CAPÍTULO 3: Onde foi que o irmão mais velho te fez dormir?
O tom leve e melodioso de Arthur, carregando palavras obscuras e densas, ecoou pelo corredor, fazendo o coração de quem ouvia estremecer.
Henrique hesitou por um breve momento e parou seus passos.
Sob uma camada de melancolia silenciosa, ele virou-se para encarar Arthur.
Alice estava logo ali, separada por apenas uma parede, jantando com dedicação e sem fazer a menor ideia do que acontecia do lado de fora.
Após um impasse silencioso.
Henrique o advertiu, mantendo certa distância: "Tenha cautela com o que diz e faz. Ela é sua irmã."
"Agora não é mais", disse Arthur, aproximando-se lentamente. Ele falava sem qualquer hesitação dentro da mansão principal dos Cavalcanti, como se não temesse ser ouvido. "Nós dois sabemos muito bem que a nossa relação com ela deixou de ser fraternal há muito tempo."
Sobre o fato de Alice ter sido trocada.
Eles já sabiam disso há oito anos, quando ela tinha apenas dezesseis.
Ao atingir a maioridade, Alice foi cursar a faculdade em São Paulo.
Seus registros civis também foram transferidos para lá, desvinculando-a formalmente da família. Por outros motivos, naquela época, Alice chegou até a mudar de nome.
Mas essa informação estava restrita apenas a Augusto e aos três irmãos.
Para uma pessoa comum, uma troca de bebês não passava de fofoca.
Mas para uma linhagem como a dos Cavalcanti, qualquer notícia, positiva ou negativa, afetava o valor das ações, o valor de mercado e as perspectivas de crescimento, podendo gerar prejuízos de milhões por dia.
Especialmente quando Alice nasceu; a mídia carioca fez coberturas sucessivas e as ações do grupo subiram vertiginosamente por vários dias.
Dizer agora que ela não era da família causaria, além da instabilidade no mercado, uma queda drástica na credibilidade e confiança da família diante de seus parceiros comerciais.
A intenção de Augusto era manter o segredo até encontrar a filha biológica.
Mesmo após encontrá-la, seria necessário considerar com cautela se fariam a troca e como ela seria feita.
Depois de tantos anos criando Alice, era impossível não ter sentimentos.
Além disso, ela fora criada com todos os mimos; eles se preocupavam se ela aguentaria o impacto ou se conseguiria se adaptar à nova realidade.
Augusto não confiava em estranhos, por isso encarregou seus próprios filhos de conduzirem a busca.
Mas encontrar Vitória não foi uma tarefa fácil.
O parto de Helena fora extremamente caótico; ela entrou em trabalho de parto prematuro após um acidente enquanto visitava a família do avô na Europa.
Naquela época, os corredores do hospital estavam lotados de feridos.
Havia outras sete ou oito gestantes acidentadas. Helena não fora a única a ter um parto prematuro por causa do susto.
Tudo era confusão. O jato particular de Augusto, que decolou do Rio, ficou retido por restrições aéreas, circulando por mais de dez horas até conseguir pousar em uma cidade vizinha, de onde ele seguiu de carro para o hospital.
Quando ele chegou, os bebês prematuros já estavam em incubadoras para sobreviver.
A lista de pacientes daquele hospital temporário se perdeu anos depois.
Vitória só foi encontrada há cerca de dois anos.
No entanto, a posição de Vitória era clara: ela poderia nunca retornar ao seu lugar de origem. Ela não queria.
Quanto a quando a relação deles com Alice começou a se transformar, Arthur não sabia ao certo.
Mas ele percebeu que algo estava errado com os outros dois quando Henrique subitamente decidiu enviar Alice para fazer mestrado nos Estados Unidos.
Os três tiveram uma briga feia. Todos sentiram a anomalia nos outros.
Henrique fez com que todos se acalmassem, usando o tempo de Alice no exterior para que cada um recobrasse a lucidez.
Eles firmaram um acordo tácito: enquanto Alice fosse formalmente a filha dos Cavalcanti, eles seriam seus bons irmãos e guardariam aquele segredo a sete chaves.
Só não esperavam que, desta vez, a notícia explodisse de repente.
A mídia divulgou o exame de DNA feito por Vitória há dois anos. Quem vazou a informação ou quem deu a ordem ainda precisava ser investigado.
O papel de "bons irmãos" chegara ao fim.
Ao menos Arthur sentia que já havia suportado o suficiente.
"Sem laços de sangue, fora do registro familiar e agora nem mesmo formalmente. Que tipo de cautela você quer que eu tenha?", Arthur o encarou. "Também não vejo o irmão mais velho tendo muita cautela."
Arthur perguntou: "Um bom irmão entraria no quarto da irmã sem avisar?"
"Cuide das suas obrigações", Henrique cortou a fala de Arthur. "A cadeia de financiamento por trás de parte da mídia já foi descoberta e enviada para você. Você sabe o que fazer."
"Limpe também os repórteres que estão de plantão lá fora hoje."
Arthur o chamou com um tom arrastado e sarcástico: "Irmão, você não respondeu à minha pergunta."
Henrique o ignorou. Sua figura de postura impecável e aura de retidão desapareceu pelo corredor.
Arthur refletiu por um instante e olhou com um olhar indecifrável para a porta fechada do quarto de Alice.
Quando Henrique voltou do escritório, o corredor estava vazio.
Parecia que tudo o que saíra dos trilhos voltara ao normal.
Henrique respirou fundo e abriu a porta de seu próprio quarto.
Ao fechar a porta, ele ficou parado nas sombras da entrada; sua respiração e seus pensamentos tornaram-se pesados.
Ele tentou se acalmar por um momento e, ao entrar, notou pelo canto do olho o paletó pendurado em um suporte.
Era o paletó que ele havia colocado sobre Alice.
Então ela não o estava usando mais...
Henrique respirou fundo, sentindo a garganta apertar e uma dor de cabeça latejante.
Alice já havia terminado o jantar. Do home theater, vinha o reflexo vacilante de luzes e sombras.
Henrique caminhou até lá e a viu, como imaginava, encolhida na cama da sala de cinema, com a manta jogada desleixadamente sobre o corpo, sem cobri-la totalmente.
As pernas estavam encolhidas, um contraste entre a pele alva e o tom rubro ao redor.
Ela estava encostada na cabeceira, assistindo a um documentário sobre antiguidades na tela grande.
As luzes estavam apagadas, e as sombras das imagens oscilavam sobre ela.
O cabelo solto desenhava a linha de suas clavículas bonitas antes de cair em ondas sobre seu corpo.
A alça da camisola havia escorregado para um lado devido à sua posição, revelando uma grande extensão de pele, ali, aninhada no espaço dele.
Até mesmo na cama dele.
Se fosse antes, Henrique diria seriamente para ela se vestir de forma adequada, mas hoje ele simplesmente não conseguia ser rigoroso.
Henrique não entendia: por que ela nunca conseguia se lembrar de se vestir adequadamente no quarto de um homem?
Seria preciso rasgar a roupa para que ela aprendesse?
Alice, sem qualquer defesa, ouviu os passos dele e olhou distraidamente em sua direção. No momento em que seus olhares se cruzaram, ela viu brevemente uma obscuridade nos olhos dele, que desapareceu num piscar de olhos.
Alice não achava que usar apenas uma camisola de alcinha fosse inapropriado. Afinal, no exterior, todos se vestiam assim no verão.
Ela estava pensando se ele viera para mandá-la embora.
Pois, se fosse como antes, já estaria na hora de o irmão mais velho mandá-la de volta para o próprio quarto.
Como esperado, Henrique perguntou: "Não pretende voltar?"
Alice respondeu baixinho: "Eu não quero ficar sozinha."
Ela hesitou e fez um pedido que ela mesma achou um pouco inadequado: "Posso dormir aqui esta noite?"
Sempre que ficava em seu próprio quarto, Alice tinha a sensação de que nada fora daquelas paredes tinha mais a ver com ela. Por isso, ela buscava constantemente algum lugar que ainda a conectasse àquela família.
Nessa casa, quem tinha mais ligação com ela era o irmão mais velho.
Henrique franziu a testa com uma expressão séria. Justo quando Alice achou que ele recusaria, ouviu seu suspiro resignado: "Eu estarei na sala. Se precisar de algo, me chame."
Dito isso, ele fechou a porta da sala de cinema.
Alice se encolheu sob a manta de veludo. Do lado de fora, ouvia os passos firmes e pesados do homem. Seus pensamentos tornaram-se ainda mais complexos.
Embora estivesse evitando deliberadamente o assunto ao falar com ele hoje, Henrique voltara justamente por causa disso.
Ambos sabiam muito bem. Alice também sabia que os irmãos não eram irmãos e ela não era a irmã.
Quanto mais Henrique a mimava agora, mais triste Alice ficava. Porque ela sabia que, antes, ele não seria tão permissivo.
Era estranho, contraditório. Ela não sabia ao certo o que queria.
E continuava sem entender: como era possível não serem do mesmo sangue?
Alice rolou de um lado para o outro por muito tempo, mas não conseguia aceitar.
O som dos passos lá fora havia cessado há algum tempo; parecia que Henrique já tinha ido dormir.
Alice levantou-se e suspirou.
Saiu vagarosamente da sala de cinema. O corredor estava iluminado por luzes de balizamento, mas o restante do quarto estava na escuridão.
De longe, viu que a porta do quarto de Henrique estava aberta, talvez para que ele pudesse ouvi-la caso precisasse.
Alice ficou parada por um momento e caminhou em direção ao quarto dele.
O quarto de Henrique já tinha tons escuros por natureza; com as luzes apagadas, mal se via nada.
Ela aproximou-se da cama e agachou-se.
Observou o contorno do rosto do homem e sussurrou baixinho: "Você é um bom irmão."
Pena que parece que não é mais o meu irmão.
Alice levantou-se e, através da passagem oculta ao lado do quarto dele, voltou para o seu próprio quarto.
Na cama, o homem abriu os olhos.
A frase "você é um bom irmão" ecoava em sua mente.
E Henrique sabia perfeitamente bem: ele não era.
Alice caminhou tateando no escuro até voltar.
Acendeu a luz do quarto.
No instante em que as luzes se acenderam, ela deu de cara com Arthur sentado no sofá não muito longe dali.
Ele segurava o copo com o que sobrara de sua soda de limão, observando-a com interesse.
Alice soltou um grito de susto.
Após se recuperar, pegou imediatamente uma almofada que estava à mão e foi, furiosa, tirar satisfações com Arthur: "Você quer me matar de susto!"
Ela caminhou decidida até ele e, naturalmente, ajoelhou-se no sofá com uma das pernas para ter mais apoio e bater nele.
Antes que a almofada o atingisse, foi envolvida por um aroma de rosas e cacau.
Arthur não se mexeu e aceitou os golpes. Seus belos olhos se estreitaram levemente. Momentos depois, ele segurou os pulsos dela e perguntou, como quem não quer nada: "De onde você está vindo?"
Alice hesitou, parando o movimento de bater.
Ela perguntou com convicção: "Por onde você entrou?"
Arthur sorriu. "O irmão mais velho disse que tinha te feito dormir, mas eu fiquei preocupado e vim dar uma olhada."
Ele disse isso fixando o olhar nos olhos dela: "Mas por que você não estava no quarto, querida?"
Alice perdeu as palavras, tentando desesperadamente inventar uma desculpa.
Arthur, porém, puxou-a subitamente para mais perto.
Ela tropeçou levemente, e as palavras que ia dizer ficaram presas na garganta enquanto o rosto sereno e bonito do homem preenchia sua visão.
"Diga-me", a voz de Arthur era baixa e aveludada, envolvendo-a como fios de seda. "Onde foi que o irmão mais velho te fez dormir?"
Na cama dele?