.
Mas o segundo irmão era fácil de lidar e não criava problemas.
Não era rígido e cheio de regras como o irmão mais velho.
Ainda havia uma chance.
Enquanto Alice planejava como ver os modelos de forma natural, ouviu uma voz acima de sua cabeça: "O que você está conversando para estar tão feliz?"
Alice levou um susto e instintivamente virou a tela do celular para baixo. Ao erguer a cabeça, viu o rosto de Arthur a centímetros do seu.
Arthur baixou o olhar, fixando-se no celular virado por um longo tempo. Ele já imaginava do que se tratava. "O hotel está reservado."
Alice sorriu docemente para ele: "Obrigada, Arthur."
Arthur perguntou, como quem não quer nada: "Tem amigos por aqui?"
"Sim."
"Que coincidência", Arthur refletiu. "Homem ou mulher?"
Alice foi sincera: "A Roberta."
"Ah, ela." As famílias influentes do Rio se conheciam e conviviam.
A mansão dos Oliveira ficava ao lado da Vila dos Horizontes; eram, de certa forma, vizinhos.
Ao ouvir que era uma mulher, Arthur relaxou internamente.
"Já que tem amigos aqui, podem aproveitar juntos."
Arthur continuou, sondando: "Já planejaram algo? Se não, eu posso organizar algo para vocês. Que tipo de diversão vocês preferem..."
"Já está tudo planejado."
Arthur assentiu e, com mais algumas perguntas, logo conseguiu extrair todas as informações da ingênua Alice.
No entanto, ela omitiu certas palavras-chave, apenas sugerindo que haveria muita gente.
Arthur pareceu não se importar e aprovou a ideia generosamente: "Ótimo, eu também gosto de festas cheias."
"Precisa que eu chame mais alguém?"
"Não precisa", Alice ficou animada com a possibilidade. "Mas se você quiser chamar amigos para te acompanhar, sinta-se à vontade."
Afinal, ela provavelmente não teria tempo para ele.
Arthur não disse nada, nem demonstrou emoção.
Sua mão grande envolvia a taça de vinho, girando-a levemente.
O fato de Alice estar na idade de gostar de admirar homens era algo bom.
Ele também era um homem.
Arthur ergueu a taça e bebeu o vinho de uma só vez.
O clima estava perfeito. No avião, Alice trocara de roupa por um vestido de praia amarelo claro. Arthur também vestira uma camisa de praia, com os três primeiros botões abertos, revelando clavículas marcantes e a linha dos músculos abdominais.
Ao desembarcarem, um mordomo os recebeu e os levou para a villa sobre as águas.
A localização era tranquila, perto de uma lagoa, garantindo privacidade total.
Havia dois quartos, um para cada.
Alice levou suas malas para o quarto. Ao sentar-se na cama, deparou-se com o terraço e a vista para o mar.
As ondas quebrando ritmicamente traziam uma sensação de preguiça.
Alice agendou uma sessão de spa e deitou-se na cama para checar as notícias.
Após alguns dias, a repercussão diminuíra e as hashtags foram caindo.
Restavam apenas fofocas irrelevantes; era um momento de calmaria temporária.
Alice navegou por outros tópicos fúteis.
A terapeuta do spa era uma jovem do sudeste asiático, com movimentos muito profissionais.
Ela tentava se concentrar no trabalho, mas não pôde deixar de se surpreender com a pele extraordinariamente macia, sedosa e clara sob suas mãos.
A beleza de Alice era do tipo clássico e refinado.
Traços suaves e envolventes, sem qualquer agressividade; um olhar que atingia o fundo da alma, criava raízes e causava um alvoroço difícil de conter.
Alice largou o celular e começou a pensar em como se divertiria no dia seguinte e qual biquíni seria mais adequado.
Enquanto isso, no topo de um arranha-céu no Centro do Rio, Henrique estava diante da janela panorâmica. Ao longe, a noite caía sobre a Baía de Guanabara, com as luzes da cidade fluindo como um rio cintilante que se perdia na profundeza de seu olhar.
Atrás dele, a secretária relatava os impactos do recente escândalo.
Havia alguns parceiros estrangeiros querendo rescindir contratos, e Arthur já havia autorizado.
A noite densa como tinta refletia-se no rosto de traços marcantes de Henrique.
Ele interveio no momento certo, perguntando o que já sabia: "Quem autorizou?"
A secretária hesitou por um segundo e repetiu a informação de forma protocolar.
Afinal, o mercado externo era de responsabilidade de Arthur; mesmo que Henrique não tivesse ouvido bem, ele deveria saber que era seu próprio irmão quem cuidava disso.
Mas Henrique assentiu como se estivesse sabendo agora: "Certo."
"Avalie os prejuízos e envie um relatório ao presidente."
A secretária retirou-se. Henrique observou a vista noturna por mais um tempo, impassível.
Seus dedos longos giravam levemente o anel no dedo mínimo.
Na villa sobre as águas, Alice estava jogando videogame com Arthur quando ouviu o toque de um celular.
Arthur olhou para o identificador de chamadas, colocou o aparelho no silencioso e o virou com a tela para baixo sobre a mesa.
Alice notou o gesto dele.
Logo em seguida, o celular de Alice também tocou.
O identificador dizia: Papai.
Arthur fixou o olhar na tela do celular de Alice e, antes que ela pudesse pegar, ele atendeu: "O que foi?"
Alice se encolheu no sofá abraçada a uma almofada, ouvindo o tom de Arthur, que não parecia nada amigável enquanto ele caminhava da sala para o terraço.
O segundo irmão era alguém capaz de transitar em qualquer ambiente e conversar com qualquer pessoa com naturalidade; raramente demonstrava impaciência, exceto diante de Augusto Cavalcanti.
E Augusto, de fato, não podia ser considerado um pai exemplar ou um marido excepcional.
Ele carregava a frieza de anos nos negócios, sempre calculando interesses.
A atitude dos irmãos em relação a ele era complexa.
Alice sempre sentiu que o pai tinha um exterior duro, mas um coração mole, embora ela mesma muitas vezes preferisse não falar com ele.
Alice jogou algumas partidas sozinha até que Arthur voltou do terraço e devolveu o celular.
Ela perguntou: "O que aconteceu?"
"Nada", Arthur sentou-se. "Vamos continuar."
Arthur parecia estar bem, mas Alice percebeu que ele estava distraído.
Embora o celular dele estivesse no silencioso, a tela acendia e apagava constantemente.
Após observar por um tempo, Alice largou o controle e se levantou: "Se você estiver ocupado, pode ir resolver. Eu vou aproveitar para dormir."
Ela disse com um tom animado: "Não fique triste. Termine o que tem que fazer hoje e amanhã vamos juntos para a praia."
Alice desceu do sofá e deu um tapinha no ombro de Arthur antes de sair da sala e ir para seu quarto.
Arthur ficou sentado por um tempo, olhando para o celular.
Logo soltou uma risada sarcástica diante da sequência de mensagens.
No dia seguinte, o voo dele pousaria no Rio às oito da manhã.
As várias chamadas para Henrique resultavam na mesma mensagem: "O número discado encontra-se desligado ou fora da área de cobertura."
Era o aviso de celular em modo avião.
Para onde Henrique estava voando, era óbvio.
Quando finalmente conseguiu falar com ele, já eram dez da manhã. Ele ouviu a saudação formal de Henrique: "Bom dia."
Arthur respondeu com falsa cortesia: "Bom dia, irmão."
"Você se deu ao trabalho de me mandar de volta."
Henrique não mordeu a isca: "O sinal aqui nas Maldivas está ruim. Se não houver mais nada, vou desligar."
"Irmão", Arthur o interrompeu. "Nossa irmã está com ideias ousadas hoje. Ela quer sair para admirar uns modelos."
Arthur parou por ali e desligou.
Ele sabia que Henrique teria uma dor de cabeça hoje.
Henrique lhe causara um transtorno, e ele estava retribuindo.
O ideal seria que Henrique tentasse impedi-la, fazendo com que Alice ficasse irritada com ele.
Do outro lado, ao ouvir o sinal de linha ocupada, o olhar de Henrique escureceu.
Ele sabia exatamente o que Arthur estava planejando.
Alice acabara de acordar e se arrumar, admirando-se no espelho por um bom tempo.
Com o segundo irmão longe, ela pegou seu biquíni mais ousado.
Por cima, um vestido de gaze fina que revelava a cintura e as pernas, com franjas que lembravam uma cauda de sereia. Por baixo, vislumbrava-se o biquíni azul glacial com brilhos sutis, preso ao pescoço por uma corrente de cristais.
Na cintura, várias correntes de strass desenhavam suas curvas delicadas.
Era revelador, mas exibia com elegância a beleza de uma jovem mulher.
Justo então, Roberta ligou: "E aí, querida? Já decidiu? Você vem hoje?"
"Depois de um convite tão insistente, como eu poderia recusar?"
Roberta riu: "Parece até que está vindo por obrigação."
"Não é isso", Alice pegou sua echarpe e seu chapéu. "Ontem meu irmão estava aqui, mas ele voltou para casa hoje cedo."
"Não tem ninguém me vigiando, então hoje posso fazer o que eu quiser."
"Estou saindo agora, encontro você no restaurante daqui a pouco", Alice saiu do quarto falando casualmente. "A propósito, quantos daqueles teremos hoje à noite?"
"Oito. Todos passaram nos exames e na checagem de antecedentes. Contratei os novatos do Magic Mike, todos com histórico limpo."
"Eu selecionei a dedo, pode confiar", a voz de Roberta veio pelo alto-falante.
Ao mesmo tempo, Alice parou bruscamente.
Henrique estava parado diante dela e ouvira cada palavra de Roberta.
Alice estancou no lugar!
O silêncio na sala era absoluto.
Apenas as correntes de strass na cintura de Alice continuavam a balançar levemente, chocando-se contra sua pele alva e delicada com um tilintar cristalino.
O brilho das pedras refletia a luz, tornando sua pele ainda mais luminosa e macia.
Como um fruto maduro e suculento.
De uma beleza que ofuscava a vista.
Dava vontade de arrebentar.